Poucos personagens da literatura resistem tanto à adaptação quanto Heathcliff. Não porque seja complexo no sentido clássico, mas porque se recusa a oferecer conforto moral. Heathcliff não organiza sua dor de forma edificante, não aprende com o sofrimento e não busca redenção. Ele permanece incômodo.


Ao longo de mais de oito décadas, cinema e televisão tentaram enquadrá-lo como herói romântico, anti-herói trágico ou vítima do próprio passado. A nova versão, que promete reacender o fascínio e a curiosidade em torno desse personagem enigmático, é a de Emerald Fennell, que traz Jacob Elordi no papel do forasteiro vingativo que o imaginário popular convencionou chamar de cigano, retomando uma das camadas mais controversas do romance.
Cada nova leitura diz menos sobre Emily Brontë e mais sobre o momento histórico, estético e ético em que foi produzida. Listar os Heathcliffs não é apenas organizar performances, mas mapear como o audiovisual lida, geração após geração, com obsessão, violência emocional, classe social e desejo.
1. Ralph Fiennes – 1992
O Heathcliff mais completo já levado às telas. Fiennes entende o personagem como uma força corrosiva, não como um amante trágico em busca de redenção. Sua interpretação sustenta a contradição central do romance: a dor não humaniza Heathcliff, ela o endurece. O amor por Catherine não o salva, o aprisiona. É a versão que mais se aproxima da violência emocional e moral imaginada por Emily Brontë, sem pedir empatia fácil ao espectador.
2. Tom Hardy – 2009
Hardy entrega um Heathcliff físico, carnal, impulsivo. O corpo é central, tanto quanto a fúria. Seu personagem parece sempre prestes a explodir, seja em desejo, seja em violência. Funciona especialmente bem na juventude, quando paixão e humilhação ainda se confundem. Em alguns momentos, a animalidade se sobrepõe à elaboração psicológica, mas nunca há tentativa de torná-lo confortável.

3. James Howson – 2011
A leitura mais radical e incômoda. Howson interpreta um Heathcliff racializado, quase silencioso, observado como intruso permanente. Não há romantização, nem psicologização excessiva. É um Heathcliff que existe como corpo excluído, marcado pela violência social. Menos icônico, mais fiel ao subtexto brutal do livro. Uma interpretação que divide justamente porque recusa sedução.
4. Laurence Olivier – 1939
O Heathcliff que moldou o imaginário coletivo. Olivier criou o arquétipo cinematográfico do personagem: melancólico, nobre na dor, romanticamente trágico. O problema é que essa versão suaviza tudo o que há de cruel e perturbador no texto original. Essencial como marco histórico, limitado como leitura moral.
5. Richard Burton – 1958
Intenso, eloquente, teatral. Burton interpreta Heathcliff como um herói trágico clássico, quase shakespeariano. Há vigor e presença, mas também excesso de retórica. O ressentimento vira discurso, a obsessão vira grandiloquência. Impressiona mais pela voz do que pela inquietação que deveria provocar.


6. Timothy Dalton – 1970
Correto demais para um personagem que exige descontrole. Dalton entrega um Heathcliff emocionalmente legível, respeitável, quase elegante. Sofre, ama e se enfurece dentro de limites seguros, o que contradiz a essência do romance. Funcional, mas inofensivo.
7. Jacob Elordi – 2026
Ainda inédito, mas já central no debate contemporâneo. A escolha de Elordi, sob a direção de Emerald Fennell, aponta para um Heathcliff jovem, fisicamente imponente e potencialmente sedutor, o que reabre a velha tensão entre romantização e crueldade. Tudo dependerá de como o filme lidará com essa presença: se vai repetir o impulso de suavizar o personagem ou explorar o desconforto de desejar alguém que não deveria ser desejável. Antes da estreia, Elordi ocupa um lugar de expectativa crítica, não de avaliação definitiva.
8- Ian McShane – 1967
Mais áspero, amargo e assombrado. Essa versão é culturalmente decisiva: foi a adaptação que Kate Bush viu ainda adolescente e que a inspirou diretamente a compor Wuthering Heights. Um Heathcliff menos romântico e mais espectral.

9- Ken Hutchison — 1978
A interpretação de Ken Hutchison marca uma virada silenciosa, mas importante, na história de Heathcliff na televisão britânica. Menos interessado em romantizar o personagem, Hutchison constrói um Heathcliff áspero, socialmente ressentido e emocionalmente truncado. Não há ali o magnetismo trágico de Olivier nem a grandiloquência de Burton. O que existe é uma presença desconfortável, quase ríspida, que parece sempre deslocada do ambiente ao redor.
10- Cliff Richard — 1997
Em 1997, Cliff Richard interpretou Heathcliff em um musical. A obra se concentra principalmente na vida de Heathcliff, em sua obsessiva tentativa de conquistar Cathy e em sua existência após a morte dela. A música é de John Farrar, e as letras são de Tim Rice.
No mesmo ano, Cliff Richard lançou o filme Heathcliff, que fez tanto sucesso que acabou sendo levado aos palcos de Birmingham em 1998, consolidando a versão musical como uma das releituras mais populares e acessíveis do personagem fora do circuito tradicional de cinema e televisão.
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