Quando a The Walt Disney Company anunciou que Josh D’Amaro será seu novo CEO a partir de 18 de março de 2026, após votação unânime do conselho de administração, a notícia foi recebida como o encerramento de um longo processo sucessório. No entanto, reduzir esse movimento a uma simples troca de comando é ignorar a dimensão histórica do que está sendo resolvido agora. A escolha de D’Amaro funciona como um diagnóstico tardio e explícito da crise que atravessou a Disney ao longo dos anos 2020 e, por extensão, da crise estrutural que atingiu Hollywood quando o setor apostou tudo em expansão contínua, streaming irrestrito e crescimento sem lastro.
A origem desse processo está na saída inicial de Bob Iger em 2020, apresentada à época como uma transição madura após quinze anos de uma liderança que redefiniu o entretenimento global por meio da consolidação de franquias e aquisições estratégicas. A narrativa institucional falava em planejamento e continuidade, mas a realidade rapidamente expôs fragilidades profundas. A pandemia fechou parques no mundo inteiro, eliminando a principal âncora financeira da empresa, enquanto o streaming foi acelerado como solução emergencial, crescendo rápido demais, caro demais e sem disciplina clara de identidade ou custos.

O escolhido para substituir Iger naquele momento foi Bob Chapek, então presidente da divisão de parques, produtos e experiências. A ironia histórica é incontornável. Chapek também vinha dos parques, também representava o lado operacional da Disney e também parecia, no papel, uma escolha capaz de oferecer estabilidade em meio ao caos. O que se seguiu, porém, foi um colapso de autoridade simbólica e estratégica. Chapek assumiu quando os parques estavam fechados, o streaming inflado artificialmente pela pandemia e a empresa mergulhada em uma reorganização interna que concentrou decisões financeiras e diluiu o poder criativo.
A Disney passou a produzir muito, gastar mais ainda e comunicar cada vez menos coerência. Investidores perderam confiança, talentos se afastaram, e o público começou a sentir uma saturação de conteúdo que já não carregava o mesmo peso cultural. Chapek não caiu apenas por decisões impopulares, mas porque representou o fracasso de uma sucessão feita no momento errado, com a base financeira errada e sem consenso interno. O problema não foi ele vir dos parques, mas o fato de que, naquele momento, os parques não tinham força suficiente para sustentar o resto do império.
É nesse contexto que a volta de Bob Iger em 2022 precisa ser lida como intervenção emergencial, e não como retorno triunfal. Iger reassumiu uma empresa desorganizada, pressionada por investidores ativistas, por um streaming deficitário e, pouco depois, pelas greves históricas de roteiristas e atores que paralisaram Hollywood e escancararam tensões profundas sobre remuneração, direitos autorais e o impacto da tecnologia no trabalho criativo. Sua missão não era inovar, mas conter danos, restaurar previsibilidade e preparar uma transição que não repetisse o desastre anterior.
A pergunta inevitável é se essa volta funcionou. Funcionou parcialmente. A Disney deixou de parecer à deriva, desacelerou a produção, reviu estratégias e voltou a falar em foco e disciplina. Mas não funcionou como solução definitiva, porque nunca foi essa a intenção. Iger voltou para fechar um ciclo interrompido de forma caótica, ganhar tempo e sair quando a empresa estivesse novamente de pé. Sua saída agora não é abandono nem fracasso, mas consequência lógica de um trabalho com começo, meio e fim.

É justamente por isso que a escolha de Josh D’Amaro representa uma correção histórica e não uma repetição do erro Chapek. O cenário mudou radicalmente. Os parques não apenas se recuperaram como se tornaram o eixo incontestável da Disney. Em 2025, a divisão de parques, experiências e produtos gerou algo entre 35 e 36 bilhões de dólares em receita, respondendo por mais da metade do lucro operacional da companhia. Apenas no primeiro trimestre fiscal de 2026, esses negócios renderam cerca de 10 bilhões de dólares, impulsionados por aumento no gasto por visitante, experiências premium e uma demanda que se mantém alta mesmo em cenários econômicos adversos.
Esses números encerram qualquer debate conceitual. Se durante décadas pensamos na Disney como a empresa dos desenhos, depois dos filmes, depois das séries, depois das franquias globais como Marvel, Star Wars ou Tron, os anos 2020 deixaram claro que é a Disney dos parques que comanda todas as outras. Não por nostalgia ou romantismo, mas por necessidade estrutural. São os parques que amortecem fracassos criativos, sustentam riscos de longo prazo e garantem tempo para ajustes quando o streaming sangra caixa ou quando uma franquia perde fôlego.
Ao escolher D’Amaro, a Disney assume explicitamente que conteúdo não lidera mais sozinho. Filmes, séries e franquias passam a ser pensados como partes de um ecossistema cujo centro é físico, experiencial e financeiro. A narrativa precisa ser expansível, reconhecível e capaz de se materializar em espaço, ritual e memória, algo que nenhum algoritmo substitui.

A criação do cargo de Chief Creative Officer e a nomeação de Dana Walden para essa função reforçam essa reorganização. Ao separar com mais clareza quem cuida da engrenagem financeira e quem protege a imaginação da marca, a Disney tenta evitar o erro da era Chapek, quando a centralização financeira sufocou o discurso criativo sem resolver o problema estrutural. Walden passa a ser a guardiã da coerência narrativa, enquanto D’Amaro garante a sustentação do sistema.
A saída definitiva de Bob Iger até o fim de 2026 fecha esse arco com um gesto quase pedagógico. Ele sai não porque falhou, mas porque representa uma era que não pode mais ser repetida nos mesmos termos. Seu legado final talvez não seja a expansão agressiva, mas a compreensão de que até impérios precisam recuar, reorganizar se e aceitar que o centro de poder mudou de lugar.
Nos anos 2020, a Disney aprendeu da forma mais dura que histórias não sobrevivem sozinhas. Elas precisam de chão. E, no universo Disney, esse chão continua sendo feito de concreto, fila, ingresso, castelo e parque lotado.
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