As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina 2026 abriram espaço para um movimento curioso e revelador na patinação artística. Em meio à valorização natural de compositores italianos e do repertório clássico, um nome voltou a soar com força no gelo: Hans Zimmer. Não como exceção isolada, mas como sintoma de uma busca mais ampla por épico, narrativa e catarse. No centro desse retorno está Gladiador, cuja trilha completa 26 anos e parece mais viva do que nunca.
Zimmer não é um visitante ocasional da patinação. Ele é um dos compositores mais usados da história do esporte, especialmente em programas livres e em ciclos olímpicos. Divide espaço com Tchaikovsky, Puccini e Bizet no panteão recorrente dos juízes, mas se diferencia por representar o imaginário cinematográfico do século 21. Suas trilhas atravessam os últimos 25 anos e continuam soando contemporâneas.

Na temporada 2025-2026, isso se materializa de forma concreta. Entre os pares, Lia Pereira e Trennt Michaud, do Canadá, competem com um free skate estruturado inteiramente sobre um medley de Gladiador, incluindo “The Emperor Is Dead”, “The Might of Rome”, “Honor Him” e “Now We Are Free”. É uma escolha assumidamente épica, pensada para grandes arenas e para impacto emocional direto.
Outros nomes orbitam o mesmo repertório. O japonês Rio Nakata anunciou um free skate baseado em Gladiador, reforçando como a trilha voltou a circular entre atletas que buscam densidade narrativa. No ice dance, Zimmer aparece por outra via. Olivia Smart e Tim Dieck, da Espanha, competem nesta temporada com música de Duna, confirmando o compositor como referência estética do ciclo olímpico, ainda que não especificamente por Gladiador.
Esse retorno não acontece no vazio. Em Milão-Cortina 2026, há uma ênfase clara em compositores italianos para celebrar o país-sede, com Puccini e Verdi ocupando lugar central e “Nessun Dorma” reaparecendo como peça simbólica. Ainda assim, Zimmer permanece como escolha recorrente para programas que exigem potência cinematográfica. Quando a patinação quer voltar a ser épica, ele é quase inevitável.

Para entender por que Gladiador ocupa esse lugar privilegiado, é preciso voltar aos bastidores do filme e à colaboração singular entre Zimmer e Lisa Gerrard. Quando Ridley Scott convidou Zimmer, a orientação era clara: o filme não deveria soar como um épico romano tradicional. O império retratado estava moralmente em ruínas, e a música precisava refletir uma espiritualidade ferida, algo mais ancestral do que heroico.
Lisa Gerrard entrou no projeto justamente por isso. Ela vinha de um percurso totalmente fora de Hollywood, como cofundadora do Dead Can Dance, grupo cult que misturava música medieval, cânticos litúrgicos, folk europeu, influências do Oriente Médio e experimentação sonora. Seu vocal nunca se preocupou com letra no sentido tradicional. Muitas vezes ela canta em línguas inventadas, priorizando emoção, respiração e sensação física.
Zimmer abriu espaço para que Gerrard improvisasse livremente sobre seus temas. Não havia texto escrito nem tradução. “Now We Are Free” nasce desse processo intuitivo. É lamento, despedida e libertação ao mesmo tempo. A ausência de uma língua reconhecível permite que a música atravesse culturas e épocas sem se fixar em nenhuma.
O impacto foi imediato. A trilha venceu o Globo de Ouro, foi indicada ao Oscar e ao BAFTA, tornou-se um fenômeno comercial e ajudou a redefinir a música épica no cinema dos anos 2000. Mais do que isso, criou um modelo emocional que seria amplamente replicado nas décadas seguintes.
Esse modelo explica por que Gladiador funciona tão bem na patinação artística. A música oferece estrutura narrativa clara, pausas respiratórias, crescendos longos e um clímax que não depende de explosão, mas de entrega. No gelo, isso se traduz em programas que contam uma história completa em poucos minutos, algo que juízes e público reconhecem imediatamente.


O retorno de Gladiador no ciclo olímpico de 2026 também revela uma mudança de humor no esporte. Depois de anos muito centrados na técnica pura, há uma busca mais explícita por emoção, catarse e sentido narrativo. A voz de Lisa Gerrard, com sua origem no Dead Can Dance, adiciona uma camada quase ritualística que dialoga diretamente com esse momento.
Lisa Gerrard nunca foi absorvida pelo sistema hollywoodiano. Mesmo após Gladiador, manteve sua carreira autoral e paralela. Talvez por isso sua contribuição permaneça tão intacta. Não há concessão nem tentativa de agradar. O cinema foi até ela. A patinação agora faz o mesmo.
O que se vê no gelo em Milão-Cortina 2026 não é a repetição de uma trilha famosa, mas a reaparição de uma obra que continua dizendo algo essencial. Gladiador segue sendo escolhida porque fala de perda, honra e liberdade sem precisar explicar nada. E Hans Zimmer, hoje um dos pilares sonoros da patinação artística, encontra ali uma de suas criações mais duradouras.
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