Sansa Stark, de Game of Thrones, costumava dizer, com razão, que “demorava para aprender, mas aprendia”. E o papel fez de Sophie Turner uma estrela. A distância de Sansa para Zara Dunne, da série Steal, é estratosférica, mas, pela primeira vez em muitos anos, fiquei surpreendida com Sophie: à vontade, versátil e convincente. E se ela não estivesse tão bem na série, talvez ela não funcionasse tão bem.
Steal começa como um thriller preciso e termina como algo mais instável, mais ambíguo e, por isso mesmo, mais revelador. À primeira vista, é uma série sobre um assalto de proporções históricas, a invasão armada de um escritório financeiro e o roubo de bilhões de libras em fundos de pensão. Mas rapidamente fica claro que o verdadeiro interesse da narrativa não está no golpe em si, e sim no que esse evento extremo faz emergir em pessoas comuns quando o verniz da normalidade se rompe.

Ambientada no espaço asséptico de uma gestora de investimentos, Steal desloca o gênero do crime para um território desconfortavelmente familiar. Não há glamour, joias ou cofres cinematográficos. O que está em jogo são números abstratos que representam o futuro de milhares de trabalhadores anônimos. O assalto não invade um banco lendário, mas um escritório como tantos outros. E essa escolha muda tudo. O crime deixa de ser exceção espetacular para se tornar espelho de um sistema que já opera, cotidianamente, à base de risco, aposta e desigualdade.
No centro desse colapso está justamente Zara, que é, como mencionei, um dos papéis mais interessantes da atriz pós Game of Thrones. Zara não é construída como heroína, tampouco como vítima exemplar. Ela surge desorganizada, ressentida, emocionalmente à deriva. Uma trabalhadora que se sente estagnada, subestimada, presa em um ciclo de frustrações profissionais e familiares. Turner evita qualquer arco de redenção fácil. Sua Zara reage como alguém encurralado. Não há bravura coreografada, apenas instinto.
Essa escolha não é casual. Turner tem falado abertamente sobre seu interesse por personagens complicadas, caóticas, potencialmente difíceis de amar. Mulheres que erram, que se contradizem, que não sabem exatamente quem são nem para onde vão. Em Steal, essa filosofia encontra terreno fértil. Zara não “descobre sua força” de forma inspiradora. Ela é empurrada para decisões moralmente turvas por uma soma de circunstâncias: desigualdade salarial, um passado familiar violento, a sensação constante de não ter valor. O que a série propõe não é a pergunta sobre certo ou errado, mas sobre limite. Até onde alguém pode ser pressionado antes de romper?

A dinâmica com Luke, vivido por Archie Madekwe (Saltburn), reforça essa lógica. Enquanto Zara endurece, ele se desintegra. O trauma não produz respostas universais. Alguns sobrevivem se adaptando. Outros simplesmente quebram. A amizade entre os dois, construída com uma intimidade que transborda a tela, ancora emocionalmente a série mesmo quando a trama se torna mais abstrata.
Fora do prédio sitiado, a investigação conduzida por DCI Rhys, interpretado por Jacob Fortune-Lloyd ( de The Great), adiciona uma camada temática clara, embora nem sempre dramatúrgica. Seu vício em jogo funciona como metáfora direta para o universo que Steal quer discutir: um mundo em que tudo é aposta, em que poucos jogam com o dinheiro de muitos e quase nunca perdem. É uma ideia potente, ainda que o roteiro nem sempre consiga transformá-la em conflito narrativo à altura.
É justamente aí que Steal revela sua maior ambição e também sua principal fragilidade. A série quer falar sobre dinheiro como força moral, sobre a concentração obscena de riqueza, sobre a normalização de um sistema em que executivos blindados acumulam bônus enquanto trabalhadores vivem no limite. O diagnóstico é correto e relevante. O problema é que, depois de levantar essas questões, a narrativa hesita em levá-las às últimas consequências.

O primeiro episódio funciona como um thriller exemplar, enxuto, tenso, quase autossuficiente. À medida que os episódios avançam, a série acumula conspirações, camadas e reviravoltas que nem sempre aprofundam o que já foi colocado. Mas isso é típico de dramas britânicos: reviravoltas que mudam o curso da história. E aqui, funciona.
Steal é interessante porque tenta ir além do gênero, porque se recusa a tratar o dinheiro como abstração neutra e porque confia em uma protagonista que não busca simpatia fácil. E Sophie se destaca e por isso sustenta a ambiguidade com inteligência, trazendo para Zara uma fisicalidade tensa, um humor seco, uma vulnerabilidade que nunca vira autopiedade.
O arco final não oferece catarse plena, nem redenção clara. Zara termina diferente, mais consciente de sua própria capacidade, mas não ilesa. É um encerramento coerente com a proposta de uma série que entende o caos não como espetáculo, mas como condição contemporânea. Em um mundo em que o sistema já é violento por natureza, talvez o maior desconforto de Steal seja justamente este: perceber que o assalto é apenas o sintoma mais visível de algo que já estava profundamente errado.
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