As 10 Melhores Adaptações de Livros em Filmes e Séries

Existe uma armadilha recorrente quando se fala em adaptações literárias: a ideia de que fidelidade significa reprodução. Não significa. As grandes adaptações da história não são as que copiam o texto original, mas as que compreendem o que nele é essencial e encontram, no audiovisual, uma linguagem equivalente para esse núcleo. Às vezes isso exige cortes, reorganizações, deslocamentos temporais ou escolhas estéticas ousadas. Desde que o espírito do livro sobreviva, a adaptação não apenas funciona como, muitas vezes, se torna definitiva.

É difícil fechar um ranking definitivo, pois cinema e literatura andam de mãos dadas e a subjetividade impera. Por isso as obras abaixo não formam um ranking fechado, nem pretendem esgotar o tema. São apenas um recorte possível entre tantas adaptações que provaram que literatura pode, sim, ser transportada para as telas com inteligência, respeito e personalidade. E que esse ranking, como toda boa leitura, está sempre sujeito a mudar.

1. O Poderoso Chefão (1972–1990)

Francis Ford Coppola entende que o romance de Mario Puzo nunca foi apenas sobre máfia, mas sobre poder, herança e a corrosão moral provocada pelas escolhas. Ao refinar personagens, silêncios e estruturas, os filmes transformam o livro em tragédia clássica.

O segundo capítulo, em especial, é um exemplo raro de adaptação que não apenas respeita o material original, como o transcende. Mesmo o terceiro, mais fraco, vem de material do livro, de entrelinhas sugeridas, de tramas que foram excluídas dos dois anteriores para reduzir a já longa duração de cada filme. É uma adaptação digna de ser chamada de perfeita.

2. Romeo + Juliet e Romeu e Julieta

Sei que soa empate, mas entendam: dois diretores geniais e autorais ousaram revisar uma das histórias mais trágicas de todos os tempos, com quase 30 anos entre elas. E ambas são perfeitas.

Hoje soa cômico, mas em 1968, Franco Zeffirelli “inovou” em sua adaptação do clássico de Shakespeare por ter sido a primeira versão a escalar atores com idades próximas às dos personagens da peça original. A trilha sonora de Nino Rota só completou o que se pode considerar uma grande adaptação literal da obra. O fato é que Romeu e Julieta foi sucesso absoluto, vencendo os Oscars de Melhor Fotografia e Melhor Figurino, além de ter sido indicado a Melhor Direção e Melhor Filme, tornando-se o último filme baseado em Shakespeare a receber indicação nesta última categoria.

Por isso, quando 28 anos depois Baz Luhrmann elegeu Leonardo DiCaprio e Claire Danes para sua releitura em 1996, muitos torceram o nariz. Como modernizar o texto poético do bardo inglês e falar com jovens que mal o compreendiam? Luhrman provou que trazer a história para o tempo presente, mudar a narrativa mas preservar o texto intacto (sim, comas mesmas falas escritas no final do século 16) era possível. Quando tranformou os monólogos finais em diálogo, te juro: chorei como se não soubesse o que ia acontecer desde o início do filme. Ainda é um dos meus filmes favoritos do diretor.

3. Razão e Sensibilidade

Jane Austen pode não ter sido mega quando viva, mas há décadas é uma das favoritas da TV e do cinema. Com razão. Uma das adaptações mais sensíveis de seus livros veio por Emma Thompson e Ang Lee, que elegeram o menos conhecido (até 1995) Razão e Sensibilidade em vez de apostar nos populares Emma (quantas versões podemos discutir?) e Orgulho e Preconceito (atualmente o filme de Joe Wright, de 2005, é considerado perfeito).

Thompson e Lee compreendem que Austen escreve sobre repressão emocional, sobre o que é contido e não dito. O filme traduz essa delicadeza em silêncio, pausa e gesto mínimo, preservando o espírito do romance sem torná-lo ilustrativo ou engessado. Sim, há algumas liberdades inclusive no fato de que Emma Thompson jamais poderia ter interpretado uma jovem de 19 anos, mas no mais é tão perfeito que não atrapalha.

4. O Grande Gatsby e O Grande Gatsby

Duas leituras diferentes, ambas legítimas. O filme de 1974, com roteiro de Coppola, aposta na melancolia e na contenção; o de 2013,de Baz Luhrman, abraça o excesso, o espetáculo e o delírio como forma de expor a decadência do sonho americano. Ambos são fiéis porque Fitzgerald comporta essas interpretações. Não existe um único Gatsby possível.

Particularmente me divido pois acredito mais na Daisy inconsequente de Mia Farrow do que a apaixonada e insegura de Carey Mulligan, mas mesmo que Robert Redford seja o Jay Gatsby descrito no livro, é a interpretação de Leonardo DiCaprio (que considero a sua melhor) que sustenta a revisão do clássico.

5. Game of Thrones

Mesmo com um final amplamente contestado, as primeiras temporadas representam um marco na história das adaptações televisivas. A série compreendeu a estrutura fragmentada de George R. R. Martin, o peso do ponto de vista e a centralidade da política cotidiana. O colapso posterior não apaga a inteligência narrativa que a tornou um fenômeno. Sempre tem que estar na lista das melhores adaptações de fantasia já realizadas. Mereceu todo hype e prêmios.

6. O Senhor dos Anéis

Um exemplo quase didático de como adaptar o inadaptável. Peter Jackson corta, funde e reorganiza, mas preserva o coração moral da obra de Tolkien. O cinema entende que a força do texto não está na literalidade dos eventos, mas na mitologia vivida, no senso de jornada e sacrifício. Poucas adaptações fizeram escolhas tão precisas. Okay, os puristas se incomodam com o que Jackson excluiu no final que destoou do livro, mas tudo renderia um outro filme que poderia tornar a saga cansativa. Podem atirar as pedras, amo a versão do filme.

7. Harry Potter (2001–2011)

Um caso raro de adaptação seriada que cresce junto com seu público. A saga cinematográfica acompanha o amadurecimento dos livros de J.K. Rowling, ajustando tom, temas e densidade emocional ao longo de uma década. Mesmo com cortes inevitáveis, os filmes preservam o núcleo da história: pertencimento, escolha moral e a travessia dolorosa da infância para a vida adulta.

Infelizmente, o melhor livro foi o que foi seguido menos ao pé da letra: Harry Potter e o Enigma do Príncipe é bem mais impactante nas páginas do que nas telas, mas, todos os outros foram simplesmente perfeitos.

8. Entrevista com o Vampiro

A nova versão da obra de Anne Rice reinterpreta sem desrespeitar. Atualiza contexto histórico, raça, sexualidade e dinâmica de poder, mas preserva o que sempre foi central: culpa, desejo, memória e a eternidade como maldição. Ao assumir o narrador instável como estrutura, a série transforma subtexto literário em motor dramático. É – finalmente – o reconhecimento de uma trilogia tão adorada pelos fãs, mas que no cinema não conseguiu emplacar. Na TV, está em casa.

9. A Knight of the Seven Kingdoms

Talvez a adaptação mais humana do universo de Westeros. Ao reduzir o espetáculo e ampliar o foco em ética, destino e escolhas individuais, a série entende que essas histórias falam menos de dragões e mais de responsabilidade moral e consequências silenciosas. Até o momento, é unanimidade.

10. Slow Horses

Um exemplo contemporâneo de adaptação precisa. A série respeita o humor ácido e o desencanto dos livros de Mick Herron, mas entende que televisão exige ritmo e centralidade em personagem. Jackson Lamb funciona porque a adaptação sabe que caráter pesa mais do que engenhosidade de trama. Gary Oldman é simplesmente imbatível.

E o que ficou de fora?

Muitas outras adaptações de TV ou cinema poderiam ocupar um lugar aqui, dependendo do critério, do momento ou do olhar lançado sobre elas. A proposta aqui foi olhar para as que tentaram de alguma forma ajustar histórias complexas que precisaram ser ajustadas, mas que, ainda assim, foram tão boas quanto os os livros/peças.

Na verdade, listas como essa não existem para fechar um debate, mas para mantê-lo vivo. Há tantas adaptações possíveis quanto boas leituras. Essas são apenas algumas. Amanhã, o ranking pode — e deve — mudar. Qual seria o seu?




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