Como publicado na Revista Bravo!
Como quase tudo hoje, o debate em torno de adaptações literárias tende a se organizar de forma binária. Ou se aceita qualquer releitura como sinal de modernidade, ou se acusa todo desvio do texto original de traição. Eu me posiciono há anos de forma clara nesse território e não me incomoda assumir um olhar mais purista e conservador quando falamos de literatura transposta para o cinema. Não por fetiche da fidelidade literal, mas porque já vimos inúmeras vezes como determinadas escolhas artísticas conseguem iluminar o que há de mais poderoso em um livro, enquanto outras simplesmente o diluem, o simplificam ou o descaracterizam.
Desde o anúncio de “O Morro dos Ventos Uivantes”, com aspas assumidas, dirigido por Emerald Fennell, esse debate voltou ao centro da conversa. Fennell é uma diretora singular, premiada, indiscutivelmente talentosa. Foi original em Bela Vingança, com o qual venceu o Oscar de roteiro original, e confirmou sua assinatura visual e provocativa em Saltburn. Mesmo quando trabalha com referências reconhecíveis da literatura e do cinema, Fennell demonstra segurança estética, domínio do erotismo como linguagem e uma confiança autoral que costuma resultar em obras divisivas, mas raramente desinteressantes.


É justamente por isso que sua entrada no terreno das adaptações literárias exige um olhar mais rigoroso. Diante da minha leitura de O Morro dos Ventos Uivantes, não concordo com a ideia de que se trata de uma grande história de amor, menos ainda da maior de todos os tempos. Mas o problema central da versão de Fennell vai além da interpretação temática. A diretora opta por uma estratégia antiga e recorrente no cinema: recortar apenas um fragmento da obra e ignorar justamente sua camada mais complexa. Ao eliminar a segunda parte da história e um personagem essencial, transferindo sua função dramática para outro, ela altera dois pilares centrais da narrativa. O resultado não é uma adaptação, mas uma reescrita. Eu pessoalmente não acho que o clássico de Emily Brönte – ainda moderno hoje – demandasse reescrita.
Ao menos, há honestidade nesse gesto. As aspas no título funcionam como um aviso. Fennell não esconde que está contando a história a partir de sua experiência pessoal como leitora, do impacto emocional que o livro teve sobre ela. Dentro da lógica da arte, isso é legítimo. A subjetividade é parte essencial do processo criativo. As aspas cumprem o mesmo papel de um “inspirado em”, sinalizando que não se trata de uma tradução direta da obra literária.
O problema começa quando essa liberdade autoral se choca com aquilo que torna O Morro dos Ventos Uivantes singular. Emily Brontë não escreveu um romance sobre almas gêmeas impedidas de viver um amor pleno. Escreveu sobre herança emocional, violência que se transmite entre gerações, narcisismo, ressentimento como força estruturante e incapacidade de romper ciclos. É um livro deliberadamente desconfortável, povoado por personagens que não pedem empatia fácil e por uma narrativa que insiste em mostrar consequências.


A trama acompanha a relação profundamente disfuncional entre Heathcliff, um órfão acolhido pela família Earnshaw, e Catherine, filha do proprietário da sombria propriedade em Yorkshire. Quando Catherine decide se casar com Edgar Linton, não por amor, mas como estratégia consciente de ascensão social, Heathcliff transforma a rejeição em propósito. O romance não busca redenção nem conciliação. O que se segue é um projeto frio e meticuloso de vingança destinado a corroer duas linhagens familiares. A obsessão atravessa a vida, a morte e o próprio espaço narrativo. O fantasma de Catherine é tanto real quanto metafórico, mas, acima de tudo, revela que nem o tempo quebrou o elo de almas e que não houve arrependimentos. É sensacional e ousado, não há como recomendar mais a leitura da obra original.
Nada ali é romântico no sentido confortável do termo. O livro do século 19 é um mergulho sombrio no que há de mais bruto na alma humana. Explora relações atravessadas por abuso, violência emocional e ressentimento, usando o romance gótico não para embelezar o drama, mas para transformá-lo em maldição. O sofrimento não purifica, não ensina, não redime. Ele se reproduz.
A leitura de Fennell segue outra estrada. Embora o filme não ignore completamente a toxicidade da relação entre Cathy e Heathcliff, essa dimensão aparece domesticada. Ao deslocar o foco da violência estrutural para a obsessão amorosa, o filme corre o risco de romantizar dinâmicas abusivas que Emily Brontë construiu justamente para causar desconforto.
Essa decisão se materializa na encenação do desejo. O filme aposta no magnetismo físico de Margot Robbie e Jacob Elordi, nos closes insistentes, nos diálogos carregados de intensidade performática. O drama deixa de ser corrosivo para se tornar sensorial. A dor passa a ser exibida, não acumulada. Em vez de incômodo, gera impacto imediato.
Nesse recorte, a aproximação com narrativas de filmes menos densos voltados para o público jovem não é descabida porque “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emeral Fennell se estrutura no exagero emocional, no erotismo controlado e em uma leitura indulgente das relações tóxicas, embaladas como intensidade amorosa. Se enquadra nas fantasias que já nascem filtradas pelo desejo de consumo rápido e pela estética da identificação imediata, pilares do imaginário afetivo da Geração Z.

Esse diálogo com o público jovem aparece também na própria linguagem cinematográfica. Diferente do desejo reprimido e sufocante do romance de Brontë, o longa aposta em uma sensualidade exuberante, mas curiosamente asséptica. Também ignora o tempo de maturação que a história exige. As cenas são curtas, fragmentadas, a passagem do tempo – que nos faz entender a semente do ódio de Heathcliff – não está lá.
Eu gosto da trilha sonora com Charli XCX que traz o ar contemporâneo dessa visão de Fennell, mas não chega aos pés do que Baz Lurhman conseguiu fazer, por exemplo, tanto em Romeo+ Julieta e O Grande Gatsby, duas grandes adaptações de clássicos que provam que sim é possível ser fiel e moderno ao material original.
O fato é que, o resultado aqui é o de um filme visualmente sedutor, mas dramaticamente raso. Figurino e cenografia são impecáveis, com trajes assinados pela genial Jacqueline Durran, todos deliberadamente anacrônicos, mas que traduzem com clareza a ascensão social de Cathy. Na fase em que Heathcliff volta como um “Mr. Darcy do mal”, há uma objetificação de Jacob Elordi e ninguém pode culpá-la. Desculpem.
Só que a escalação do elenco é o que compromete ainda mais a densidade dramática. A infância de Cathy e Heathcliff, fundamental para compreender a crueldade dos adultos, recebe pouco espaço. No livro, é ali que a violência emocional nasce. No filme, essa transição soa apressada, quase decorativa.
Margot Robbie é uma grande atriz, mas sua maturidade cria um descompasso com a essência da personagem que não ultrapassa os 20 anos no livro. Cathy é marcada pela impulsividade de sua idade e pela dificuldade de atravessar a juventude. A presença segura da atriz gera uma estranheza que distancia o espectador porque é estranho vê-la nesse lugar. E Jacob Elordi tinha o desafio mais infeliz com tantos atores lendários antes dele emprestando à Heathcliff diferentes camadas. A dele é a de um Heathcliff contido demais e faz falta a brutalidade, descontrole e ferocidade que distanciam Heathcliff de ser um herói romântico. E nem começamos a entrar na roda da discussão da dimensão racial e social do personagem no livro, que seria atual e interessante passar a ser canônica.

O que me faz ficar rabugenta quando clássicos são “revistos” anacronicamente é que, se precisam mudar, por que recontá-los? Há muitos exemplos de como o cinema consegue ser fiel a uma obra literária sem ser literal, reverente sem ser engessado, autoral sem ser arbitrário. Razão e Sensibilidade, de Ang Lee, com roteiro de Emma Thompson, entende Jane Austen por dentro. O Talentoso Ripley preserva a ambiguidade moral de Patricia Highsmith. Os dois que citei de Lurhman, as versões atualizadas de Shakespeare. Nenhum desses filmes suaviza o que há de incômodo em suas obras de origem.
Por isso estou dividida em não amar “O Morro dos Ventos Uivantes” de Fennell. Não por ser autoral, isso é sempre bom, mas por deslocar o centro nervoso da obra. Ao transformar uma engrenagem complexa em uma linha reta, o filme perde aquilo que faz o romance sobreviver ao tempo. Em nome da identificação, da sensualidade e da intensidade imediata, abandona-se a recusa ao conforto que define Emily Brontë.
Ser conservadora nesse debate hoje é um gesto de resistência crítica. Não contra novas leituras, mas contra a ideia de que todo clássico precisa ser corrigido para funcionar no presente. Alguns livros permanecem justamente porque não se ajustam. Porque continuam ásperos. Porque exigem mais do leitor e, por consequência, do cinema que se propõe a traduzi-los.
E quando isso não acontece, verdade seja dita, aspas não são suficientes. Talvez fosse mais honesto escolher outro nome.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
