Não é como se o lançamento de The Dreadful fosse mover multidões ou redefinir o mercado de horror. Mas ele fala, de forma muito direta e quase provocativa, com um subfenômeno persistente dentro do universo de Game of Thrones: os chamados Jonsas. Sim, existe um grupo fiel de fãs que defendeu, por anos, um romance entre Jon Snow e Sansa Stark. Tecnicamente primos de primeiro grau, criados como irmãos, unidos mais pelo trauma do que por qualquer tensão romântica explícita no texto original.
Tudo começa, como quase tudo nessa mitologia, com emoção mal digerida. Depois de cinco temporadas de perdas, abusos e dispersão brutal dos Stark, o reencontro entre Jon e Sansa foi uma das cenas mais comoventes de toda a série. Pela primeira vez, a família parecia respirar. O abraço era sofrido, intenso, profundamente fraterno. Mas parte do público decidiu ler ali algo a mais. Nasciam os Jonsas.

A ironia é que Game of Thrones nunca teve pudor com incesto. Jon se envolve romanticamente com sua tia, Daenerys, antes de conhecer a verdade sobre sua origem. Quando descobre, reage com repulsa e afastamento, uma escolha que acelera um final já historicamente condenado. Para os Jonsas, isso pouco importa. A química existia, insistiam eles, ainda que nunca tenha sido correspondida pela narrativa.
É nesse ponto que The Dreadful entra quase como uma provocação consciente.
Dirigido como um horror gótico de atmosfera e maldição, o filme marca a primeira reunião de Kit Harington e Sophie Turner desde o fim da série da HBO, mas agora em papéis que não poderiam ser mais desconfortáveis para quem acompanhou oito temporadas de laços quase familiares. Aqui, eles não são irmãos. São amantes.
Ambientado na Inglaterra medieval, The Dreadful acompanha Anne, uma mulher isolada à margem da sociedade, vivendo sob a opressão da mãe do marido, Morwen, interpretada por Marcia Gay Harden. Quando um homem do passado de Anne retorna da guerra, uma maldição começa a se manifestar por meio de um misterioso cavaleiro, desencadeando uma espiral de horror psicológico, culpa, desejo reprimido e violência simbólica. É menos um filme de sustos e mais um estudo de atmosfera, repressão e punição moral, alinhado à tradição do horror gótico clássico.

O projeto nasceu, curiosamente, de uma iniciativa da própria Turner, que enviou o roteiro a Harington sem perceber, de imediato, o que isso significaria. Ele percebeu antes. E estranhou. Muito. Em entrevistas, Harington contou que se sentiu genuinamente desconcertado ao notar que aqueles “irmãos” agora eram um casal. Turner, por sua vez, disse que só caiu na real ao reler o texto e se deparar com uma sucessão de beijos e cenas de sexo. A reação no set, segundo ela, foi quase física: ânsia, constrangimento, repulsa momentânea. Tudo muito humano.
Ainda assim, ambos aceitaram. Talvez justamente por isso. Eles são amigos na vida real, têm intimidade, confiança e uma história compartilhada que dispensa construção artificial. Quando falam sobre o set, descrevem a experiência como um reencontro familiar que, paradoxalmente, exigiu atravessar um território narrativo completamente oposto. Constrangedor, sim. Mas também honesto.

O título The Dreadful não poderia ser mais apropriado. Para quem sempre rejeitou a ideia de Jon e Sansa juntos, o filme soa como uma espécie de pesadelo metalinguístico. Para os Jonsas, é quase um aceno tardio, ainda que deslocado, sombrio e envolto em horror. Não é romance épico. Não é redenção. É maldição.
Distribuído pela Lionsgate, o filme estreia nos cinemas em 20 de fevereiro. Não vai redefinir o cânone de Westeros, nem pretende. Mas expõe algo curioso sobre fandom, projeção e como certas leituras insistem em sobreviver mesmo quando a narrativa oficial segue em outra direção. No fim das contas, The Dreadful não valida Jon e Sansa. Ele os transforma em algo muito mais incômodo. E talvez seja exatamente isso que o torne interessante.
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