A arte de perder no Oscar, segundo Diane Warren

Na história recente do Oscar, é mais comum olhar para as categorias “principais” e apontar, de forma um tanto desconfortável, para quem “nunca” ganha. Martin Scorsese ocupou essa cadeira por décadas, acumulando cinco derrotas como diretor antes de finalmente vencer. Al Pacino também esperou bastante, foram oito indicações antes de conquistar sua primeira estatueta. Nem se fala de Leonardo DiCaprio: com quatro derrotas consecutivas, virou piada carinhosa e fonte inesgotável de memes enquanto aguardava o seu primeiro Oscar. A lendária Meryl Streep pode ter três estatuetas em casa, mas ela mesma já ironizou a própria trajetória ao lembrar que, de 21 indicações, perdeu 18 vezes. Ainda assim, ninguém, ninguém mesmo, supera a compositora Diane Warren.

Muito antes de se tornar personagem recorrente dessa narrativa da espera, Warren já sabia exatamente o que queria. Ainda adolescente, por volta de 1964, ela olhou os créditos de Up on the Roof, dos Drifters, viu escrito “Goffin/King” e decidiu sua missão de vida. Queria estar ali. Não como estrela, mas como autora. Décadas depois, transformaria essa obsessão juvenil em um dos catálogos mais lucrativos e duradouros da música pop.

Há algo de quase literário na trajetória dela dentro do Oscar. Não porque falte grandiosidade, repertório ou reconhecimento, mas porque a repetição da cena já virou narrativa. Lá está ela, ano após ano, indicada em Melhor Canção Original, celebrada pela indústria, respeitada pelos pares, fotografada sorrindo, e ainda assim retornando para casa sem a estatueta competitiva. Em 2026, a história ganha mais um capítulo que mistura ironia e persistência.

Pobre Diane Warren, como brincam alguns comentários nas redes, vista na cerimônia da foto oficial do ano em pé, diretamente atrás de Inga Ibsdotter Lilleaas, atriz de Sentimental Value, compondo aquele cenário quase simbólico de quem sempre está por perto do prêmio, mas nunca exatamente com ele nas mãos. A imagem circulou com um misto de carinho e incredulidade. Porque o número já é difícil de ignorar: dezessete indicações ao Oscar na categoria de Melhor Canção Original, nenhuma vitória competitiva.

A indicação deste ano é por Dear Me, do documentário Relentless, que não por acaso é um filme sobre a própria Diane Warren e sua longa e bem-sucedida carreira como compositora. Uma carreira que começou oficialmente a explodir com Rhythm of the Night, do DeBarge, em 1985, e que depois acumulou nove músicas no topo das paradas americanas. A ironia é tão evidente que quase parece roteirizada. Uma música escrita para um documentário que celebra sua própria trajetória, sua resistência, sua assinatura melódica inconfundível. Seria difícil imaginar um cenário mais propício para que a Academia finalmente resolvesse encerrar essa narrativa do quase. Em teoria, parecia o ano perfeito para o desfecho.

Mas o Oscar raramente se move apenas por coerência simbólica. Em 2026, tudo indica que o prêmio deve ir para Golden, o fenômeno pop de KPop Demon Hunters, uma dessas canções que ultrapassam o filme, dominam playlists, viralizam em múltiplos territórios e se transformam em evento cultural. A Academia, que há anos tenta equilibrar tradição e relevância contemporânea, pode ver em Golden uma forma de dialogar com uma geração global que consome música e cinema de maneira completamente integrada. Nesse contexto, Dear Me volta a ocupar o lugar que Diane Warren conhece tão bem: o da respeitada indicada que assiste à consagração de outra narrativa.

Ainda assim, é preciso colocar a história em perspectiva mais ampla. Diane Warren não é apenas uma compositora que coleciona indicações. Ela é uma arquiteta emocional do pop das últimas quatro décadas. Seu catálogo atravessa rádios, trilhas sonoras, romances cinematográficos e despedidas radiofônicas com uma consistência impressionante. Ela escreveu Unbreak My Heart, imortalizada por Toni Braxton, I Don’t Want to Miss a Thing, que transformou o melodrama espacial de Armageddon em hino sentimental na voz do Aerosmith, How Do I Live, que encontrou em LeAnn Rimes uma entrega quase épica, If I Could Turn Back Time, eternizada por Cher, e Because You Loved Me, que consolidou Celine Dion como a voz definitiva da balada noventista.

Ao longo do caminho, quase todas essas músicas enfrentaram resistência inicial. Cher odiava If I Could Turn Back Time antes de gravá-la. Toni Braxton não se entusiasmou de imediato com Un-Break My Heart. Clive Davis chegou a sugerir que a rima entre rain e pain fosse alterada por soar clichê. Warren insistiu. Funcionou. Em How Do I Live, viu-se no meio de um impasse entre LeAnn Rimes e Trisha Yearwood, pressionada por produtores e estúdios, até que a música se tornasse um dos maiores sucessos da década. Sua convicção na própria escrita sempre antecedeu a validação externa.

Não estamos falando de sucessos pontuais, mas de canções que estruturaram imaginários afetivos inteiros. A assinatura de Diane Warren é reconhecível na construção melódica expansiva, no refrão que parece nascer para ser cantado de olhos fechados, na letra que trabalha emoções universais sem cinismo. Há algo de frontal em suas composições, uma recusa a ironizar o sentimento. Ela acredita no amor, na perda, na superação, na vulnerabilidade, e escreve como quem entende que o público também precisa acreditar.

Financeiramente, não há qualquer tragédia em sua história. Os royalties dessas canções atravessam décadas, regravações, sincronizações em filmes, séries, comerciais e plataformas digitais. É difícil imaginar que alguém responsável por tantos clássicos pop viva algo diferente de uma vida confortável e consolidada. O Oscar, nesse caso, não é questão de sobrevivência ou validação econômica. É símbolo, é narrativa, é aquele detalhe que transforma uma trajetória extraordinária em lenda absoluta.

Em 2022, a Academia tentou resolver parte da equação concedendo a ela um Oscar honorário, reconhecendo sua contribuição monumental à música e ao cinema. Foi um gesto importante, mas que não altera o dado central: competitivamente, Diane Warren continua sem vitória. E é justamente isso que mantém a curiosidade viva a cada nova temporada. A pergunta não é apenas se ela merece. É quando a Academia decidirá que essa história precisa de outro final.

No grande ranking histórico de indicações ao Oscar, Diane não lidera. Nomes como Walt Disney e John Williams ocupam patamares numéricos quase inalcançáveis. Entre intérpretes, como mencionei, Meryl Streep redefiniu o conceito de recorrência. Mas dentro da categoria de Canção Original, especialmente no Oscar contemporâneo, Diane Warren se tornou uma figura quase mítica. Ela encarna a persistência, a regularidade, a convicção de que escrever uma grande canção ainda é um gesto central no cinema.

Talvez 2026 não seja diferente. Talvez Golden confirme as previsões e Diane volte a sorrir para as câmeras com a elegância de quem já entendeu o jogo. Mas há algo que nenhum resultado altera: o fato de que, com ou sem estatueta competitiva, poucas compositoras moldaram tanto o som emocional do cinema e do pop quanto ela. O Oscar pode continuar adiando o momento. A história da música, essa, já está escrita.


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