A Evolução dos Figurinos da Patinação Artística Olímpica

Se Milano Cortina 2026 parece o auge de uma era em que os figurinos roubam a cena, é porque houve um longo caminho até aqui. A patinação artística nunca foi apenas técnica, mas durante muito tempo se vestiu como se fosse. O gelo era território de elegância disciplinada. A roupa cumpria protocolo. A criatividade existia, mas contida.

No início do século 20, quando a patinação ainda carregava forte influência do balé europeu, as mulheres competiam com vestidos longos, mangas fechadas e tecidos pesados. A prioridade era decoro. O esporte estava associado à aristocracia e à ideia de refinamento social. Movimento amplo e liberdade corporal eram limitados também pelo vestuário.

Nos anos 1940 e 1950, as saias encurtam, os tecidos ficam mais leves e a silhueta se adapta melhor ao salto e à rotação. Ainda assim, o ideal visual permanece clássico. Nada deveria distrair do que se entendia como “pureza” da linha corporal. Homens vestiam calças escuras e camisas discretas. A neutralidade era a regra tácita.

A explosão de brilho começa a ganhar espaço nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1970, quando a televisão amplia o alcance do esporte. Câmeras mais próximas exigem impacto visual. Cristais e pedrarias entram com mais força. Mesmo assim, a estética segue relativamente homogênea. Feminilidade romântica para elas. Sobriedade atlética para eles.

Nos anos 1990, a patinação vive um momento de alta dramaticidade pública. A rivalidade entre Tonya Harding e Nancy Kerrigan revela algo incômodo. Harding, muitas vezes competindo com figurinos feitos à mão ou com menos acabamento luxuoso, era julgada não apenas por sua técnica, mas por sua aparência. A roupa se torna marcador de classe e de pertencimento estético. A narrativa midiática deixa claro que imagem e pontuação nunca estiveram completamente dissociadas.

Ainda assim, até o início dos anos 2000, havia regras rígidas que limitavam a criatividade formal. Mulheres eram obrigadas a competir de saia em provas individuais e de duplas. A ideia de que o figurino deveria preservar um padrão tradicional era institucional.

A grande inflexão ocorre após o escândalo de julgamento nos Jogos de Salt Lake City 2002. Em 2004, a ISU implementa o novo sistema de pontuação. Surgem os Componentes de Programa, que avaliam interpretação, composição e apresentação. O figurino não passa a valer pontos diretos, mas passa a influenciar a percepção desses componentes. A apresentação se torna critério formalizado. A roupa entra, ainda que indiretamente, na equação.

No mesmo ano, cai a obrigatoriedade de saias para mulheres nas provas individuais e de duplas. Unitards, calças e silhuetas alternativas passam a ser permitidas. Esse detalhe técnico abre espaço para novas linguagens visuais. Em 2022, ajustes adicionais ampliam flexibilidade também na dança no gelo. A criatividade, antes limitada por norma explícita, ganha terreno institucional.

Paralelamente, a relação com a moda se intensifica. Vera Wang, ex-patinadora, torna-se símbolo dessa ponte entre alta-costura e gelo. Ela vestiu Nancy Kerrigan nos Jogos de 1992, colaborou com Michelle Kwan ao longo de sua carreira e criou figurinos para Evan Lysacek e Nathan Chen. Com Wang, o figurino deixa de ser apenas funcional e assume vocabulário de moda.

Outros nomes consolidam a profissionalização do setor. Mathieu Caron passa a trabalhar com atletas de elite e ajuda a sofisticar a linguagem visual da dança no gelo. Lisa McKinnon constrói reputação no circuito americano, vestindo atletas como Alysa Liu e Amber Glenn, incorporando referências pop e couture ao gelo. E Ito Satomi redefine a estética masculina ao vestir Yuzuru Hanyu em figurinos que misturam tradição japonesa e dramaturgia contemporânea, influenciando toda uma geração.

A criatividade passa a ser não apenas permitida, mas esperada. O figurino torna-se ferramenta estratégica de diferenciação. Em um esporte decidido por décimos, criar uma identidade visual clara pode ajudar juízes e público a compreenderem a narrativa do programa. A roupa não substitui técnica, mas molda percepção.

As regras, contudo, continuam a delimitar fronteiras. O traje deve ser modesto, digno e apropriado. Não pode parecer fantasia literal. Acessórios soltos são proibidos. Qualquer parte que caia no gelo gera dedução automática. Designers aprendem a costurar com redundância, reforçar fechos, distribuir cristais com atenção ao peso. Um figurino pode conter milhares de pedras, mas precisa pesar o mínimo possível para não comprometer salto e rotação.

O que Milano Cortina 2026 revela é o resultado dessa evolução histórica. A roupa já não é uniforme elegante. É armadura simbólica. É extensão da coreografia. É identidade em movimento.

Quando Alysa Liu entra no gelo com estética grunge adaptada ao regulamento, ela carrega décadas de transformação. Quando Ilia Malinin veste as construções precisas de Ito Satomi, ele representa o momento em que a masculinidade no gelo deixou de ser tímida ou caricata e passou a ser desenhada com intenção. Quando a dança no gelo aposta em narrativas quase cinematográficas, com figurinos que dialogam com flamenco, arquitetura ou ficção científica, estamos vendo a consolidação de um processo que começou quando a criatividade deixou de ser tolerada e passou a ser linguagem.

Os figurinos roubam a cena hoje porque aprenderam, ao longo do tempo, a não pedir licença. E porque o gelo finalmente entendeu que estética também é performance.


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