Como publicado na Revista Bravo!
Quando Shakira subir ao palco da Praia de Copacabana no dia 2 de maio, dentro do projeto Todo Mundo no Rio, o desafio será diferente daquele enfrentado em arenas fechadas. A Las Mujeres Ya No Lloran World Tour já tem uma estrutura consolidada, com interlúdios visuais, blocos narrativos e um equilíbrio entre passado e presente. Mas Copacabana é outra escala, outra dinâmica, outro tipo de público. É uma apresentação pensada para milhões, televisionada, simbólica. E isso inevitavelmente interfere no desenho do repertório.
O setlist atual começa mergulhando na estética do novo álbum, com “La Huesera” e “La Fuerte”, e segue organizando uma narrativa emocional que passa por “Te Felicito”, “TQG”, “Monotonía”, “Última” e “Acróstico”, entre outras. É um show que valoriza a construção recente da artista, sua reinvenção pública e seu discurso de autonomia. Essa espinha dorsal dificilmente será abandonada, porque é ela que sustenta a turnê.

Ao mesmo tempo, o repertório já incorpora parte significativa dos maiores sucessos de sua carreira. “Las de la Intuición” surge em mashup com “Estoy Aquí”, conectando o presente à fase que a revelou na América Latina e consolidou sua relação com o Brasil nos anos 1990, quando percorreu o país com mais de 30 apresentações da turnê Pies Descalzos. “Empire” e “Inevitable” dialogam com a fase rock mais introspectiva. “La Tortura” aparece dentro de um medley que inclui “Copa Vacía” e “La Bicicleta”, preservando um dos maiores marcos do pop latino dos anos 2000. “Hips Don’t Lie” mantém posição estratégica, reforçando seu maior sucesso global e o feito histórico de liderar a Billboard Hot 100 como artista sul-americana. “Ojos Así” sustenta a identidade híbrida entre pop e influências árabes que sempre distinguiu sua sonoridade. “Suerte (Whenever, Wherever)” recupera o single que a lançou definitivamente no mercado anglófono. “Waka Waka” encerra com força simbólica incontestável, associada às Copas do Mundo e à memória coletiva do futebol.
Se cruzarmos esse repertório com o Top 10 histórico da artista, percebemos que o núcleo duro está praticamente todo contemplado. “Hips Don’t Lie”, “Waka Waka”, “Whenever, Wherever”, “La Tortura”, “Ojos Así” e “Estoy Aquí” estão presentes. O que pode mudar não é tanto a inclusão de novas músicas, mas o peso dado a cada uma delas. Copacabana tende a exigir menos fragmentação e mais refrões completos, menos interlúdios longos e mais momentos de canto coletivo. Em um espaço aberto, com milhões de pessoas, a força do show reside na familiaridade.
Há também faixas que, embora não estejam necessariamente centrais no set atual, poderiam ganhar espaço estratégico na praia. “Underneath Your Clothes”, por exemplo, foi um dos grandes sucessos da fase Laundry Service e conversa diretamente com a geração que a conheceu no início dos anos 2000. “Shakira: Bzrp Music Sessions, Vol. 53”, que já integra o repertório recente em diferentes formatos, conecta a artista à era digital e ao público que a redescobriu nas plataformas de streaming. Em um evento televisionado globalmente, reforçar essa ponte entre passado e presente faz sentido.
O contexto brasileiro sempre pesa. Shakira fala português fluentemente desde os 18 anos e construiu uma relação afetiva consistente com o país, seja nas turnês dos anos 1990, no Rock in Rio de 2011 ou no encerramento da Copa de 2014 no Maracanã. Não seria surpreendente que Copacabana tivesse algum momento pensado especificamente para esse público, mesmo que dentro da estrutura já consolidada da turnê.
No fim, o que se desenha para maio é menos um show promocional de álbum e mais uma celebração de repertório. Uma sequência de músicas que deixaram de ser apenas hits para se tornarem memória compartilhada. “Hips Don’t Lie” como ápice rítmico, “Waka Waka” como hino coletivo, “Whenever, Wherever” como marco do crossover latino, “La Tortura” como consolidação do pop bilíngue, “Ojos Así” como assinatura estética e “Estoy Aquí” como lembrança da artista que começou pequena e se tornou global.
Copacabana não costuma ser palco de sutilezas. É espaço de consagração. Se o setlist mantiver a estrutura atual, mas ampliar o protagonismo dos sucessos icônicos, a noite de maio tende a funcionar como síntese de três décadas de carreira. Não apenas um concerto de turnê, mas a encenação de uma trajetória que ajudou a levar a música latina ao centro do palco mundial.

Setlist deLas Mujeres Ya No Lloran World Tour
- La fuerte
- GIRL LIKE ME
- Las de la intuición / Estoy aquí
- Empire / Inevitable
- Robot Intro
- Te felicito
- TQG
- Don’t Bother
- Baby Cubs – Acróstico
- Acróstico
- Mermaid
- Copa vacía / La bicicleta / La tortura
- Las Caderas
- Hips Don’t Lie
- Chantaje
- Monotonía
- Soltera
- Si te vas
- Diamond Tear
- Última
- The Sorceress
- Ojos así
- Baby Shak Poem – Pies descalzos
- Pies descalzos, sueños blancos
- Antología
- Braids
- Suerte (Whenever, Wherever)
- Waka Waka (Esto es África)
BIS - Los 10 Mandamientos de las Lobas
- Isabell the Wolf
- Loba
- BZRP Music Sessions #53
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