Há uma subtrama que atravessa toda a mitologia de Game of Thrones, ecoa nos traumas de House of the Dragon e ganha densidade particular em O Cavaleiro dos Sete Reinos, mas que passou quase despercebida para quem conhece apenas as adaptações televisivas. Trata-se da existência e do conflito com a Casa Blackfyre, um ramo bastardo da Casa Targaryen cuja ambição quase implodiu a dinastia por dentro. A série mencionou o nome, insinuou o perigo, deixou rastros para os atentos, mas apenas os leitores mais iniciados compreenderam o peso histórico que aquela palavra carregava dentro da linha do tempo Targaryen.


Em termos objetivos, a Rebelião Blackfyre foi uma série de guerras civis iniciadas quando Daemon Blackfyre, bastardo legitimado de Aegon IV, reivindicou o Trono de Ferro contra o herdeiro legítimo, Daeron II. A disputa quase dividiu Westeros em duas linhagens rivais e se estendeu por décadas, alimentando sucessivas tentativas de recolocar um Blackfyre no poder.
Para quem conhece apenas a série Game of Thrones, pode parecer que as grandes guerras civis da dinastia se resumem à Dança dos Dragões, mas o que acontece depois é igualmente decisivo para o destino de Westeros. As Rebeliões Blackfyre não foram apenas disputas por poder. Foram conflitos sobre legitimidade, identidade, pureza de sangue, tradição militar e o próprio sentido de governar. E é nesse terreno instável que cresce Egg, o menino que um dia se tornaria o rei Aegon V em O Cavaleiro dos Sete Reinos.
O que foi a Rebelião Blackfyre?
Para entender os Blackfyre, porém, é preciso voltar ainda mais atrás, até a própria Dança dos Dragões, a primeira grande fratura da sucessão Targaryen. Quando Rhaenyra e Aegon II mergulham Westeros em guerra civil, o que está em jogo não é apenas o direito de uma mulher ao trono, mas a própria estabilidade da linhagem. A guerra termina de maneira ambígua. Politicamente, Rhaenyra é derrotada, mas, biologicamente, é sua linhagem que sobrevive e, de maneira quase irônica, acaba absorvendo a dos próprios Verdes.
Como sabemos, em House of the Dragon, os herdeiros de Aegon II e Helaena são reduzidos a duas crianças após o assassinato brutal de Jaehaerys. No livro eram três filhos. A lógica defendida pelos Hightower é de sucessão estritamente masculina. Isso significa que, mesmo vencendo, se Aegon II não tiver filhos homens sobreviventes, a coroa não se estabiliza. Ela apenas muda de alvo, passando para Aemond. E se Aemond também não deixasse herdeiros legítimos, o problema retornaria ao início.
É exatamente isso que acontece.


Aegon II morre sem gerar novos filhos. Aemond também morre sem herdeiros reconhecidos. Resta Jaehaera, a filha sobrevivente de Aegon II. Para tentar encerrar a guerra e reunificar as facções, ela se casa com Aegon III, o filho de Rhaenyra e Daemon. O sangue dos Verdes é incorporado à linhagem dos Negros. A disputa é encerrada não por vitória absoluta, mas por fusão dinástica.
O problema é que Jaehaera morre jovem e não deixa descendência.
Quem permanece é Aegon III, o filho de Rhaenyra. A linhagem que continua no Trono de Ferro é a dela. A guerra que começou para impedir que uma mulher transmitisse poder aos próprios filhos termina justamente com seus descendentes governando Westeros.
E aqui entra a engrenagem que costuma ser ignorada, mas é fundamental para compreender as Rebeliões Blackfyre.


Aegon III tem filhos. Dois deles tornam-se reis, Daeron I e Baelor I. Ambos morrem sem deixar herdeiros. A linha direta do primogênito se encerra novamente. A sucessão não desaparece, mas desloca-se lateralmente dentro da própria família, passando para Viserys II, irmão de Aegon III.
Esse deslocamento interno é decisivo para entender a crise de legitimidade que explodirá décadas depois. A dinastia já havia sido traumatizada por uma guerra civil. Agora experimenta outra quebra de linearidade sucessória. A estabilidade é aparente, mas frágil. É justamente do ramo de Viserys II que nasce Aegon IV, o Indigno.
Aegon IV governa de maneira irresponsável e ressentida. No leito de morte, legitima todos os seus filhos bastardos. Entre eles está Daemon Waters, que passa a se chamar Daemon Blackfyre. Guerreiro admirado, dono da espada ancestral Blackfyre, símbolo histórico dos reis Targaryen, ele encarna para parte da nobreza a imagem do monarca ideal. O herdeiro legítimo, porém, é Daeron II, filho reconhecido, diplomático e responsável por integrar Dorne ao reino por casamento.
O conflito que emerge não é apenas pessoal. É ideológico. Parte dos lordes vê em Daeron uma fraqueza excessivamente conciliadora e enxerga em Daemon a promessa de retorno a um passado militarizado e aristocrático. Quando Daemon se proclama rei, Westeros se divide novamente. A Primeira Rebelião Blackfyre culmina na Batalha do Campo do Capim Vermelho, evento central da história da Casa Blackfyre, onde Daemon é morto junto com dois de seus filhos. É essa batalha que Egg relembra em seu canto em O Cavaleiro dos Sete Reinos. A coroa vence, mas a divisão permanece. Foi o momento em que a dinastia Targaryen esteve mais próxima de se fragmentar em dois reinos rivais, cada qual reivindicando legitimidade sobre o Trono de Ferro.


Aegor Rivers, conhecido como Bittersteel, foge para Essos e funda a Companhia Dourada, organização criada com o objetivo explícito de recolocar um Blackfyre no Trono de Ferro. A guerra deixa de ser apenas interna e passa a existir como projeto de longo prazo no exílio. Décadas depois, novas tentativas surgem. A Segunda Rebelião Blackfyre é menos grandiosa, mais desorganizada, mas igualmente reveladora dentro da cronologia Targaryen.
Como a Rebelião Blackfyre influencia Egg em A Knight of the Seven Kingdoms
É nesse momento que se posiciona O Cavaleiro dos Sete Reinos. Egg ainda é apenas um menino, escudeiro de Dunk, percorrendo um reino que carrega a memória fresca das Rebeliões Blackfyre. Cada torneio está impregnado de tensão política. Cada nobre pode esconder lealdades ambíguas. O passado não está resolvido. Está apenas suspenso.
A aversão de Egg aos Blackfyre não é exagero juvenil. Ele compreende que a disputa não ameaça apenas sua família, mas a própria estabilidade do reino. Crescendo ao lado de Dunk, convivendo com camponeses e observando as desigualdades estruturais de Westeros, Egg forma uma visão política distinta da tradição aristocrática que sustentou parte das rebeliões. Para ele, os Blackfyre representam não apenas um rival dinástico, mas a cristalização de um modelo de poder baseado na força, no orgulho e na nostalgia de um passado guerreiro.
Quando finalmente se torna rei como Aegon V, seu reinado pode ser lido como resposta direta a esse trauma histórico. Ele tenta implementar reformas que beneficiem os pequenos e limitem os abusos da nobreza, enfrentando justamente as estruturas que haviam alimentado o apoio à Casa Blackfyre. O conflito deixa de ser apenas militar e passa a ser estrutural. Não se trata apenas de impedir um pretendente ao trono, mas de transformar as condições que tornaram as Rebeliões Blackfyre possíveis.


A história dos Blackfyre não nasce isolada. Ela é continuidade. A Dança dos Dragões fragiliza a sucessão Targaryen. A morte sem herdeiros dos filhos de Aegon III desloca o poder dentro da família. A irresponsabilidade de Aegon IV explode essa fragilidade em guerra aberta. O Cavaleiro dos Sete Reinos se posiciona exatamente nesse intervalo entre trauma e repetição, mostrando como a memória da guerra molda uma geração inteira.
Westeros não é marcado apenas por dragões e batalhas. É marcado por sucessões mal resolvidas. Entender os Blackfyre é entender por que a sucessão Targaryen jamais foi totalmente estável, seja em A Knight of the Seven Kingdoms, em House of the Dragon ou, décadas depois, em Game of Thrones.
A Rebelião Blackfyre pode aparecer em A Knight of the Seven Kingdoms?
Embora a primeira temporada adapte “O Cavaleiro Andante”, o trauma das Rebeliões Blackfyre já molda o reino que Dunk e Egg atravessam. E, se a série avançar cronologicamente, o conflito pode ganhar espaço direto na tela.
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