Milano Cortina 2026: como a câmera no gelo mudou a patinação

Com Milano Cortina 2026 se aproximando do fim, não são apenas os atletas que treinam obsessivamente cada detalhe. As transmissões também vêm sendo refinadas para oferecer algo que hoje parece indispensável: a sensação de estar dentro da pista. Se hoje nos emocionamos e percebemos com nitidez quase íntima cada detalhe da patinação artística, é porque a própria linguagem audiovisual evoluiu a ponto de colocar a câmera sobre o gelo, deslizando ao lado do atleta. Não é metáfora nem truque de edição. Em muitas performances, quem filma está literalmente patinando junto, acompanhando a coreografia em tempo real e transformando o espectador em uma presença quase física dentro do espetáculo.

Durante décadas, porém, a patinação foi concebida como um evento a ser contemplado à distância, mais próximo de um balé visto da plateia do que de uma experiência imersiva. A câmera permanecia nas arquibancadas, nas laterais da pista ou suspensa acima do gelo, registrando a coreografia como um desenho elegante, controlado e deliberadamente afastado. O público acompanhava a apresentação como quem observa uma pintura em movimento, plenamente consciente da beleza, mas separado dela por uma barreira invisível. A patinação parecia pertencer a um universo próprio, silencioso e inalcançável, no qual o corpo escrevia no gelo enquanto a câmera se limitava a documentar, jamais a participar.

Quando pensamos em Castelos de Gelo, o filme que consolidou o imaginário popular sobre a patinação artística, é possível perceber como essa lógica ainda predominava. Embora existam tomadas dentro da pista, elas não criam a sensação de imersão que hoje nos parece natural. Eram aproximações cautelosas, muitas vezes realizadas com equipamentos pesados, trilhos improvisados ou operadores sendo conduzidos por patinadores. A câmera visitava o gelo, mas não dialogava com ele. Não havia a sensação de respirar junto com a atleta, de compartilhar a velocidade, o risco ou a vertigem de um salto. O resultado era bonito, mas ainda externo, como se a narrativa visual respeitasse uma distância cerimonial em relação ao corpo que se movia.

A mudança começou quando a tecnologia deixou de impor limites tão rígidos ao movimento. A miniaturização das câmeras digitais, o desenvolvimento de estabilizadores cada vez mais sofisticados e, sobretudo, a transmissão sem fio confiável permitiram que a câmera finalmente se tornasse móvel sem perder qualidade ou estabilidade. Em produções ligadas a grandes eventos esportivos e televisivos, operadores passaram a calçar patins e seguir os atletas durante treinos e apresentações, enviando a imagem em tempo real para a equipe fora da pista. Isso significa que diretor, assistentes e técnicos acompanham tudo à distância segura, podendo inclusive controlar foco e zoom remotamente enquanto o operador se concentra apenas na composição e na trajetória.

Um dos marcos dessa transformação foi a introdução de sistemas específicos para captação ao vivo diretamente do gelo, como a chamada “Ice Cam”, operada por patinadores experientes equipados com rigs estabilizados presos ao corpo. Nesses casos, a câmera de padrão broadcast transmite o sinal para fora da pista enquanto outro profissional controla a lente remotamente, criando uma colaboração invisível entre quem patina e quem ajusta a precisão técnica. Ensaios prévios são essenciais para sincronizar movimentos, antecipar trajetórias e evitar interferências na performance. A experiência do operador como patinador faz diferença decisiva, porque ele compreende intuitivamente onde ocorrerão acelerações, giros e saltos que exigem espaço.

Antes disso, mesmo quando câmeras entravam no gelo, as soluções eram mais rudimentares. Operadores caminhavam com calçados especiais com pontas metálicas para não escorregar ou utilizavam steadicams pesadas que limitavam a fluidez dos movimentos. Trilhos ovais ao redor da pista, cabeças remotas montadas em dollys e gruas tentavam simular proximidade sem realmente compartilhar o espaço com os atletas. Produziam imagens próximas, mas ainda externas, incapazes de reproduzir a sensação de deslocamento orgânico que caracteriza a patinação.

Entrar na pista com patins e equipamento profissional exige um tipo de habilidade que ultrapassa a formação tradicional de um cinegrafista. Esses operadores precisam dominar técnicas de patinação em nível avançado, incluindo deslocamento rápido, mudanças bruscas de direção e, sobretudo, a capacidade de patinar para trás com estabilidade absoluta enquanto mantêm o enquadramento preciso. Ao mesmo tempo, carregam rigs estabilizados que distribuem o peso da câmera e absorvem vibrações transmitidas pelas lâminas. Em transmissões de alto nível, esses sistemas incorporam gimbals eletrônicos, monitores, transmissores e baterias extras, transformando o operador em uma plataforma móvel complexa e delicada.

O desafio maior, porém, não é apenas técnico, mas coreográfico. A patinação artística é imprevisível e veloz, com acelerações repentinas, giros que comprimem o espaço visual e saltos que exigem áreas de segurança. O operador precisa conhecer a música, memorizar a sequência de elementos e antecipar trajetórias para não invadir zonas críticas nem comprometer a concentração do atleta. Cada movimento é calculado como parte de uma dança paralela que o público raramente percebe, mas da qual depende a sensação de fluidez das imagens. Um erro de tempo pode resultar não apenas em um enquadramento perdido, mas em colisões perigosas.

A iluminação e a própria natureza do gelo acrescentam camadas adicionais de dificuldade. A superfície branca reflete luz de maneira irregular, criando contrastes intensos e sombras inesperadas, enquanto figurinos com brilho ou transparência podem alterar a exposição a cada movimento. O operador precisa adaptar ângulos constantemente para evitar reflexos que obscureçam detalhes ou distorçam a percepção de profundidade. Tudo isso acontece em movimento contínuo, sem a possibilidade de interrupção.

O efeito dessa transformação é profundamente emocional. As transmissões contemporâneas aproximam o espectador do esforço físico, das microexpressões e da tensão que antecede cada salto, criando uma sensação de presença que antes não existia. Já não vemos apenas a coreografia finalizada, mas o processo corporal que a sustenta, a respiração, o impacto do pouso e a breve instabilidade antes da recuperação elegante. A patinação deixa de ser um desenho distante e passa a ser uma experiência compartilhada, quase tátil.

Se no passado o gelo funcionava como uma fronteira simbólica entre artista e público, hoje ele se tornou um espaço atravessável pela câmera e, por extensão, pelo olhar do espectador. A evolução não foi apenas tecnológica, mas sensorial e narrativa. Ao aprender a patinar, a câmera alterou a própria natureza do espetáculo, transformando um balé observado à distância em uma vivência imersiva que parece acontecer ao alcance da mão. O que antes era contemplação tornou-se participação silenciosa, e talvez seja essa a mudança mais significativa de todas, porque não se trata apenas de ver melhor, mas de sentir mais intensamente aquilo que acontece sobre o gelo.


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