As grandes lendas de Hollywood estão se despedindo pouco a pouco. Faz sentido, afinal, muitos já estão com idade avançada. Hoje, Robert Duvall, um dos atores mais respeitados e silenciosamente dominantes da história do cinema americano, morreu aos 95 anos, encerrando uma carreira que atravessou quase seis décadas e ajudou a definir o que significa atuar com autoridade sem recorrer ao excesso. Segundo a família, ele morreu em paz em sua casa em Middleburg, na Virgínia, ao lado da esposa. Não haverá cerimônia formal. Em vez disso, o pedido foi simples e revelador de sua personalidade discreta: que as pessoas o homenageiem assistindo a um grande filme, contando uma boa história entre amigos ou dirigindo pelo campo para apreciar a beleza do mundo.

Poucos atores foram tão identificados com a intensidade contida quanto Duvall. Ele não precisava dominar a cena com gestos grandiosos porque sua presença já sugeria perigo, melancolia ou poder. Era o tipo de intérprete capaz de transmitir mais com um olhar imóvel do que outros com páginas inteiras de diálogo. Essa economia expressiva tornou seus personagens inesquecíveis, mesmo quando ocupavam posições secundárias na narrativa.
Para o grande público, ele será eternamente Tom Hagen, o advogado da família Corleone em O Poderoso Chefão, figura calma e cerebral em um universo governado pela violência. A atuação lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar e consolidou a ideia de que o poder mais assustador nem sempre é o mais barulhento. Anos depois, em Apocalypse Now, ele criaria outro ícone absoluto do cinema ao interpretar o tenente-coronel Kilgore, o comandante obcecado por surfe que pronuncia uma das falas mais famosas da história: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã.” Se Tom Hagen representava a racionalidade do crime organizado, Kilgore encarnava a insanidade quase banal da guerra.
Mas talvez o papel que melhor revele a profundidade de seu talento seja o cantor alcoólatra Mac Sledge em Tender Mercies, performance delicada sobre redenção e fé que lhe rendeu o Oscar de melhor ator em 1984. Duvall cantou ele mesmo as músicas do filme e construiu um personagem devastado sem jamais recorrer ao sentimentalismo fácil. Era um estudo de fragilidade masculina raro em Hollywood.
Nascido em 1931 em San Diego, filho de um almirante da Marinha e de uma atriz amadora, Duvall cresceu em bases militares e só chegou ao cinema relativamente tarde. Estreou aos 31 anos como o misterioso Boo Radley na adaptação de O Sol é para Todos, papel pequeno, mas crucial, que já demonstrava sua capacidade de marcar presença mesmo com pouquíssimo tempo de tela. Formado na prestigiosa escola de Sanford Meisner, em Nova York, foi colega e amigo de Dustin Hoffman e Gene Hackman, com quem dividiu apartamento antes da fama, sobrevivendo com trabalhos ocasionais enquanto atuava no teatro.

Nos anos 1970, tornou-se peça central da geração conhecida como New Hollywood, ao lado de Al Pacino e Robert De Niro, ajudando a redefinir o perfil do protagonista americano. Não era um galã tradicional nem um performer exibicionista. Era um ator de verdade, interessado na psicologia e na verdade emocional de cada personagem.
Ao longo das décadas seguintes, transitou com naturalidade entre protagonistas e coadjuvantes, interpretando militares autoritários, pais difíceis, líderes religiosos, advogados poderosos e figuras cansadas pelo tempo. Recebeu sete indicações ao Oscar e sete ao Globo de Ouro, além de dirigir quatro longas-metragens, incluindo The Apostle, projeto pessoal que escreveu, financiou e estrelou, demonstrando também seu compromisso com histórias espirituais e humanas fora do mainstream.
Nos últimos anos, seus papéis refletiam a própria idade: mentores, patriarcas, homens endurecidos pela vida. Ainda assim, mantinha intacta a capacidade de tornar cada figura singular. Era frequentemente descrito como “o maior coadjuvante principal de Hollywood”, alguém que podia roubar um filme sem parecer que estava tentando fazê-lo.

A morte de Robert Duvall não representa apenas a perda de um grande ator, mas o desaparecimento de uma forma de atuar que privilegiava a interioridade em vez do espetáculo. Em uma indústria cada vez mais orientada por franquias e performances amplificadas, ele lembrava que a verdadeira força dramática pode residir na quietude.
Seu legado permanece não apenas nos prêmios ou nas falas icônicas repetidas por gerações, mas na sensação de autenticidade que levava a cada personagem. Robert Duvall não parecia estar interpretando homens intensos. Ele parecia conhecê-los profundamente. E talvez seja por isso que suas performances continuam tão vivas: porque nunca foram apenas performances, mas retratos convincentes da complexidade humana.
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