Jackie Kennedy Onassis: por que o mundo segue obcecado

Poucas figuras do século 20 permanecem tão imediatamente reconhecíveis quanto Jacqueline Lee Bouvier Kennedy Onassis. Décadas após o assassinato de John F. Kennedy e mais de trinta anos após sua própria morte, Jackie continua a exercer um magnetismo singular, como se fosse ao mesmo tempo uma pessoa real e um personagem mitológico. Ela não foi apenas uma primeira-dama elegante nem apenas a viúva de um presidente assassinado, mas uma figura que condensou beleza, poder simbólico, vulnerabilidade e estratégia em uma combinação quase impossível de reproduzir.

Há um detalhe revelador na formação de Jackie que ajuda a entender por que ela nunca foi apenas uma mulher bem vestida levada pela maré da História. Antes de se tornar a figura mais fotografada do planeta, Jacqueline Bouvier trabalhou na imprensa de Washington como repórter e fotógrafa, caminhando pelas ruas com a câmera, entrevistando pessoas comuns e construindo pequenas narrativas a partir de opiniões rápidas e retratos instantâneos. Essa experiência aparentemente modesta explica muito sobre a mulher que viria depois. Jackie aprendeu cedo a observar, a editar, a transformar o cotidiano em história e a construir significado pela composição, pelo enquadramento e pelo controle do que se mostra e do que se omite. Ela não apenas seria fotografada. Ela compreendia por dentro a lógica do olhar público.

O período em Paris, ainda estudante, foi igualmente formador. Longe da rigidez acadêmica, aperfeiçoou a habilidade de produzir uma impressão intencional e de inventar a si mesma como personagem sem perder o controle sobre a narrativa. Essa capacidade de estar sempre consciente do efeito que causava explicaria a elegância quase coreografada da Jackie adulta, frequentemente interpretada como frieza, mas que talvez fosse apenas disciplina emocional. Ela não era distante por ausência de sentimento, mas por compreender o custo de ser consumida pelo olhar alheio.

Nascida em 1929 em uma família da elite americana, Jackie cresceu cercada por privilégios e por expectativas rígidas sobre comportamento, educação e aparência. Inteligente, culta e multilíngue, interessava-se por literatura, arte e história muito além do papel ornamental reservado às mulheres de sua classe. Seu destino mudou quando conheceu o jovem senador John Fitzgerald Kennedy, herdeiro de uma dinastia política ambiciosa e profundamente consciente da importância da imagem pública. O casamento em 1953 uniu duas narrativas de poder e transformou Jackie em peça central de um projeto cuidadosamente construído.

A imagem do casal era a de um conto de fadas moderno, mas a realidade privada estava longe de ser idílica. Jackie enfrentou abortos espontâneos, a morte de um filho recém-nascido e a humilhação silenciosa das infidelidades persistentes de JFK, conhecidas nos círculos políticos de Washington. Entre essas relações, o envolvimento com Marilyn Monroe adquiriu dimensão quase mítica, não apenas pela fama da atriz, mas porque ameaçava diretamente a narrativa de elegância e estabilidade que sustentava a presidência.

Essa tensão atingiu um momento simbólico na festa de aniversário de quarenta e cinco anos de Kennedy, em 1962. Jackie recusou-se a comparecer devido à presença de Marilyn. O evento reuniu, de forma quase teatral, outras figuras centrais desse drama. Maria Callas, então companheira de Aristóteles Onassis, abriu a celebração com sua voz extraordinária, enquanto Marilyn Monroe a encerrou com a performance sensual de “Happy Birthday”, que se tornaria um dos momentos mais icônicos da cultura pop americana. O fato de Marilyn admirar profundamente Callas acrescenta uma dimensão quase operística à cena, como se essas mulheres orbitassem o mesmo centro emocional sem jamais se confrontarem diretamente.

Meses depois, o assassinato de JFK transformaria Jackie em símbolo de luto nacional e dignidade sob pressão. A imagem da jovem viúva vestindo o tailleur manchado de sangue tornou-se uma das mais poderosas do século 20, cristalizando a ideia de que ela representava não apenas uma mulher enlutada, mas a própria perda de inocência de uma nação. Foi também nesse período que Aristóteles Onassis entrou definitivamente em sua vida, oferecendo proteção e segurança em um momento de vulnerabilidade extrema.

O casamento com o magnata grego em 1968 escandalizou parte do público americano, que esperava que a viúva presidencial permanecesse como guardiã intocável da memória de Camelot. Para muitos, Jackie havia trocado o pedestal pelo luxo ostensivo. Para outros, tratava-se de um gesto de sobrevivência de uma mulher cansada de viver sob ameaça constante. O fato de Onassis ter abandonado Maria Callas para casar-se com Jackie transformou a história em um triângulo emocional digno de tragédia clássica.

Viúva novamente em 1975, Jackie reinventou-se como editora de livros em Nova York, cultivando uma vida sofisticada ao lado do financista suíço Maurice Tempelsman. Sua relação com os filhos, Caroline e John Jr., refletia proteção intensa e controle rigoroso, especialmente no caso de John-John, cuja existência simbolizava a continuidade da dinastia Kennedy.

Paralelamente, consolidou uma assinatura estética que redefiniu a elegância moderna. Seus ternos estruturados, chapéus pillbox e grandes óculos escuros funcionavam como uma armadura visual, criando distância entre a mulher e o olhar do mundo.


A permanência de Jackie no imaginário coletivo também se deve ao fato de que cada geração a redescobre através do cinema e da televisão, como se nenhuma representação fosse definitiva e todas tentassem capturar um enigma que permanece fora de alcance. Atrizes diferentes enfatizaram facetas distintas da personagem histórica. Natalie Portman, no filme Jackie de 2016, ofereceu talvez a interpretação mais íntima e perturbadora, concentrando-se nos dias imediatamente após o assassinato de JFK e na maneira como Jackie construiu deliberadamente o mito de Camelot enquanto lidava com o trauma pessoal. Katie Holmes interpretou a primeira-dama ainda jovem na minissérie The Kennedys, ressaltando sua elegância e seu isolamento emocional dentro da família política. Minka Kelly, em The Butler, apresentou uma versão mais luminosa e clássica, enquanto Roma Downey, em produções televisivas anteriores, destacou o lado público e cerimonial da personagem. Em Love Story, Naomi Watts compõe uma Jackie marcada por dignidade e inteligência emocional, mas também por um leve verniz de arrogância e por uma devoção absoluta aos filhos, como se a maternidade fosse ao mesmo tempo refúgio e centro de gravidade de sua identidade.

Mesmo quando não aparece diretamente, Jackie costuma funcionar como presença simbólica nas narrativas sobre os anos 1960. Em The Crown, por exemplo, seu encontro com a rainha Elizabeth II é retratado como um choque entre dois modelos distintos de feminilidade e poder, um momento em que glamour e monarquia se observam com uma mistura de fascínio e rivalidade silenciosa. Novas produções sobre a família Kennedy inevitavelmente retornam à sua figura, e é praticamente certo que futuras dramatizações continuarão a reinterpretá-la para públicos que não viveram sua época.

Essa multiplicidade de retratos revela uma dificuldade persistente em definir quem Jackie realmente foi. Para alguns, ela é a viúva trágica que preservou a dignidade de uma nação ferida. Para outros, uma estrategista de imagem extraordinariamente consciente de seu papel histórico. O cinema e a televisão, ao revisitar continuamente sua vida, não apenas mantêm viva sua memória, mas reforçam a ideia de que Jackie Kennedy Onassis não pertence apenas ao passado, e sim a um repertório simbólico que continua sendo reescrito.

O paradoxo é que a violência que destruiu sua vida pessoal também foi o que a tornou eterna. A Jackie que o mundo conhece nasceu naquele momento em que uma mulher jovem se recusou a apagar os sinais da tragédia diante de milhões de espectadores. Desde então, ela deixou de ser apenas Jacqueline Bouvier Kennedy e tornou-se um símbolo da perda de inocência de uma era.

Talvez o mundo permaneça obcecado por Jackie porque sua história conecta destinos que parecem pertencer a uma mitologia moderna. JFK, Marilyn Monroe, Maria Callas e Aristóteles Onassis não são apenas figuras históricas isoladas, mas vidas entrelaçadas cujas escolhas produziram consequências emocionais e simbólicas para todos os envolvidos. Imaginar como essas trajetórias poderiam ter sido diferentes é imaginar outra versão do próprio século XX.

Jackie Kennedy Onassis sobreviveu a todos eles e tornou-se a guardiã involuntária dessa memória compartilhada. Sua vida demonstra como fama, tragédia e beleza podem combinar-se para criar algo mais duradouro do que qualquer biografia individual. Ela não foi apenas uma mulher extraordinária em circunstâncias extraordinárias, mas a personificação de uma era e a prova de que certas figuras públicas nunca deixam realmente o palco.


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