Como Andrew entra para a História após a prisão e os escândalos

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Andrew Mountbatten-Windsor entra para a História não como um príncipe trágico no sentido clássico, nem como um vilão unidimensional, mas como o exemplo mais contundente de como privilégio, proteção familiar e falta de limites institucionais podem se combinar para produzir um desastre histórico. Sua trajetória é particularmente dramática porque a narrativa inicial era quase perfeita, construída para representar vitalidade, coragem militar e continuidade dinástica em uma monarquia que buscava se modernizar sem perder prestígio.

Durante décadas, Andrew foi visto como o príncipe que tinha tudo para ser popular. Diferentemente de Charles, frequentemente percebido como introspectivo e controverso, Andrew parecia confortável no papel tradicional de príncipe britânico. Jovem, atlético, confiante, com carreira militar ativa, ele oferecia à opinião pública uma imagem clara de masculinidade heroica e serviço ao país.

A Guerra das Malvinas, em 1982, consolidou essa imagem. Servindo como piloto de helicóptero da Marinha Real em uma zona de combate real, Andrew ganhou credibilidade como alguém que não estava protegido por seu título quando a segurança nacional estava em jogo. Fotografias e relatos daquele período ajudaram a construir a figura do príncipe combatente, algo raro na monarquia contemporânea e extremamente eficaz do ponto de vista simbólico.

O casamento com Sarah Ferguson, em 1986, reforçou a narrativa de popularidade e proximidade com o público. A cerimônia, transmitida globalmente, parecia oferecer uma versão mais leve e acessível da família real, contrastando com a formalidade associada ao então príncipe Charles e Diana. Andrew e Sarah eram apresentados como divertidos, espontâneos e relativamente modernos. Essa fase corresponde ao auge da narrativa positiva. Andrew era visto como um ativo para a monarquia, não como um risco.

A relação com Charles, porém, sempre foi mais distante do que hostil. Como herdeiro direto, Charles ocupava um espaço institucional e emocional muito diferente dentro da família. Andrew, terceiro filho, cresceu em um ambiente menos disciplinado e com maior liberdade, o que reforçou a percepção de que era o preferido da mãe. Essa diferença de posição contribuiu para uma convivência cordial, mas não particularmente próxima. Ao longo dos anos, sobretudo após a ascensão de Charles ao trono, o relacionamento tornou-se mais formal e marcado por tensões silenciosas, especialmente diante do impacto público dos escândalos.

Após deixar o serviço ativo, Andrew assumiu funções públicas e, mais tarde, o cargo de enviado especial para comércio internacional. A ideia era utilizar sua visibilidade e acesso para promover negócios britânicos no exterior. Durante algum tempo, essa estratégia funcionou. Andrew acumulou viagens, contatos e acordos, apresentando-se como um facilitador global para interesses econômicos do Reino Unido.

No entanto, esse mesmo papel criou as condições para os problemas futuros. A natureza do trabalho exigia proximidade com empresários, bilionários e figuras influentes de reputação variável. A ausência de mecanismos claros de supervisão e a cultura de deferência associada ao status real permitiram que a linha entre diplomacia, networking e relações pessoais se tornasse cada vez mais nebulosa.

O relacionamento com Jeffrey Epstein surge nesse contexto. Inicialmente, foi percebido como apenas mais um contato dentro de uma rede internacional de poder e dinheiro. A condenação de Epstein em 2008 deveria ter encerrado qualquer associação. Quando isso não ocorreu, o primeiro sinal de ruptura entre a imagem pública de Andrew e a realidade começou a se formar.

Mesmo assim, por vários anos, a narrativa dominante foi a de erro de julgamento, não de má conduta grave. A visita a Epstein em 2010 provocou indignação, mas ainda parecia um episódio isolado que poderia ser superado. O público estava disposto a aceitar a explicação de ingenuidade ou lealdade mal colocada.

As acusações de Virginia Giuffre e a subsequente exposição global do caso Epstein transformaram completamente essa percepção. Andrew passou de figura popular a fonte de constrangimento internacional. A entrevista à BBC em 2019 marcou o momento em que a tentativa de recuperar a narrativa falhou de forma irreversível. Em vez de demonstrar empatia ou responsabilidade, o príncipe pareceu distante e autoconfiante em excesso, reforçando a imagem de alguém desconectado das consequências de seus atos.

Dentro da família, o impacto foi profundo. William, herdeiro direto após Charles, é descrito por diversos observadores como particularmente cauteloso em relação ao tio. Sua prioridade sempre foi proteger a credibilidade futura da instituição. Publicamente, porém, manteve silêncio quase absoluto, refletindo a tradição de não comentar assuntos internos sensíveis. Harry, por sua vez, conhecido por denunciar desigualdades e privilégios dentro da família, também evitou mencionar Andrew de forma direta. Esse silêncio, especialmente vindo de alguém tão vocal em outras questões, tornou-se por si só significativo, sugerindo a complexidade e a delicadeza do tema.

A partir daí, a história de Andrew deixa de ser sobre reputação e passa a ser sobre responsabilidade institucional. O acordo financeiro com Giuffre em 2022, embora encerrasse o processo civil, não restaurou sua posição. Pelo contrário, consolidou a percepção de que a família real buscava encerrar o assunto sem permitir que um julgamento público revelasse todos os detalhes.

A divulgação dos Epstein Files e a subsequente prisão por suspeita de abuso de função pública representam o estágio final dessa transformação narrativa. Andrew deixa de ser apenas um príncipe envolvido em escândalos pessoais e passa a simbolizar o ponto em que a proteção familiar colide com a obrigação institucional.

Historicamente, isso o coloca em uma categoria singular. A monarquia britânica já enfrentou crises graves, como a abdicação de Edward VIII em 1936 ou os escândalos conjugais do final do século 20, mas raramente uma situação em que a conduta de um membro tão próximo do soberano gerasse implicações diretas para a confiança no Estado.

Andrew será lembrado como o príncipe que começou como herói de guerra e terminou como um caso de estudo sobre limites do privilégio. Sua trajetória ilustra como uma instituição baseada em tradição e deferência pode ter dificuldade em impor disciplina a seus próprios membros quando laços familiares estão envolvidos.

Também será visto como um catalisador involuntário de mudanças. A pressão para maior transparência, redução do número de membros ativos da família real e redefinição do papel público da monarquia pode se intensificar justamente por causa dele. Em outras palavras, Andrew não apenas encerra uma narrativa pessoal. Ele altera a narrativa institucional.

Para a opinião pública britânica e internacional, a pergunta central não será apenas o que ele fez, mas por que levou tanto tempo para que consequências reais ocorressem. Nesse sentido, Andrew entra para a História não só como protagonista de um escândalo, mas como símbolo de uma era em que a proteção interna foi considerada suficiente até deixar de ser.

No imaginário contemporâneo, sua trajetória frequentemente evoca uma lógica quase medieval de poder, na qual a proximidade com a Coroa parecia garantir uma forma implícita de imunidade. A prisão, portanto, não representa apenas a queda de um indivíduo, mas a afirmação de que, em uma monarquia constitucional moderna, nem mesmo um príncipe pode permanecer acima da lei indefinidamente.

A narrativa inicial de príncipe heroico, popular e útil à Coroa torna o contraste ainda mais dramático. Quanto maior a ascensão simbólica, mais impressionante a queda. Andrew não era um membro periférico da família real. Era um dos seus rostos mais visíveis, um filho da rainha, um representante oficial do país.

Sua história, portanto, não é apenas a de um indivíduo que falhou. É a de uma instituição que precisou aprender, sob pressão extrema, que nem mesmo a proximidade com o trono pode garantir imunidade permanente às consequências.


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