Game of Thrones nos palcos: peça sobre o Rei Louco estreia em Londres

O ano astrológico pode ser do Cavalo, mas, se perguntarmos aos fãs de Game of Thrones, ainda estamos vivendo no ano do Dragão. Além do sucesso de A Knight of the Seven Kingdoms e da volta de House of the Dragon, a saga dos Targaryen chegará ao prestigiado palco da Royal Shakespeare Company ainda em 2026, consolidando a impressão de que Westeros continua sendo uma das mitologias contemporâneas mais resilientes da cultura pop.

Isso mesmo, Game of Thrones também é teatro. A peça ambientada no chamado Ano da Falsa Primavera dramatiza o encontro entre Lyanna Stark e Rhaegar Targaryen, o colapso do reinado de Aerys II e os acontecimentos que deram início direto aos eventos da série da HBO, trazendo finalmente para o primeiro plano personagens que sempre existiram apenas como memória, relato ou lenda dentro da narrativa principal.

Essa expansão do universo da franquia é uma forma inesperada e, ao mesmo tempo, profundamente coerente com a natureza trágica da obra de George R. R. Martin. Antes de um novo filme nos cinemas ou de outra grande superprodução televisiva, a história retorna às suas raízes dramáticas com Game of Thrones: The Mad King, uma peça oficial que estreia no verão europeu de 2026 no Royal Shakespeare Theatre, em Stratford-upon-Avon. Produzida pela Royal Shakespeare Company em parceria com a HBO, a montagem se baseia em material original desenvolvido por Martin e adaptado pelo dramaturgo Duncan Macmillan, com direção de Dominic Cooke, após um processo de criação que levou cerca de cinco anos. Não é surpresa, portanto, que ainda não tenhamos os livros…

Ambientada dezesseis anos antes dos acontecimentos de Game of Thrones, a narrativa se passa em 281 a.C., conhecido como o Ano da Falsa Primavera, período marcado por um breve degelo após um inverno prolongado que deu ao reino a ilusão de que uma nova era de estabilidade estava prestes a começar. É nesse contexto que todas as grandes casas de Westeros convergem para Harrenhal, o maior castelo dos Sete Reinos, para um torneio de justa anunciado como o maior da geração. O evento, porém, sempre foi descrito como algo muito além de uma celebração cavaleiresca. Há fortes indícios de que o encontro serviu como pretexto para que grandes lordes discutissem, longe da vigilância da corte, a possibilidade de depor o Rei Louco e substituir Aerys II por seu filho, o príncipe Rhaegar Targaryen, considerado por muitos mais apto a governar.

O próprio Aerys, tomado por paranoia e obcecado por traições reais ou imaginárias, decide comparecer pessoalmente ao torneio, gesto que transforma uma ocasião festiva em um ambiente de tensão permanente. A peça explora precisamente essa atmosfera de medo e intriga, com conspirações sendo tramadas dentro da própria corte enquanto rumores de guerra já ecoam ao longe. A linha de sucessão, as alianças familiares e antigas profecias tornam-se elementos centrais de uma disputa silenciosa pelo poder que está prestes a sair do controle.

No centro emocional da história estão três figuras que, embora fundamentais para o destino de Westeros, nunca apareceram diretamente na série original: Lyanna Stark, Rhaegar Targaryen e o próprio Aerys II. A relação entre Lyanna e Rhaegar é tratada como uma tragédia romântica de proporções épicas, frequentemente comparada a Romeu e Julieta. Durante o torneio, após vencer as justas, Rhaegar ignora sua esposa Elia Martell e coroa Lyanna como Rainha do Amor e da Beleza, um gesto público que humilha a casa Martell, enfurece Robert Baratheon, noivo da jovem Stark, e sinaliza um vínculo que rapidamente se tornará o epicentro de uma crise política sem precedentes.

Pouco tempo depois, Lyanna desaparece com Rhaegar, um acontecimento interpretado como rapto pelos Starks e pelos Baratheon e como ato de amor por parte de outros personagens, ambiguidade que a peça promete explorar. A reação de Aerys é brutal. Brandon Stark e seu pai Rickard são executados em Porto Real, Robert levanta suas bandeiras e a Rebelião de Robert começa, levando à queda da dinastia Targaryen após quase três séculos de domínio. Ao dramatizar o torneio e suas consequências imediatas, a produção coloca no palco o verdadeiro episódio zero de Game of Thrones, o momento em que decisões pessoais, ambições políticas e crenças proféticas convergem para produzir a catástrofe que moldaria toda a saga.

A peça também deve apresentar uma galeria impressionante de personagens em versões mais jovens, incluindo Eddard, Brandon e Benjen Stark, Robert Baratheon, Jaime e Cersei Lannister, Barristan Selmy, Varys, Oberyn Martell, Arthur Dayne, Ashara Dayne e o misterioso Cavaleiro da Árvore Risonha, cuja aparição no torneio alimenta a paranoia de Aerys e permanece um dos enigmas mais fascinantes do cânone. A presença de tantas figuras centrais reforça a ideia de que Harrenhal não foi apenas um encontro social, mas um ponto de convergência histórico onde todas as forças que destruiriam o reino estavam simultaneamente presentes.

Embora a história tenha sido construída a partir de material de Martin, o texto teatral é de Duncan Macmillan, que ampliou o escopo inicial para acompanhar os personagens além do próprio torneio, possivelmente incluindo os primeiros desdobramentos da rebelião. O autor original afirmou que nunca imaginou ver seu universo adaptado para o palco, mas destacou que o teatro oferece um espaço único onde a imaginação do criador e a do público se encontram ao vivo, além de estabelecer uma ligação direta com Shakespeare, cuja influência sempre permeou a estrutura política e trágica de Westeros.

Até o momento, nenhum elenco foi anunciado, e o processo de seleção segue em andamento, o que é comum para produções da Royal Shakespeare Company dessa escala. A expectativa de demanda é altíssima, com venda prioritária de ingressos a partir de abril de 2026 e forte possibilidade de transferências futuras para o West End ou mesmo Broadway, dada a participação de grandes estúdios entre os produtores.

Mais do que um derivado, Game of Thrones: The Mad King representa uma tentativa de preencher a maior lacuna emocional e histórica da saga, trazendo finalmente para o primeiro plano personagens que sempre existiram apenas como lembrança, rumor ou mito. Ao revisitar o Ano da Falsa Primavera e o Torneio de Harrenhal, a peça não apenas reconstrói os acontecimentos que antecederam Game of Thrones, mas questiona a própria narrativa oficial dos vencedores, lembrando que guerras raramente são decididas por quem tem razão, mas por quem consegue impor sua versão da história.


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