Como publicado na Revisa Bravo! no dia 18/02/2026
Quando Kristen Stewart confirmou a compra do Highland Theatre, em Highland Park, a notícia soou menos como uma transação imobiliária e mais como um gesto simbólico. Em uma cidade onde salas históricas fecham em silêncio, Stewart escolheu correr na direção contrária. Pagou cerca de 6,99 milhões de dólares por um cinema fechado desde 2024, assumindo não apenas um prédio antigo, mas uma herança cultural marcada por ciclos de esplendor, decadência e resistência. Em entrevistas, descreveu o impulso quase físico de reconhecer naquele espaço algo que procurava sem saber, um lugar para reunir pessoas, imaginar futuros e devolver ao cinema sua dimensão coletiva.
O Highland Theatre abriu as portas em 2 de março de 1925, no número 5604 da North Figueroa Street, quando Highland Park ainda se consolidava como bairro e ir ao cinema era um ritual social. Projetado por Lewis Arthur Smith, arquiteto responsável por outros teatros históricos da Califórnia, o edifício nasceu como um verdadeiro palácio de exibição. A sala única comportava cerca de 1.400 espectadores e exibia uma ornamentação inspirada no estilo mourisco e espanhol colonial, com detalhes que transformavam cada sessão em evento. A estreia foi emblemática. O filme escolhido foi Lady of the Night, dirigido por Monta Bell, e a pré-estreia contou com a presença de Norma Shearer, então uma das maiores estrelas da MGM. A mensagem era clara. Aquele cinema de bairro também fazia parte do mapa simbólico de Hollywood.

Durante décadas, o Highland funcionou como ponto de encontro da comunidade. Famílias, casais e jovens atravessavam a Figueroa para assistir aos lançamentos da semana, em um circuito popular que sustentou grande parte da cultura cinematográfica americana no século 20. Como muitos palácios semelhantes, começou a sentir os efeitos da televisão e da mudança nos hábitos de consumo a partir dos anos 1950. A crise se aprofundou nos anos 1970, quando, em uma tentativa de sobreviver financeiramente, o cinema passou a exibir filmes adultos. A escolha provocou protestos locais e marcou um período de desgaste profundo, tanto econômico quanto simbólico.
A recuperação veio em 1975, quando o Highland foi comprado pela família Akarakian. Sob nova gestão, o cinema voltou a dialogar com o bairro, apostando em programação familiar, sessões infantis e filmes em espanhol, refletindo a diversidade da região. Nos anos 1980, acompanhando uma tendência do mercado, o espaço foi transformado em um triplex. A grande sala original foi subdividida em três menores, reduzindo a capacidade total para cerca de 465 assentos. A experiência arquitetônica mudou, mas o cinema permaneceu vivo em um momento em que muitos outros fechavam definitivamente.
O reconhecimento oficial chegou em 1991, quando o Highland Theatre foi tombado como Los Angeles Historic Cultural Monument número 549. O título reconhecia sua importância arquitetônica e histórica, protegendo o edifício de demolições ou alterações irreversíveis. Ainda assim, o tombamento não garantiu estabilidade financeira. O cinema entrou no século 21 já pressionado por um mercado em transformação acelerada.

A pandemia de COVID-19 foi o golpe decisivo. O Highland fechou completamente entre março de 2020 e maio de 2021. Quando reabriu, nada era igual. Segundo Dan Akarakian, proprietário da operação do cinema, a venda de ingressos caiu cerca de 70 por cento em relação ao período pré-pandemia. O público havia migrado para outras formas de entretenimento, e manter o teatro aberto significava perder dinheiro semana após semana. Em fevereiro de 2024, poucos dias antes de completar 99 anos, o Highland encerrou definitivamente as exibições. Os últimos títulos em cartaz foram Madame Web, Bob Marley: One Love e Lisa Frankenstein, filmes contemporâneos projetados em uma sala que carregava quase um século de história.
O prédio, pertencente ao investidor Cyrus Etemad, já havia passado por uma transição silenciosa. Etemad permitiu que o cinema continuasse operando sem pagamento de aluguel por um ano após o fim do contrato e declarou publicamente o desejo de preservar o espaço como teatro, voltado principalmente para cinema e música. Também reconhecia que o edifício precisava de uma grande reforma. O Highland estava suspenso no tempo, fechado, protegido por lei, mas sem um projeto claro para o futuro.
É nesse intervalo que entra Kristen Stewart. Sua compra insere o Highland em um movimento mais amplo de cineastas e artistas que vêm adquirindo salas históricas em Los Angeles, como Quentin Tarantino, que revitalizou o Vista Theatre, e o grupo liderado por Jason Reitman, responsável pela compra do Village Theatre, em Westwood. Não se trata apenas de nostalgia, mas de uma reação concreta ao esvaziamento da experiência coletiva do cinema.

Stewart fala do Highland como um antídoto ao corporativismo da indústria, um espaço que não existe apenas para comprar e vender filmes, mas para formar, provocar e acolher. Seus planos incluem restaurar os elementos arquitetônicos originais, respeitar a história do edifício e transformá-lo em um centro cultural ativo, com exibições, eventos, encontros e programas voltados à comunidade. Ao fazer isso, ela reinscreve o Highland Theatre na paisagem viva de Los Angeles, não como relíquia, mas como organismo em transformação.
A história do Highland nunca foi linear. Ela reflete as mudanças da cidade, da indústria e do próprio público. Ao comprar esse cinema, Stewart não tenta congelar o passado. Ela aposta na ideia de que a memória só faz sentido quando encontra um futuro possível. E sim, possivelmente, entra para a História de Hollywood.
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