Há algo de inevitavelmente dramático na noite do BAFTA, como se o cinema britânico assumisse por algumas horas o papel de árbitro moral de uma temporada que já chega exausta ao fim. Não é apenas mais uma premiação. É o último momento em que uma narrativa pode ser alterada sem parecer artificial, o último espaço onde o gosto europeu, mais austero, mais atento à tradição e à linguagem, pode confrontar o entusiasmo industrial de Hollywood. Em muitos anos, é aqui que a corrida ao Oscar deixa de ser especulação e passa a ter contornos de destino.

A edição de 2026 chega particularmente aberta, sem um vencedor inevitável dominando todas as frentes. Filmes como One Battle After Another e Sinners chegam fortes, com números expressivos e uma presença consistente ao longo da temporada, mas há também o fator “candidato caseiro”, um elemento que o BAFTA raramente ignora. Hamnet, com seu peso literário, sua sensibilidade clássica e sua identidade profundamente britânica, surge como o tipo de obra que pode ganhar força exatamente onde a Academia americana hesita. Quando isso acontece, não é apenas uma vitória local. É um sinal de que existe uma outra leitura possível da temporada.
Nas categorias de atuação, o efeito pode ser ainda mais decisivo. A história recente mostra que o BAFTA não apenas antecipa vencedores, mas legitima performances que talvez parecessem sofisticadas demais ou discretas demais para o gosto americano. Foi o que aconteceu com Anthony Hopkins por Meu Pai, cuja vitória britânica parecia inicialmente um gesto de reverência nacional e acabou se transformando numa das maiores surpresas do Oscar moderno, superando a narrativa emocional em torno de Chadwick Boseman. Também foi o caso de Olivia Colman, que saiu de uma posição aparentemente secundária para derrotar Glenn Close depois de vencer em casa, e de Emma Stone, cujo triunfo no BAFTA consolidou a percepção de que sua atuação não era apenas excêntrica, mas incontornável. E, claro, em 2025, Mikey Madison tirou o favoritismo de Demi Moore vencendo tanto em Londres como em Los Angeles por Anora.


Há ainda uma dimensão simbólica que torna essa premiação particularmente poderosa. O BAFTA costuma premiar não apenas a excelência técnica ou artística, mas a ideia de cinema que deseja afirmar naquele momento histórico. Em períodos mais conservadores, privilegia narrativas clássicas e interpretações contidas. Em tempos mais inquietos, abre espaço para propostas formais ousadas e personagens moralmente ambíguos. Observar quem vence aqui é, portanto, observar qual visão de cinema parece mais necessária agora.
Nesta temporada, o que se percebe é uma tensão entre grandiosidade e intimidade, entre obras de escala épica e dramas centrados na interioridade humana. Se o BAFTA optar pelo espetáculo, reforçará a lógica de indústria que tende a dominar o Oscar. Se escolher o drama literário e introspectivo, poderá recolocar a discussão no campo da sensibilidade e da autoria, lembrando que o cinema ainda pode ser um espaço de reflexão, não apenas de impacto.
Para o Brasil, a noite carrega um significado mais silencioso, mas não menos revelador. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chega visível o suficiente para permanecer na conversa internacional, porém sem a aura de inevitabilidade que costuma cercar os vencedores nesta fase. As indicações mantêm o país presente, mas não central. Em termos de temporada de prêmios, essa diferença é decisiva. Presença sem impulso geralmente significa respeito, não força competitiva real.

Por isso, mais do que prever vencedores, a noite de hoje serve para medir o clima emocional da corrida. Quem sobe ao palco não leva apenas um troféu. Leva uma narrativa pronta para atravessar o Atlântico e se instalar no imaginário dos votantes americanos nas semanas finais. Em algumas ocasiões, essa narrativa chega tão carregada de legitimidade que o Oscar parece apenas confirmá-la. Em outras, cria uma tensão que transforma a votação final num ato de escolha entre duas visões de mundo.
Se existe uma certeza, é que o BAFTA raramente é irrelevante. Ele pode não decidir tudo, mas quase sempre redefine o que está em jogo. E numa temporada marcada por incertezas e equilíbrios frágeis, essa redefinição pode ser exatamente o que separa um favorito confortável de um vencedor inesperado. Hoje à noite, mais do que celebrar o cinema britânico, o prêmio volta a exercer sua função mais fascinante: a de lembrar que, mesmo na fase final, a história ainda pode mudar de rumo.
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