Há um momento em toda corrida ao Oscar em que a temporada deixa de ser um debate cultural e passa a funcionar como um sistema eleitoral interno. Esse momento chegou. Com BAFTA, Globos e Critics’ Choice já incorporados à narrativa, a corrida ao Oscar 2026 entra na fase decisiva dos prêmios dos sindicatos — os chamados guild awards —, que historicamente transformam favoritos plausíveis em vencedores prováveis porque refletem o voto direto dos profissionais que compõem a própria indústria.
Entre eles, o mais aguardado é o do Screen Actors Guild (agora Actors), marcado para 1º de março. Atores formam o maior ramo da Academy of Motion Picture Arts and Sciences, e quando convergem em torno de um nome ou de um elenco, o impacto costuma reverberar na votação final. Em uma temporada sem consenso nas categorias coadjuvantes e com liderança apenas relativa entre os protagonistas masculinos, o SAG pode transformar tendências em destino — ou desmontar completamente as previsões sobre quem vai ganhar o Oscar 2026.


Não é o único termômetro decisivo. O Directors Guild of America antecipa com frequência impressionante o vencedor de direção, enquanto o Producers Guild of America funciona como um espelho da categoria de Melhor Filme ao utilizar um sistema de votação preferencial semelhante ao da Academia. Já o Writers Guild of America, mesmo com limitações de elegibilidade, costuma consolidar o favorito em roteiro quando existe um texto claramente dominante.
O quadro geral aponta para uma divisão que se tornou a marca desta temporada. De um lado, One Battle After Another surge como a obra de prestígio, dominante em direção e categorias técnicas, com assinatura autoral e respeito crítico. De outro, Sinners concentra a força narrativa e emocional, especialmente em roteiro e atuação. Essa polarização abre espaço para um cenário clássico de split, no qual filme e direção não necessariamente irão para o mesmo título.
Na prática, roteiro parece a categoria mais inclinada a Sinners, enquanto direção — e possivelmente filme — se inclina para One Battle After Another. Ainda assim, nada indica uma varrida. A temporada tem distribuído prêmios em vez de concentrá-los, como se diferentes setores da indústria estivessem defendendo concepções distintas de cinema. Para quem acompanha os favoritos ao Oscar 2026, essa fragmentação explica por que as previsões permanecem instáveis mesmo a poucos dias da cerimônia.


Entre as atuações, há uma exceção quase absoluta. Melhor atriz parece resolvida há semanas. A trajetória de Jessie Buckley por Hamnet atravessou Globos, Critics’ Choice e BAFTA sem encontrar resistência real. No meu ponto de vista, ela já poderia subir ao palco do Dolby Theatre sem sequer ensaiar surpresa. Quando uma performance domina simultaneamente crítica, indústria e narrativa cultural, o Oscar costuma apenas formalizar o inevitável.
Melhor Ator apresenta um quadro mais complexo, ainda que com um favorito evidente. Timothée Chalamet lidera a temporada com vitórias importantes e presença constante nas premiações americanas. Ao mesmo tempo, sua campanha parece produzir uma reação curiosa: o volume de comentários “contra” às vezes soa mais alto do que o entusiasmo explícito a favor. Não por falta de mérito, mas porque ele nunca escondeu o desejo de reconhecimento máximo — algo paradoxal numa indústria que exige ambição, mas prefere que ela seja performada como modéstia. Essa contradição, embora incômoda para alguns, raramente é suficiente para impedir uma vitória quando o conjunto da temporada aponta na mesma direção.
No início da corrida, falava-se com entusiasmo das chances de Wagner Moura, mas elas parecem hoje mais reduzidas. A ausência nas indicações do BAFTA e do SAG enfraquece a narrativa de inevitabilidade, e seu impacto na temporada acabou sendo menor do que o de Fernanda Torres em sua respectiva categoria. Ainda assim, a indicação ao Oscar o coloca numa posição confortável em Hollywood. Moura já não é um nome estrangeiro ocasional, mas um profissional integrado ao sistema, com histórico de colaborações relevantes e respeito consolidado. Mesmo que não vença, sai da temporada mais próximo do centro da indústria.


Quanto a Leonardo DiCaprio, permanece como um concorrente de peso e um nome impossível de descartar completamente. No entanto, a menos que seja ele o escolhido pelos atores no SAG, o cenário mais provável continua favorecendo Chalamet. Em categorias de atuação, o apoio do próprio ramo costuma ser decisivo.
Se entre protagonistas existe liderança, nas categorias coadjuvantes reina a incerteza e isso, paradoxalmente, é parte do encanto da noite. São as primeiras premiações da cerimônia, e portanto, as responsáveis por estabelecer imediatamente o tom emocional do evento. Este ano, a disputa feminina espelha a própria divisão da temporada: Wunmi Mosaku de Sinners contra Teyana Taylor, de One Battle After Another. Ambas já venceram prêmios relevantes, e nenhuma conseguiu impor domínio suficiente para tornar a previsão segura. Pessoalmente, eu gostaria de ver Amy Madigan triunfar, mas essa possibilidade parece cada vez mais distante à medida que a corrida se polariza entre as duas produções centrais do ano.
Entre os homens coadjuvantes, a situação é igualmente volátil. Cada premiação apontou um nome diferente, sugerindo um eleitorado fragmentado e campanhas equilibradas. Em anos assim, o Oscar costuma premiar não necessariamente o favorito crítico, mas o candidato que consegue reunir o maior número de segundas preferências, um detalhe frequentemente invisível ao público, mas decisivo no sistema de votação da Academia.

Para o Brasil, há ainda a disputa de Filme Internacional. O impulso recente do candidato norueguês após o BAFTA é inegável, mas O Agente Secreto mantém uma trajetória respeitável baseada em apoio crítico e visibilidade crescente. Diferentemente das categorias principais, esse prêmio responde menos aos sindicatos e mais à percepção global de relevância cultural e artística, que pode mudar até o último momento.
O que torna esta temporada particularmente fascinante é justamente a ausência de uma narrativa dominante. Não há um filme varrendo tudo, nem performances esmagadoras em todas as categorias. Em vez disso, a sensação é de uma indústria dividida entre diferentes sensibilidades e prioridades. Nesse contexto, os sindicatos funcionam menos como confirmação e mais como arbitragem final.
Se SAG, PGA e DGA convergirem para os mesmos vencedores, o Oscar provavelmente apenas ratificará o resultado. Se cada um apontar para direções distintas, a cerimônia de março poderá se tornar uma das mais imprevisíveis dos últimos anos. E talvez seja essa incerteza — rara numa temporada cada vez mais guiada por campanhas e estatísticas — que devolve ao Oscar algo próximo de seu antigo suspense.
A corrida ao Oscar 2026 ainda não está decidida. Mas, nas próximas semanas, deixará de ser uma questão de percepção e passará a ser uma questão de votos reais dentro de Hollywood. E, nesse jogo silencioso de influência e consenso, os prêmios dos sindicatos continuam sendo o indicador mais confiável de quem realmente chegará ao palco como vencedor.
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