Mal começamos a nos animar, e logo veio o fim. A Knight of the Seven Kingdoms foi tudo o que prometeu e um grande acerto, exatamente o que os fãs da saga aguardavam há tempos. Teremos que esperar até 2027 para reencontrá-los, mas a série já oferece conexões importantes com Game of Thrones que esclarecem pontos que muitos leitores ainda não haviam decifrado completamente nos livros.
O último episódio da primeira temporada não é um clímax, nem um espetáculo, nem um gancho ruidoso para o futuro. É algo muito mais raro na televisão contemporânea: um epílogo verdadeiro, contemplativo, quase melancólico, interessado não no que acontece, mas no que resta depois. Em certo sentido, segue a tradição emocional de Game of Thrones, que sempre soube que as consequências importam tanto quanto os acontecimentos.

A morte do príncipe Baelor no episódio anterior paira sobre tudo como uma sombra porque não é apenas a perda de um homem admirável, é a perda de uma possibilidade. Westeros não perdeu só um herdeiro, perdeu a chance de um reinado melhor, mais justo, talvez menos brutal. A sensação dominante não é de tragédia explosiva, mas de vazio. O tipo de vazio que só a política conhece, quando o curso da história muda por um acidente, um erro, um golpe mal calculado. E nós sabemos, pelo que vimos ao longo dos seis episódios, que a Coroa acabará desviada para os ombros do menos provável dos príncipes.
Sem saber disso, todos no episódio final vivem uma espécie de ressaca moral. Valarr, filho de Baelor, oscila entre incredulidade e fúria diante do homem que, mesmo sem intenção, desencadeou a sequência de eventos que levou à morte do pai. Maekar, o irmão que desferiu o golpe fatal, carrega uma culpa ainda mais complexa: ele sabe que matou não apenas um parente, mas uma promessa. Em Westeros, o poder raramente é gentil com quem sobrevive.
E há Duncan, no centro silencioso de tudo, incapaz de celebrar sua absolvição. Legalmente inocente, moralmente inquieto, ele parece um homem que não consegue aceitar que sua vida tenha valido a de Baelor. A pergunta que o acompanha não é “o que vai acontecer agora?”, mas “por que eu?”. Por que os deuses escolheram preservar um cavaleiro errante em vez de um príncipe destinado à grandeza? Talvez se perguntasse a Daeron ou ouvisse seus sonhos.
Um cavaleiro sem lugar
Ao contrário do que a lógica política sugeriria, Dunk não aceita a oferta de Maekar para entrar definitivamente a serviço da Casa Targaryen em Summerhall. Também rejeita o convite exuberante de Lyonel Baratheon para viver entre festas, caçadas e camaradagem nas Terras da Tempestade. “Já esteve em Tarth?”, ele pergunta ao cavaleiro, numa referência que alude à linhagem que um dia o ligará a Brienne. Em termos práticos, ele recusa estabilidade, proteção e prestígio, tudo aquilo que um cavaleiro sem terras deveria desejar.
Ao contrário do início da série, agora Dunk não quer mais proximidade com nobres. Ele não serve para instrumento da coroa nem mascote de um senhor rebelde. Sua honra é obstinada demais para a corte e ingênua demais para a política. O que a série sugere, com delicadeza, é que Dunk só pode ser íntegro porque não pertence a ninguém.


Essa ideia ecoa numa das sequências mais simbólicas do episódio: a lembrança de Ser Arlan de Pennytree, seu mentor, explicando o costume de pregar uma moeda numa árvore como promessa de retorno após a guerra. Dunk não tem castelo, linhagem nem território. Ainda assim, repete o gesto, marcando que esteve ali e, ao mesmo tempo, declarando todo o reino como sua casa.
E há também a ambiguidade fundamental do personagem. A dúvida sobre se Duncan mentiu ao afirmar que era cavaleiro continua relevante. Mesmo tentando agir com justiça e honra, ele construiu sua identidade sobre uma meia-verdade. Ainda assim, não parece ter enganado completamente Baelor, Maekar ou Lyonel.
Seja como for, Dunk escolhe seguir uma vida solitária, incerta, mas livre.
A Dor dos Sobreviventes
Duncan pode ser o “vitorioso”, mas não se sente assim. O peso da culpa pela morte de Baelor, ainda que indireta, pesa mais do que suas feridas físicas. Seus aliados dão de ombros, defendendo que um dragão morto é o melhor destino possível para um Targaryen, mas Dunk discorda profundamente.
O breve encontro com Valarr não oferece consolo. Para o príncipe, o pai morreu por causa de uma disputa banal envolvendo um cavaleiro errante, e não há espaço para perdão.
A conversa com Maekar tampouco suaviza as coisas. Sam Spruell constrói um retrato impressionante do personagem, misturando arrogância, ressentimento, surpresa e um afeto rude pelos filhos. A cena com Peter Claffey é provavelmente a mais importante do episódio. Embora a linhagem ainda passe por Valarr, Maekar fala como alguém que sabe que o futuro é instável e que reis podem surgir de lugares inesperados.

A seu modo, ele tenta acomodar o desejo de Egg, oferecendo a Dunk uma posição em Summerhall e treinamento adequado. Mas Dunk está exausto. Recusa. Chega de príncipes.
A resposta o decepciona profundamente, e a dor de Egg é palpável. Ele odeia a própria família, mas também teme o que ela representa dentro dele.
A moeda da loucura Targaryen
Sozinho em seus aposentos, Egg observa o crescimento de seus cabelos loiros com desespero, como se cada fio reafirmasse um destino do qual quer escapar. Armado com uma faca, dirige-se ao quarto de Aerion, possivelmente para matá-lo ou mutilá-lo. Antes que qualquer ato seja consumado, percebe que Maekar está ali, observando.
O momento é interrompido, mas não resolvido. Egg chora, e Maekar o consola em silêncio, numa cena que revela tanto amor quanto impotência. Ele protege o filho, mas também protege o outro filho, cuja instabilidade é evidente.


Mais tarde, Dunk encontra Daeron bebendo entre os homens feridos. O príncipe comenta que seu irmão nem sempre foi o monstro atual. Quando Dunk defende Egg, Daeron esclarece que não estava falando dele, mas de Aerion. Esse detalhe muda tudo.
É então que Dunk reconsidera. Se Egg permanecer na corte, pode sucumbir à mesma loucura que consumiu outros Targaryen. Para protegê-lo, aceita levá-lo consigo, mas apenas longe do poder. Maekar considera a proposta ofensiva, uma vez que significaria expor o filho à pobreza, à sujeira e à vida comum.
O nascimento de uma parceria histórica
As despedidas são discretas, como Dunk prefere. Quando Egg aparece pronto para partir, alegando ter permissão paterna, a série assume plenamente seu núcleo emocional. Não importa se a autorização existe ou não (e não existe, a cena final confirma). O que importa é a escolha.
A dinâmica entre os dois retorna ao tom que sustentou a temporada: ora formal, ora cúmplice, ora quase fraterna. Uma amizade improvável entre um homem comum e um herdeiro do trono.

Há algo profundamente subversivo nessa formação. Egg não será educado apenas por mestres e estrategistas, mas pela realidade concreta do reino, pelas estalagens pobres, pela comida dura, pelos estábulos e pelas noites ao relento. É uma educação pela experiência, não pela teoria. Westeros raramente forma governantes assim.
O humor final, quando Egg corrige a expressão “Sete Reinos” lembrando que na verdade são nove, funciona como mais do que uma piada. É um lembrete de que a história oficial simplifica o mundo para torná-lo governável.
Um final sem espetáculo, e por isso mesmo poderoso
A temporada termina com uma imagem incomum para esse universo: esperança. Dois deslocados partem rumo ao desconhecido sem dragões, sem exércitos e sem intrigas imediatas, apenas com a convicção de que podem fazer melhor do que aqueles que vieram antes.
Dentro de uma franquia marcada pelo cinismo e pela violência estrutural, essa simplicidade é quase revolucionária.
Também reafirma o tema central da saga Dunk e Egg: a história não é moldada apenas por reis e batalhas, mas por escolhas morais feitas por pessoas que ninguém considera importantes. A bondade de Dunk, frequentemente confundida com ingenuidade, revela-se aqui como uma forma de resistência.

O amanhã como pergunta
O título “The Morrow” vem da pergunta que Ser Arlan fazia ao fim de cada dia: o que o amanhã trará? É uma questão simples e profundamente humana, especialmente num mundo onde o futuro costuma parecer predeterminado por sangue, profecias ou violência.
Ao encerrar a temporada com essa pergunta aberta, a série sugere que o destino não está completamente escrito. Nem para Dunk, nem para Egg, nem para Westeros.
Talvez essa seja sua maior ousadia: afirmar que, mesmo num mundo dominado por dragões e coroas, o amanhã ainda pertence a quem continua caminhando.
E, mais uma vez, fica a sensação de que a trilha sonora carece de um tema verdadeiramente memorável como os de Ramin Djawadi. Quem sabe a segunda temporada corrija isso.
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