Dificilmente a história recente de Hollywood tenha produzido uma atriz tão abertamente determinada a interpretar Audrey Hepburn quanto Lily Collins. A semelhança física — inegável — foi explorada por ela ao longo dos anos em ensaios fotográficos, entrevistas e até na construção visual de Emily in Paris, onde há sequências inteiras que funcionam como homenagens diretas à estrela clássica.
Em algumas ocasiões, Collins chegou a usar peças que pertenceram à própria Audrey, como óculos icônicos, transformando admiração em encenação quase ritualística. Durante anos, o desejo de interpretá-la esbarrou em projetos concorrentes — uma cinebiografia estaria ainda em pré-produção, estrelada por Rooney Mara —, mas agora, finalmente, o sonho toma forma concreta.

O novo filme não será uma biografia tradicional. Em vez de narrar toda a trajetória de Hepburn, o projeto se concentrará nos bastidores de Bonequinha de Luxo (1961), um dos filmes mais influentes do século 20 e responsável por cristalizar a imagem de Holly Golightly como arquétipo de elegância moderna. Baseado no livro Fifth Avenue, 5 A.M.: Audrey Hepburn, Breakfast at Tiffany’s and the Dawn of the Modern Woman, de Sam Wasson, o longa promete reconstruir o caótico processo de produção que transformou uma novela ácida de Truman Capote em uma comédia romântica sofisticada e melancólica.
O conflito começa antes mesmo das filmagens. Capote queria Marilyn Monroe no papel principal e sentiu-se traído quando o estúdio escolheu Hepburn, decisão que mudaria não apenas o filme, mas o imaginário cultural do pós-guerra. O roteiro também acompanhará tensões de bastidores, disputas criativas e episódios dramáticos ocorridos durante a produção, incluindo um acidente quase fatal na filmagem da famosa cena inicial diante da joalheria Tiffany & Co. Personagens históricos como o próprio Capote, o diretor Blake Edwards e a lendária figurinista Edith Head farão parte da narrativa, transformando o longa em um retrato da engrenagem de Hollywood em um momento de transição estética e moral.
Collins não apenas interpretará Audrey como também atuará como produtora, sinal claro de envolvimento pessoal profundo. Segundo a atriz, o projeto levou quase uma década para se concretizar e nasce de “uma vida inteira de admiração e adoração” pela estrela. Essa devoção ajuda a explicar por que sua relação com Hepburn ultrapassa a simples influência estilística.


Desde o início de sua carreira, Lily Collins nunca escondeu a figura que paira sobre sua imaginação estética e artística como um ideal quase inatingível. Não se trata apenas de reverência a um ícone clássico, algo comum entre atrizes contemporâneas. No caso dela, a relação beira uma identificação estrutural, construída ao longo dos anos por meio da moda, da postura pública e de uma delicadeza cuidadosamente coreografada que evoca — consciente ou inconscientemente — a aura da mulher que redefiniu a elegância feminina no século 20.
Filha do músico Phil Collins e criada entre a Inglaterra e os Estados Unidos, Lily cresceu cercada por referências culturais, mas encontrou em Hepburn um modelo de feminilidade que combinava graça, discrição e força silenciosa. Em entrevistas, descreveu a atriz como um “farol”, alguém que demonstrava ser possível ser doce sem ser frágil e sofisticada sem parecer distante. Esse diálogo visual é constante: sobrancelhas marcadas, coques altos, linhas minimalistas, silhuetas limpas. Seus looks de tapete vermelho parecem frequentemente ecoar Bonequinha de Luxo e A Princesa e o Plebeu, como se cada aparição pública fosse uma variação contemporânea de um ideal clássico.
Mas a conexão vai além da superfície. Collins também demonstra fascínio pela dimensão humanitária de Audrey, cuja vida posterior foi dedicada ao trabalho com a UNICEF. Em uma era em que celebridades são frequentemente acusadas de performar engajamento, Hepburn representa um ideal de altruísmo discreto e genuíno. Ao evocar esse legado, Collins parece buscar não apenas inspiração estética, mas legitimidade moral, como se a herança simbólica da atriz oferecesse uma forma de resistência ao cinismo contemporâneo.



Interpretá-la, portanto, não é apenas assumir um papel prestigiado. É confrontar o próprio mito que ajudou a moldar sua identidade pública. Há algo profundamente circular nisso: uma atriz que construiu parte de sua persona à sombra de um ícone agora precisa encarnar essa mesma figura e revelar a mulher por trás da imagem perfeita. O risco é evidente. Hepburn ocupa um lugar quase sagrado na cultura popular, e qualquer tentativa de reproduzi-la pode parecer imitação reverencial ou caricatura. O desafio será escapar da superfície — do sorriso inclinado, do olhar luminoso, da postura impecável, para acessar as contradições de uma mulher marcada por inseguranças, trauma de guerra e solidão.
O interesse persistente por Audrey Hepburn também revela algo sobre o nosso tempo. Em uma cultura saturada de hiperexposição e celebridades descartáveis, ela permanece como símbolo de uma era em que o mistério ainda era possível. Lily Collins, com sua elegância controlada e sua imagem cuidadosamente polida, parece tentar recuperar um pouco desse enigma perdido. Seu novo filme, ao focar justamente no momento em que Holly Golightly nasceu como mito moderno, transforma-se em algo maior do que um simples making-of dramatizado: é uma investigação sobre a fabricação da aura, sobre como Hollywood construiu — e o público perpetuou — um ideal de feminilidade que ainda hoje resiste.


Se o projeto cumprir sua promessa, poderá revelar não apenas os bastidores de um clássico, mas também o delicado processo pelo qual uma atriz contemporânea tenta dialogar com um fantasma luminoso do passado. Ao perseguir Audrey Hepburn, Lily Collins talvez esteja, no fundo, perseguindo uma pergunta mais ampla: que tipo de estrela ainda pode existir em um mundo que já não acredita totalmente em estrelas.
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