Peaky Blinders para iniciantes: guia completo temporada por temporada antes do filme (sem spoilers)

Como publicado na Revista Bravo!

Se você nunca assistiu a Peaky Blinders, mas tem a sensação de que o mundo inteiro fala de Tommy Shelby como se ele fosse uma figura histórica real, não é impressão. A série britânica criada por Steven Knight se tornou um fenômeno global ao transformar a trajetória de uma família criminosa em um retrato épico sobre guerra, ambição, trauma e poder. Ambientada entre o pós-Primeira Guerra Mundial e a ascensão do fascismo na Europa, acompanha a evolução de Thomas Shelby, um veterano profundamente marcado pelo front que constrói um império ilegal enquanto tenta manter sob controle os próprios demônios.

A seguir, um guia temporada por temporada pensado para iniciantes, com o contexto essencial para entender por que essa história permanece tão relevante hoje, especialmente com a chegada do filme Peaky Blinders: The Immortal Man.

Antes de tudo, é importante abandonar qualquer expectativa de inocência. Nem Tommy nem os Shelby são heróis tradicionais. Ele é um dos grandes anti-heróis da televisão contemporânea: brilhante, manipulador, carismático e emocionalmente devastado. Trata-se também de um papel raro, que permitiu a Cillian Murphy construir um personagem capaz de provocar amor, repulsa e compaixão ao mesmo tempo, sem jamais perder a capacidade de atrair o espectador para seu ponto de vista.

A série sofreu um abalo profundo com a morte de Helen McCrory, intérprete de Polly Gray, a matriarca que funcionava como consciência moral, contraponto emocional e eixo de poder da família. Sua ausência obrigou a narrativa a se reorganizar e alterou um destino dramático que provavelmente teria outro desenvolvimento. Ainda assim, Steven Knight conseguiu recalibrar a história sem trair seu núcleo central: a ideia de que poder, família e trauma são inseparáveis no universo dos Shelby.

Com isso em mente, é possível entrar na saga não como uma história de gângsteres glamorosos, mas como uma tragédia moderna sobre homens e mulheres que sobreviveram à guerra e descobriram que sobreviver não significa necessariamente voltar a viver.

Temporada 1 (1919): origem, trauma e ambição

A primeira temporada apresenta Birmingham logo após a Primeira Guerra Mundial, uma cidade marcada pela pobreza, pelo desemprego e por homens que voltaram do front incapazes de retomar a vida civil. Tommy Shelby lidera a gangue familiar conhecida como Peaky Blinders, envolvida em apostas ilegais e pequenos esquemas, mas com ambições muito maiores.

O conflito principal começa quando a gangue entra em posse de armas roubadas, atraindo a atenção do governo britânico. Um inspetor obstinado é enviado para recuperar o armamento e destruir a organização. Ao mesmo tempo, a temporada introduz a dinâmica familiar — especialmente a figura central de Polly Gray, a tia que mantém o grupo unido — e estabelece o tom da série: elegante, violento e profundamente melancólico.

Mais do que uma história de crime, é uma narrativa sobre sobrevivência após a guerra e sobre como o trauma pode se transformar em motor de ascensão social.

Temporada 2 (1921–1922): expansão para Londres

Com Birmingham sob controle, Tommy decide expandir seus negócios para Londres, um território muito mais perigoso e politicamente complexo. Isso o coloca em contato com novas gangues e com figuras imprevisíveis que operam em uma escala maior.

A temporada mostra como o sucesso exige alianças frágeis e traições inevitáveis. Também aprofunda o passado dos personagens e revela que a ascensão dos Shelby ameaça interesses muito mais amplos do que rivais locais. O tom continua estilizado, mas a violência se torna mais estratégica e calculada.

Se a primeira temporada é sobre fundação, a segunda é sobre crescimento, e sobre o preço de querer mais do que o mundo parece disposto a conceder.

Temporada 3 (1924): riqueza e conspiração internacional

Agora ricos e socialmente influentes, os Shelby entram em contato com aristocratas, serviços secretos e operações clandestinas ligadas à política europeia. A série deixa de ser apenas um drama criminal e passa a explorar espionagem, terrorismo e jogos de poder internacionais.

É também uma temporada marcada por tragédias pessoais que abalam profundamente Tommy e reforçam a ideia de que quanto maior o poder, maior a vulnerabilidade emocional. O contraste entre luxo e desespero é constante, e a narrativa assume um tom mais sombrio e psicológico.

Aqui fica claro que a ascensão social não significa libertação, mas sim exposição a perigos ainda mais complexos.

Temporada 4 (1925–1926): guerra familiar e vingança

Depois de eventos devastadores, a família Shelby se dispersa e precisa se reunir novamente para enfrentar um inimigo externo determinado a destruir todos eles. A ameaça vem da máfia ítalo-americana, transformando a temporada em um confronto direto, brutal e pessoal.

Sem o verniz político das temporadas anteriores, a história retorna às raízes violentas da gangue, mas em escala muito maior. O perigo é constante e a sensação de mortalidade permeia cada episódio.

Paralelamente, a série começa a abordar mais explicitamente as tensões sociais e trabalhistas da época, mostrando que o império Shelby também depende de um sistema econômico desigual.

Temporada 5 (1929): política e fascismo

A crise econômica mundial muda completamente o cenário. Tommy entra oficialmente na política britânica, tentando usar o sistema para proteger seus interesses e, ao mesmo tempo, combater o avanço do extremismo.

O principal antagonista é um líder fascista carismático, inspirado em figuras reais da época, o que transforma a série em um comentário direto sobre como regimes autoritários ganham espaço em períodos de instabilidade. A violência continua presente, mas agora é institucional, ideológica e estratégica.

Internamente, Tommy começa a demonstrar sinais de colapso psicológico. Insônia, culpa e paranoia sugerem que o poder conquistado não trouxe paz, apenas novos tipos de guerra.

Temporada 6 (1933–1934): legado, luto e fim de ciclo

A última temporada é a mais introspectiva e sombria. A família enfrenta perdas profundas, ameaças políticas crescentes e a sensação de que o tempo de Tommy Shelby pode estar chegando ao fim.

A narrativa se concentra na questão do legado: quem herdará o império e o que restará dele? Surge um herdeiro inesperado, colocando em evidência a possibilidade de continuidade, mas também o risco de repetir os erros do passado.

O desfecho evita soluções simples. Em vez de um triunfo clássico ou de uma queda definitiva, apresenta um personagem transformado, confrontando a própria mortalidade e a responsabilidade por tudo o que construiu.

Por que assistir antes do filme

Peaky Blinders funciona como uma grande saga sobre a transformação de um homem e de uma família ao longo de duas décadas de turbulência histórica. O filme The Immortal Man retoma a história em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, quando as consequências de todas essas escolhas voltam à superfície.

Para iniciantes, entender essa trajetória torna a experiência muito mais poderosa. Não se trata apenas de acompanhar uma gangue, mas de observar como a violência, quando usada como ferramenta de ascensão, nunca deixa de cobrar seu preço.

Tommy Shelby não é um herói tradicional nem um vilão simples. É o retrato de uma geração moldada pela guerra e incapaz de escapar dela, mesmo quando a batalha parece ter terminado.


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