Aimee Lou Wood será Jane Eyre em nova adaptação do clássico Brontë

O ano de 2026 parece ter sido – pelo bem ou pelo mal – o ano no qual as irmãs Brontë voltaram ao centro da imaginação cultural contemporânea. Depois do interesse renovado por Emily Brontë, impulsionado por filmes, biografias e releituras que tentam decifrar a autora de O Morro dos Ventos Uivantes, é a vez de Jane Eyre ressurgir mais uma vez, agora com Aimee Lou Wood, conhecida por Sex Education e pela temporada recente de The White Lotus, no papel da governanta órfã que redefiniu a figura da heroína romântica. Não se trata apenas de mais uma refilmagem entre tantas. Trata-se da prova de que a obra de Charlotte Brontë permanece como um dos textos fundadores da subjetividade feminina moderna, capaz de dialogar com diferentes épocas sem jamais se tornar confortável ou plenamente assimilável.

Publicado em 1847, sob o pseudônimo masculino Currer Bell, o romance surgiu em um momento em que mulheres eram autorizadas a escrever apenas dentro de limites morais e sociais muito estreitos. O que Charlotte fez foi expandir esses limites até o ponto da ruptura, criando uma narradora que não pede desculpas por desejar amor, autonomia e dignidade ao mesmo tempo. Jane não é bela, não é rica, não é socialmente relevante e tampouco é dócil. Sua força está na recusa obstinada em aceitar um lugar inferior no mundo, mesmo quando todas as circunstâncias parecem conspirar para confiná-la à invisibilidade. Essa recusa é o motor emocional da narrativa e também a razão pela qual o livro continua a ressoar em leitores de diferentes gerações, cada qual encontrando ali um espelho para suas próprias negociações entre independência e pertencimento.

O romance atravessa o tempo porque articula conflitos que não pertencem apenas ao século 19, mas à própria experiência humana. A infância marcada por abandono e humilhação, a busca por autonomia econômica em uma sociedade que restringe as escolhas femininas, a tensão entre desejo e moral religiosa, a desigualdade de classe dentro das relações afetivas e, sobretudo, a pergunta sobre se é possível amar sem se anular formam um núcleo dramático que continua profundamente atual. Jane não quer apenas ser amada; quer ser reconhecida como igual, algo que permanece surpreendentemente radical mesmo hoje. Sua história é menos um conto de fadas e mais um processo de formação psicológica, narrado em primeira pessoa com uma intimidade que antecipa o romance moderno e cria a sensação de que acompanhamos não uma personagem, mas uma consciência em construção.

A força duradoura da obra também está na sua mistura singular de gêneros. Jane Eyre é ao mesmo tempo romance gótico, narrativa de amadurecimento, crítica social e história de amor, com elementos de suspense que mantêm a tensão até o fim. Thornfield Hall, a mansão onde Jane trabalha como governanta, não é apenas cenário, mas uma metáfora arquitetônica para os segredos reprimidos da era vitoriana, incluindo o mais perturbador deles, a presença de Bertha Mason, a esposa escondida de Rochester, cuja loucura funciona tanto como dispositivo narrativo quanto como símbolo das violências coloniais e patriarcais invisibilizadas pela sociedade britânica. Cada nova adaptação enfatiza um aspecto diferente dessa ambiguidade, ora destacando o romance, ora o terror psicológico, ora a dimensão feminista, o que explica por que a história nunca parece esgotada.

No cinema, a versão de 1943, dirigida por Robert Stevenson e estrelada por Joan Fontaine e Orson Welles, consolidou a estética gótica da narrativa para o público do século 20, transformando Rochester em uma figura sombria e dominadora, quase byroniana, e Thornfield em um espaço de sombras expressionistas.

Décadas depois, a adaptação de 2011 dirigida por Cary Fukunaga, com Mia Wasikowska e Michael Fassbender, ofereceu uma leitura mais intimista e psicológica, enfatizando o trauma de Jane, a sexualidade reprimida do casal e a atmosfera de isolamento emocional que permeia o romance.

Para muitos leitores, porém, a versão mais satisfatória continua sendo a minissérie da BBC de 2006, protagonizada por Ruth Wilson e Toby Stephens, que dispõe de tempo suficiente para desenvolver gradualmente a relação entre Jane e Rochester e preservar a complexidade moral da obra original sem reduzi-la a melodrama ou suspense.

A televisão britânica, aliás, desempenhou um papel crucial na preservação da relevância de Jane Eyre, com adaptações periódicas desde os anos 1950, cada uma refletindo as sensibilidades de sua época. Em versões mais antigas, Jane surge como exemplo de virtude e resignação; nas mais recentes, como uma mulher resiliente, emocionalmente complexa e consciente das estruturas que a oprimem. Essa plasticidade interpretativa é parte essencial do fenômeno Brontë. Assim como Elizabeth Bennet, de Jane Austen, Jane Eyre se tornou uma espécie de arquétipo, uma personagem que pode ser continuamente reconfigurada sem perder sua essência.

A escolha de Aimee Lou Wood para o novo filme sugere uma leitura particularmente interessante para o momento atual. Wood possui uma qualidade de vulnerabilidade transparente combinada a uma firmeza silenciosa que a impede de ser percebida como frágil ou passiva, algo muito próximo da Jane literária. Sua presença em produções contemporâneas marcadas por ambiguidade emocional e desconforto social indica que a adaptação provavelmente privilegiará a dimensão psicológica da história, explorando não apenas o romance, mas o processo interior de sobrevivência e autodefinição que o sustenta. Em uma era marcada por debates sobre trauma, saúde mental e autonomia feminina, essa abordagem pode aproximar ainda mais o texto de Charlotte Brontë do público atual.

Mais do que nostalgia, o retorno constante a Jane Eyre revela uma necessidade recorrente de revisitar narrativas que colocam a interioridade feminina no centro da experiência humana. O romance não oferece escapismo puro nem conforto romântico absoluto, mas uma trajetória de autodeterminação construída a partir de perdas, recusas e escolhas difíceis. Talvez seja essa honestidade emocional, aliada a uma estrutura dramática irresistível, que mantém a obra viva quase dois séculos após sua publicação.

Cada nova adaptação é menos uma tentativa de substituir as anteriores do que uma nova leitura de um texto que se recusa a envelhecer, porque continua a formular perguntas essenciais sobre amor, liberdade e identidade. Em um momento cultural fascinado por heroínas complexas e imperfeitas, Jane Eyre não parece uma relíquia literária, mas uma contemporânea inesperada que insiste em voltar para lembrar que a verdadeira revolução, muitas vezes, acontece dentro da consciência de uma mulher aparentemente comum.


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