Desde o primeiro episódio, Peaky Blinders construiu uma relação singular com a música. Diferentemente de trilhas que apenas acompanham a ação, aqui as canções funcionam como comentário moral, extensão psicológica dos personagens e, muitas vezes, como prenúncio narrativo. Nick Cave, Arctic Monkeys, PJ Harvey e tantos outros não foram escolhidos apenas pela atmosfera sombria, mas porque suas letras e timbres ecoavam aquilo que Tommy Shelby jamais diria em voz alta. A música, na série, sempre soube antes do público o que estava por vir.
Em The Immortal Man, essa lógica parece levada ao extremo. A lista oficial de faixas não apenas sugere o tom do filme como praticamente delineia sua estrutura dramática. Os títulos, lidos em sequência, funcionam como um esqueleto da narrativa e revelam algo decisivo: não se trata de uma história de expansão criminosa, mas de legado, paternidade, luto e sucessão. Em outras palavras, de uma tragédia familiar.

“Opening Scene / The Currency” indica que o filme se abre com a questão do poder em sua forma mais essencial. Em Peaky Blinders, moeda nunca é apenas dinheiro, mas influência, lealdade e dívida moral. Logo em seguida, “The Immortal Man” estabelece o tema central: Tommy como figura mítica, sobrevivente de guerras, traições e perdas, alguém que se tornou maior do que a própria vida.
A entrada de “Ruby’s Scarf” desloca imediatamente o foco para o plano íntimo. Ruby continua sendo a fixação emocional de Tommy, a filha cuja morte o destruiu e, paradoxalmente, o salvou ao impedir seu suicídio. Um objeto associado a ela sugere memória viva, ritual de luto ou momento de vulnerabilidade extrema. “Nobody’s Son” reforça a ideia de identidade fragmentada, preparando o terreno para o verdadeiro eixo do filme: Duke Shelby.
As faixas centradas em Duke são numerosas e reveladoras. “No Heaven No Hell for Duke Shelby” descreve um personagem sem crença em transcendência ou punição, alguém moralmente vazio. “Duke and Beckett Strike a Deal” e “Beckett Tests Duke” indicam um processo de sedução e avaliação por parte do antagonista, provavelmente a figura interpretada por Tim Roth. Duke não apenas é manipulado; ele é moldado.
“Ada and Duke” sugere tentativa de intervenção familiar, coerente com a posição de Ada como a consciência pragmática dos Shelby. Já “Dukes Descent” deixa claro que o arco do personagem é de queda progressiva, não de um erro isolado. Esse movimento culmina em “Tommy vs Duke” e, posteriormente, “Father and Son”, sinalizando que o conflito central não é externo, mas interno à linhagem Shelby.


Zelda, interpretada por Rebecca Ferguson, surge como peça fundamental nesse quebra-cabeça. “Tommy, Kaulo and Zelda” indica que ela não é apenas memória distante, mas presença ativa na trama. Como mãe de Duke e antiga amante de Tommy, sua aparição representa o retorno de um passado íntimo que nunca foi resolvido.
O papel de Beckett (Tim Roth) emerge como o de um antagonista ideológico e estratégico. Ele aparece nos momentos decisivos, nunca como força bruta, mas como agente de influência. “Tommy vs Beckett” sugere que o confronto direto só ocorre depois que o dano já está feito, quando Duke já foi cooptado.
As faixas também revelam um clima de paranoia doméstica e fragmentação familiar. “An Intruder In The House” aponta para ameaça interna, literal ou simbólica. “Close the Door” sugere um ponto de não retorno, uma decisão que separa definitivamente personagens ou mundos.
Os episódios de violência parecem localizados e pessoais, não épicos. “Stable Shootout”, “Pig Pen”, “A Gun Is No Good” e “The Bullet” evocam confrontos sujos e improvisados, coerentes com uma história centrada em relações familiares e traições íntimas. “St Elizabeth’s Mortuary” e “Confession” indicam morte significativa e revelações tardias.
Há ainda um conjunto de títulos fortemente simbólicos. “Opium Dreams” sugere fuga química e assombração psicológica. “Puppet” indica manipulação, provavelmente de Duke. “Medusa” evoca horror paralisante diante de algo monstruoso e familiar. “Angel” e “The Tunnel” remetem a estados liminares entre vida e morte, redenção e perdição.

O retorno de “Red Right Hand (Immortal)” é particularmente eloquente. A canção-tema da série aparece associada à ideia de imortalidade, sugerindo que Tommy se tornou uma lenda dentro do próprio universo que ajudou a criar. “The Coin” e “The Map” evocam escolha e destino, como se o personagem estivesse preparando um movimento final.
“Hunting The Wren”, com suas conotações folclóricas de sacrifício simbólico, reforça a sensação de encerramento ritualístico. E a última faixa, “Ellipsis”, é talvez a mais reveladora de todas. Uma elipse não conclui uma frase; ela a suspende. Indica continuidade fora de cena, um final aberto, melancólico, mais contemplativo do que resolutivo.


O retrato que emerge é claro. The Immortal Man não parece ser um épico criminal sobre domínio territorial ou ascensão ao poder. É uma história sobre o que acontece quando o poder já não oferece sentido. Tommy enfrenta não um inimigo externo, mas o legado que construiu e que agora ganha vida própria através de Duke. Beckett representa a força que explora essa vulnerabilidade. Zelda encarna o passado íntimo que retorna para cobrar reconhecimento. Ruby permanece como a única presença capaz de manter alguma humanidade viva.
Se a série sempre foi uma tragédia disfarçada de saga de gangsters, o filme promete o inverso: uma tragédia assumida, onde o verdadeiro suspense não está em quem vence, mas em quem consegue preservar a alma.
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