Nós constantemente lidamos com uma realidade curiosa e persistente: personagens que nasceram na literatura, mas parecem pertencer aos leitores. Cada um tem sua visão, sua certeza de como são, desejam e devem ser retratados no cinema ou na televisão. É o caso de Jo March, Elizabeth Bennet e Jane Eyre. Elas não são apenas protagonistas de romances canônicos, mas figuras formadoras, companheiras íntimas de gerações, mulheres que muitas leitoras sentem que ajudaram a moldar quem elas se tornaram. Por isso, sempre que uma nova adaptação é anunciada, a reação não é apenas curiosidade ou entusiasmo, mas vigilância e uma espécie de apropriação afetiva que se manifesta como um silencioso “vamos ver se você merece tocá-la”.

Essa reação se intensifica porque certas interpretações se tornaram, ao longo do tempo, quase canônicas por si mesmas. Para Elizabeth Bennet, duas imagens dominam o imaginário contemporâneo. A primeira é a de Jennifer Ehle na minissérie da BBC de 1995, cuja interpretação combina inteligência, ironia e maturidade emocional de maneira tão equilibrada que muitos leitores a consideram a Lizzie mais fiel ao espírito do romance. A segunda é a de Keira Knightley no filme de 2005, que trouxe uma energia mais jovem, impulsiva e fisicamente expressiva, aproximando a personagem de sensibilidades modernas sem abandonar completamente sua essência. Entre essas duas versões, estabeleceu-se uma espécie de eixo interpretativo dentro do qual qualquer nova atriz inevitavelmente será posicionada.
Agora, Emma Corrin assumirá o papel em uma nova versão televisiva, e embora já tenha enfrentado expectativas semelhantes ao interpretar a princesa Diana em The Crown e depois uma heroína sexualmente emancipada em O Amante de Lady Chatterley, o desafio aqui é diferente, porque Lizzie não é apenas um ícone histórico ou literário, mas um ideal afetivo profundamente internalizado. Existe também a preocupação recorrente com possíveis anacronismos, especialmente em adaptações contemporâneas de Austen, mas a sensibilidade e a vulnerabilidade que Corrin demonstrou em trabalhos anteriores sugerem que há mais chances de conquistar o público do que de aliená-lo.


Jane Eyre possui um histórico semelhante, embora mais fragmentado. Joan Fontaine marcou profundamente o papel na adaptação de 1943, enfatizando a vulnerabilidade e a contenção emocional da personagem. Décadas depois, Zelah Clarke, na minissérie de 1983, conquistou leitores pela fidelidade quase literal ao texto e pela intensidade silenciosa de sua interpretação. Ruth Wilson, na versão televisiva de 2006, destacou a força moral e a inteligência de Jane sem suavizar sua austeridade, enquanto Mia Wasikowska, no filme de 2011, ofereceu uma leitura introspectiva e melancólica que dialoga com sensibilidades contemporâneas. Nenhuma dessas interpretações eliminou as outras; todas coexistem como referências possíveis, o que torna ainda mais difícil para uma nova atriz afirmar sem provocar comparações imediatas.
Aimee Lou Wood, conhecida mundialmente por Sex Education e recentemente consagrada por The White Lotus, além de participações em produções como Living e trabalhos relevantes no teatro britânico, possui características que dialogam com a imagem tradicional de Jane, uma expressividade contida, uma aparência pouco convencional para padrões hollywoodianos e uma capacidade de transmitir vulnerabilidade sem passividade. Seu desafio, no entanto, será sustentar a intensidade moral da personagem sem suavizá-la para torná-la mais palatável ao público contemporâneo, preservando a estranheza e a firmeza que fazem de Jane uma figura tão singular.

Jo March também carrega uma linhagem de intérpretes amadas que moldaram a percepção pública da personagem. Katharine Hepburn, no filme de 1933, enfatizou o temperamento rebelde e a energia quase andrógina de Jo, criando uma versão pioneira que permanece influente. June Allyson, na adaptação de 1949, tornou-se para muitos a Jo mais calorosa e acessível, enquanto Winona Ryder, em 1994, trouxe uma vulnerabilidade emocional que marcou profundamente quem cresceu nos anos noventa.
Saoirse Ronan, em 2019, destacou sua ambição intelectual e frustração diante das limitações impostas às mulheres, alinhando a personagem ao debate contemporâneo sobre autoria feminina. Maya Hawke também interpretou Jo na minissérie da BBC de 2017, uma produção mais intimista que buscou recuperar aspectos domésticos e cotidianos do romance. Cada uma dessas versões é considerada definitiva por públicos diferentes, ilustrando como Jo continua a ser reinterpretada conforme as sensibilidades de cada época.

Catherine Earnshaw de O Morro dos Ventos Uivantes apresenta um caso distinto, porque o desafio não é equilibrar simpatia e falha, mas capturar uma personalidade essencialmente indomável. Merle Oberon, no filme de 1939, ajudou a estabelecer uma imagem romântica e etérea que marcou o imaginário por décadas, enquanto Juliette Binoche, na versão de 1992, enfatizou a dimensão mais sombria e obsessiva da personagem. Outras adaptações televisivas britânicas oscilaram entre essas leituras sem nunca produzir um consenso definitivo. A próxima encarnação de Cathy será vivida por Margot Robbie, cuja escala de estrelato e presença magnética sugerem uma abordagem mais visceral e talvez mais explicitamente trágica da personagem. Sua escolha já provoca debates, porque Catherine não é tradicionalmente associada a glamour, e sim a uma intensidade quase selvagem, o que torna a transposição de uma estrela contemporânea para esse universo particularmente arriscada e fascinante ao mesmo tempo.


Anna Karenina, por sua vez, carrega o peso adicional de um romance monumental e de uma tradição cinematográfica internacional. Greta Garbo, nas versões de 1927 e 1935, cristalizou uma imagem de elegância trágica que permanece influente até hoje. Vivien Leigh trouxe uma intensidade dramática distinta na adaptação de 1948, enquanto Sophie Marceau ofereceu uma leitura mais contida e psicológica em 1997. Keira Knightley apresentou em 2012 uma Anna estilizada e performática integrada a uma encenação teatralizada que dividiu opiniões. Nenhuma dessas interpretações conseguiu encerrar o debate sobre quem Anna realmente é, a amante apaixonada, a mulher imprudente ou a vítima de uma sociedade implacável, o que faz com que cada nova versão seja recebida como uma tomada de posição moral tanto quanto artística.
Quando se observa esse histórico, torna-se evidente por que novas versões de Jane Eyre e Orgulho e Preconceito já nascem sob escrutínio. As atrizes escolhidas não competem apenas com o texto original, mas com décadas de imagens sedimentadas na memória coletiva, muitas vezes associadas a momentos pessoais de leitura ou descoberta. Mesmo antes de qualquer trailer, o público já mede o rosto, a postura e até a presença física da nova intérprete contra um mosaico de referências anteriores.

Elizabeth Bennet pode parecer espirituosa demais, doce demais ou moderna demais, dependendo de quanto se afasta da Lizzie que cada espectador internalizou. Jane Eyre, cuja força reside precisamente na recusa de agradar, corre o risco inverso de ser considerada suave demais ou inacessível demais. Em ambos os casos, a recepção inicial diz menos sobre a qualidade da atuação e mais sobre o grau de ruptura com imagens que se tornaram emocionalmente normativas.
No fundo, a resistência a novas interpretações revela menos sobre as produções e mais sobre o vínculo afetivo que essas personagens estabeleceram ao longo de dois séculos. Criticar uma nova Lizzie ou uma nova Jane é também defender a própria história de leitura e as interpretações que a acompanharam. Nenhuma atriz começa do zero, porque essas heroínas já chegam à tela carregando uma genealogia de rostos, vozes e gestos que moldaram a maneira como imaginamos quem elas são.

Talvez seja justamente essa impossibilidade de substituição que mantém essas personagens vivas. Cada nova atriz não apaga as anteriores, mas entra em diálogo com elas, ampliando o repertório de leituras possíveis. O que parece resistência pode ser também uma forma de preservação, um modo de garantir que Lizzie Bennet e Jane Eyre continuem sendo não apenas figuras literárias, mas presenças íntimas na vida de quem as leu.
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