A segunda e última parte da quarta temporada confirma algo que a série talvez sempre soube, mas raramente admitiu: o prazer de Bridgerton não está na novidade, e sim na repetição refinada. É um universo construído para oferecer a segurança de que tudo dará certo, ainda que nos faça sofrer até o último minuto como se pudesse não dar certo. É a velha escola Jane Austen filtrada pelo melodrama televisivo contemporâneo, onde a previsibilidade não é um defeito, mas um pacto com o espectador.
Desta vez, o romance de Benedict Bridgerton e Sophie Baek assume abertamente sua matriz de conto de fadas, mais especificamente uma variação de Cinderela, com direito a baile mascarado, identidade oculta, madrasta cruel e a barreira social aparentemente intransponível entre nobre e criada. A série segue o livro com relativa fidelidade estrutural, preservando os grandes marcos narrativos, mas reorganizando emoções e revelações para manter a tensão televisiva. O conflito central — a proposta de Benedict para que Sophie seja sua amante, não sua esposa — funciona menos como escândalo moral e mais como sintoma de um homem incapaz de compreender o peso social daquilo que oferece. É aqui que a narrativa contemporânea tenta atualizar o material original, deslocando o foco da “redenção” masculina para a dignidade feminina, ainda que a fantasia do amor capaz de domesticar um espírito livre permaneça visível sob a superfície.

A crítica estrangeira tem apontado cansaço na fórmula, e é possível entender por quê. Boa parte da angústia dramática nasce de mal-entendidos que poderiam ser resolvidos com uma conversa franca, um dispositivo romântico clássico que hoje soa quase artificial. Ainda assim, a série consegue transformar essa fragilidade estrutural em motor emocional, porque seus personagens existem em um mundo onde falar diretamente é, por si só, uma transgressão. O silêncio, o orgulho e a autocensura não são apenas caprichos narrativos, mas regras sociais internalizadas.
Os personagens de temporadas anteriores retornam de maneira orgânica, não apenas como fan service. Penelope agora lida com as consequências de ser Lady Whistledown em um novo estágio de vida, Colin assume uma maturidade mais tranquila, e a família Featherington funciona como contraponto cômico e afetivo ao drama principal. Violet Bridgerton, por sua vez, ganha um arco próprio ao explorar a possibilidade de um novo amor após a viuvez, algo que amplia o espectro emocional da série e reforça a ideia de que romance não pertence apenas aos jovens estreantes na sociedade. Lady Danbury continua sendo a ponte entre gerações e classes, uma estrategista social cuja presença sempre sugere que por trás das histórias de amor há também jogos de poder.
E então há a Rainha Charlotte, que mais uma vez rouba a cena com a autoridade de quem sabe que a série gira ao redor dela tanto quanto ao redor dos Bridgerton. Golda Rosheuvel construiu uma personagem singular na televisão recente: ao mesmo tempo extravagante e profundamente melancólica, cômica e intimidante, quase caricatural na superfície e dolorosamente humana quando observada de perto. Após o aprofundamento oferecido pela minissérie centrada em sua juventude, cada gesto dela carrega uma memória implícita, transformando comentários aparentemente triviais em ecos de uma vida marcada por dever, solidão e um amor que precisou sobreviver à doença e ao tempo. Nesta temporada, Charlotte funciona menos como antagonista social e mais como espectadora experiente das paixões alheias, alguém que reconhece padrões porque já viveu todos eles.

O desfecho é deliberadamente satisfatório, fechando o arco de Benedict e Sophie com a sensação de que o universo voltou ao seu eixo natural, ao mesmo tempo em que deixa portas escancaradas para o futuro. Não é um final que surpreende, mas um final que cumpre sua promessa emocional com precisão quase matemática. Sabemos que há muitos livros ainda a adaptar e muitos irmãos a casar, e a série faz questão de lembrar isso sem roubar o protagonismo do casal atual.
Se existe desgaste, ele é menos criativo do que estrutural: Bridgerton permanece fiel àquilo que sempre foi. Vestidos em tons pastéis, cenas de intimidade estilizadas, títulos honoríficos sussurrados e obstáculos artificiais resolvidos no último momento fazem parte da linguagem do programa. A pergunta não é se a série mudou, mas se o público mudou. Para quem aceita o pacto, a quarta temporada entrega exatamente o que promete: escapismo luxuoso, romance grandioso e a ilusão reconfortante de que, em um mundo rigidamente hierarquizado, o amor ainda pode reorganizar tudo.
E talvez seja justamente isso que explique sua permanência cultural. Não assistimos a Bridgerton para descobrir o que vai acontecer, mas para sentir — repetidamente — como é acreditar que vai dar certo.
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