Bridgerton seguiu em frente sem Simon, o duque de Hastings

Dois anos atrás, já havia escrito sobre o desaparecimento do duque de Hastings, quando a ausência ainda parecia um efeito colateral das mudanças de elenco e da estrutura antológica da série. Naquele momento, era possível imaginar que Simon reapareceria em ocasiões pontuais, como acontece nos livros. A quarta temporada, porém, tornou essa expectativa insustentável. Com o retorno de Jonathan Bailey e a reafirmação do núcleo familiar dos Bridgerton, ficou ainda mais evidente que não se trata de uma ausência circunstancial, mas de um apagamento definitivo. Se Anthony pode voltar, ainda que não seja mais o protagonista, por que Simon não pode sequer existir em cena?

Este texto, portanto, não revisita a mesma pergunta, mas constata uma mudança incômoda: o duque não está apenas fora de foco. Ele foi deixado para trás. Em Bridgerton, o desaparecimento do duque de Hastings nunca deixou de soar como aquilo que realmente é: uma ruptura. Na quarta temporada, diversos personagens retornam, rostos antigos reaparecem, conexões são reforçadas, a sensação de clã é restaurada, e ainda assim Simon e Daphne permanecem fora de cena, reduzidos a uma citação rápida, quase protocolar, como se fossem parentes distantes e não o casal que inaugurou o fenômeno global da série.

Isso contrasta frontalmente com os livros de Julia Quinn, nos quais o casal jamais desaparece de verdade. Eles deixam de ser protagonistas, mas continuam presentes, visitam Londres, participam de reuniões familiares, oferecem conselhos, surgem nos bastidores emocionais da história. O “felizes para sempre” ali não significa exílio narrativo. Na adaptação televisiva, ao contrário, o casamento de Daphne parece ter acontecido em outro continente, numa vida paralela que raramente toca a dos Bridgerton.

Phoebe Dynevor ainda apareceu na segunda temporada, funcionando como elo afetivo no arco de Anthony, mas depois disso foi sendo lentamente retirada do tabuleiro. Já Simon simplesmente deixou de existir em termos visuais. Não há despedida, não há conflito, não há explicação dramática. Há apenas silêncio.

Esse silêncio começa fora da ficção, no momento em que Regé-Jean Page decidiu não retornar após a primeira temporada. A escolha foi apresentada como coerente com o formato antológico da série, mas ignorava um detalhe fundamental: o duque não era apenas o protagonista daquele ano, ele era o rosto de uma fantasia coletiva num período muito específico da história recente. Em pleno auge da pandemia, quando o mundo estava isolado e faminto por escapismo, Page surgiu como uma figura quase perfeita de romantismo, elegância e sensualidade clássica. O sucesso foi imediato e avassalador. Ele virou capa de revistas, presença constante nas redes sociais, símbolo de desejo e, por um breve momento, o homem mais comentado do entretenimento global.

Foi também rapidamente apontado como possível novo James Bond, numa espécie de coro espontâneo que misturava fãs, imprensa e indústria. Parecia o início de uma ascensão meteórica, daquelas que transformam um ator em leading man definitivo de Hollywood.

E então, curiosamente, nada.

Page apareceu no filme de ação The Gray Man, da Netflix, ao lado de Ryan Gosling e Chris Evans, num papel de antagonista elegante, mas secundário e sem grande impacto cultural. Participou de Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves, produção simpática e bem recebida, mas que também não o posicionou como centro da narrativa nem como astro capaz de carregar um blockbuster sozinho. Houve ainda trabalhos pontuais, dublagens e projetos anunciados que não ganharam o mesmo impulso midiático. Em nenhum momento ele se consolidou como protagonista recorrente de grandes produções, nem como presença constante em franquias ou dramas prestigiados.

O contraste é particularmente evidente quando se observa o percurso de outros atores da própria série. Jonathan Bailey, que interpreta Anthony, tornou-se uma estrela significativa, transitando entre televisão, teatro e cinema, mas manteve vínculo com Bridgerton e retornou para participações importantes mesmo após sua temporada como protagonista. Ele fez suas cenas, cumpriu sua função dentro da lógica familiar da história, preservou a continuidade emocional do universo. Page, ao contrário, tornou-se uma ausência total, quase um fantasma elegante que todos fingem não notar.

Essa escolha acabou afetando não apenas a coerência narrativa, mas a própria atmosfera da série. O duque era o arquétipo do romance arrebatador, da fantasia sensual adulta que ajudou a definir o tom da primeira temporada. Sem ele e sem a presença física de Daphne, o passado da família parece menos tangível, como se uma parte da memória coletiva tivesse sido apagada.

Dentro da história, a explicação implícita é simples: o casal vive em Clyvedon, ocupado com os filhos e com as responsabilidades do ducado. Fora da história, porém, o motivo é mais cru e mais humano. Carreiras mudam, contratos terminam, prioridades se reorganizam, e a ficção precisa acomodar essas decisões sem admitir que perdeu uma de suas peças mais visíveis.

Talvez o aspecto mais intrigante não seja a ausência em si, mas a forma como ela permaneceu definitiva. Em uma era de participações especiais, retornos surpresa e nostalgia cuidadosamente administrada, o duque de Hastings nunca reapareceu nem por um instante, nem mesmo em momentos que pediriam sua presença por pura lógica emocional. O personagem que inaugurou o conto de fadas moderno de Bridgerton tornou-se, paradoxalmente, aquele que menos pertence ao seu próprio final feliz.

No fundo, a pergunta “cadê o duque?” não é apenas sobre um personagem, mas sobre uma promessa interrompida. A de que o rosto que simbolizou o escapismo de um mundo em crise continuaria a habitar essa fantasia. Em vez disso, ele permanece como uma lembrança do início, de um momento em que tudo parecia possível, inclusive a ascensão meteórica de um novo astro global.


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