Gorillaz transformam a perda em transcendência em The Mountain

É profundamente comovente — e também estranhamente inevitável — no fato de que, após um quarto de século reinventando a própria ideia de banda pop, o Gorillaz chegue agora a um álbum atravessado pela morte, pelo luto e por uma espécie de serenidade melancólica que Damon Albarn passou a insinuar em entrevistas há alguns anos, como se já soubesse que essa obra viria. Desde o início, o projeto criado com Jamie Hewlett foi um espaço onde Albarn podia deslocar sentimentos que não cabiam no formato tradicional do rock britânico, primeiro escapando da sombra gigantesca do Blur e depois se libertando da expectativa de repetir eternamente a persona do frontman irônico e urbano dos anos 1990. O Gorillaz nasceu como sátira à indústria e ao culto à celebridade, mas rapidamente se transformou em algo muito mais íntimo, quase um laboratório emocional em que Albarn experimenta identidades, geografias sonoras e estados de espírito que vão do hedonismo à exaustão espiritual, do comentário político à confissão velada.

A morte sempre esteve ali, às vezes disfarçada sob batidas dançantes, às vezes emergindo de forma explícita, como em “El Mañana”, com seu lamento suspenso no tempo, ou em “On Melancholy Hill”, cuja doçura quase infantil esconde um vazio existencial que só se revela quando se ouve a música como adulto, ou ainda em “Souk Eye”, talvez a canção mais abertamente triste que Albarn já escreveu sob a máscara do Gorillaz, uma despedida amorosa que soa também como uma despedida de si mesmo. Ao longo dos anos, ele falou repetidamente sobre depressão, isolamento e a sensação de deslocamento permanente que acompanha quem vive décadas sob os holofotes, mas raramente o fez de maneira literal, preferindo transformar esses sentimentos em paisagens sonoras nebulosas, povoadas por vozes convidadas e personagens animados que funcionam como escudos e espelhos ao mesmo tempo. A perda dos pais, ocorrida em um intervalo relativamente curto nos últimos anos, parece ter quebrado essa mediação, trazendo uma urgência emocional que não precisava mais se esconder atrás da ironia ou da ficção, e o gesto simbólico de espalhar as cinzas do pai no Ganges — algo que Albarn descreveu como, ao mesmo tempo, devastador e estranhamente pacificador — tornou-se a semente conceitual do novo álbum.

Em The Mountain, lançado ontem, essa experiência se traduz não em um disco sombrio no sentido tradicional, mas em uma obra contemplativa, quase espiritual, na qual a morte não aparece como ruptura violenta, e sim como continuidade, transformação e dissolução do ego, ideias que dialogam diretamente com as filosofias do sul da Ásia que Albarn encontrou durante suas viagens e residências criativas. Musicalmente, o álbum amplia a vocação global do Gorillaz ao incorporar instrumentos e estruturas melódicas inspiradas na música indiana, do Oriente Médio e da África Ocidental, mas o faz com uma delicadeza que evita o exotismo superficial, privilegiando texturas atmosféricas, drones hipnóticos e arranjos que parecem respirar em vez de simplesmente avançar. O resultado é um trabalho menos preocupado com singles imediatos e mais com a experiência de escuta contínua, como se cada faixa fosse um capítulo de uma meditação sobre finitude e memória.

Nesse contexto, “The Empty Dream Machine” emerge como um dos momentos mais devastadores e belos do disco, uma canção que soa ao mesmo tempo tecnológica e fantasmagórica, como se uma inteligência artificial estivesse tentando recriar a sensação humana de saudade e falhando por milímetros, o que a torna ainda mais dolorosa. A voz de Albarn aparece frágil, quase despersonalizada, cercada por sintetizadores que pulsarem como máquinas em repouso e por harmonias que lembram um coral distante, e a letra sugere um mundo em que os sonhos continuam sendo produzidos mesmo quando o sonhador já não está mais lá, uma metáfora transparente para a persistência da memória após a morte e também para a própria lógica do Gorillaz, uma banda virtual que sobrevive independentemente do corpo de seu criador. É difícil não ouvir essa faixa como um eco de “Every Planet We Reach Is Dead”, outra meditação sobre vazio e transcendência, mas agora filtrada por duas décadas adicionais de experiência, perdas e cansaço.

Os videoclipes e curtas que acompanham o álbum reforçam essa leitura ao apresentar os personagens animados não como caricaturas irreverentes, e sim como figuras errantes em paisagens vastas e silenciosas, atravessando desertos, montanhas e cidades fantasmagóricas que parecem existir fora do tempo histórico, enquanto a estética visual privilegia cores desbotadas e movimentos lentos, como se tudo estivesse sendo observado através de um véu. A turnê anunciada para este ano promete incorporar essa dimensão contemplativa com cenários imersivos e projeções contínuas, menos como um show tradicional e mais como uma instalação audiovisual, algo coerente com a fase atual de Albarn, que tem se aproximado cada vez mais de projetos operísticos, colaborativos e interdisciplinares.

O mais impressionante é que, em vez de soar como um epílogo, The Mountain transmite a sensação de um artista que finalmente não precisa provar nada a ninguém e, justamente por isso, pode se permitir ser vulnerável de forma radical, sem o verniz de cinismo que marcou parte da produção britpop dos anos 1990. Se o Gorillaz começou como uma crítica ao vazio da cultura pop, ele termina — ou pelo menos chega a este ponto — como uma tentativa sincera de encontrar significado dentro desse mesmo vazio, aceitando que a morte é talvez o único tema verdadeiramente universal que resta quando todas as ironias se esgotam. Para quem acompanha a trajetória de Albarn há décadas, ouvir este álbum é como assistir a um círculo se fechar com uma suavidade inesperada, não como uma conclusão definitiva, mas como a pausa profunda entre uma respiração e outra, aquele instante em que o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser presença.


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