O Top 10 mundial da última semana de fevereiro de 2026 não parece uma corrida por novidades, e sim um movimento de acomodação depois do início turbulento do ano. É como se o público tivesse decidido parar de experimentar e começado a reorganizar a própria relação com o entretenimento. Em vez de estreias chamativas, o que domina são universos já conhecidos, histórias confiáveis e formatos que funcionam como hábito.
Há também um fenômeno recorrente: quando um título realmente engata, ele reorganiza toda a plataforma ao redor. Não se trata apenas de liderança numérica, mas de gravidade. Alguns sucessos são tão dominantes que o restante do ranking parece existir apenas como satélite.

Netflix
Na Netflix, a liderança de Bridgerton entre as séries confirma que o romance escapista continua sendo um dos refúgios mais eficazes do catálogo global. A série já não depende da excitação da estreia; tornou-se um espaço recorrente de retorno, quase como revisitar um lugar emocional seguro. Logo atrás, The Night Agent mantém a lógica oposta e complementar: suspense funcional, ritmo constante, cliffhangers suficientes para transformar a narrativa em maratona automática. O Top 10 ainda mistura reality, anime e o reaparecimento inesperado de Smallville, um lembrete de que a nostalgia dos anos 2000 virou um dos combustíveis mais estáveis do streaming.
Nos filmes, o padrão é o consumo doméstico compartilhado. Animações como Kung Fu Panda 3 e Despicable Me 4 convivem com títulos mais sombrios e com a dupla The Addams Family, que funciona como franquia intergeracional — leve o suficiente para crianças, irônica o bastante para adultos.
HBO Max
A HBO Max continua demonstrando o poder de uma série com identidade forte. A Knight of the Seven Kingdoms lidera com uma autoridade silenciosa, baseada menos em espetáculo e mais em clareza narrativa e familiaridade com o universo de Westeros. É uma fantasia de escala humana, focada em personagens, que contrasta com o excesso épico de outras produções do gênero e, justamente por isso, parece mais acessível neste momento. The Pitt, logo atrás, confirma o apetite por drama adulto direto, sem distrações visuais excessivas.
Nos filmes, a presença simultânea de várias entradas da franquia 28 Days Later mostra novamente o comportamento de consumo em cadeia. O espectador não quer apenas um título isolado; quer percorrer toda a história. O streaming transforma franquias em trilhas completas, prontas para serem percorridas do início ao fim.


Disney+
O Disney+ apresenta talvez o contraste mais claro entre ação e conforto familiar. Predator: Badlands domina os filmes com grande vantagem, evidenciando como propriedades de ação continuam essenciais para mobilizar audiência global. Ao redor dele, porém, surgem animações e clássicos que sustentam o uso cotidiano da plataforma dentro das casas, de Toy Story 4 a A Bug’s Life. É o streaming como espaço compartilhado entre gerações.
Nas séries, Love Story permanece na liderança e sugere algo raro para o Disney+: um drama que gera conversa contínua. Ao mesmo tempo, títulos como Grey’s Anatomy funcionam como presença utilitária, aquilo a que se assiste sem precisar decidir, apenas para preencher o silêncio.
Prime Video
O Prime Video mantém seu perfil pragmático. Beast Games lidera as séries com a força típica dos realities competitivos de grande escala, formatos que oferecem recompensa imediata e baixa ambiguidade emocional. Suspenses como Cross e 56 Days reforçam o gosto por narrativas rápidas, enquanto Yo soy Betty la fea continua provando que novelas latino-americanas não são apenas catálogo histórico, mas motores reais de retenção.
Nos filmes, a diversidade domina o topo, com ação, romance e thrillers médios convivendo sem hierarquia clara. É um ranking que privilegia acessibilidade em vez de impacto cultural.

Paramount+
A Paramount+ segue como a plataforma mais coerente em identidade. South Park e Yellowstone lideram as séries e reforçam a fidelidade de um público adulto que retorna continuamente aos mesmos universos. Reality shows como De Férias com o Ex: América Latina coexistem sem tensão com dramas tradicionais porque ambos entregam o mesmo resultado: permanência prolongada.
Nos filmes, Mission: Impossible — The Final Reckoning domina com facilidade, cercado por títulos igualmente reconhecíveis como Mean Girls e a franquia Scream. A sensação é de território familiar, não de descoberta.
Apple TV+
A Apple TV+ continua sendo o caso mais concentrado. Hijack e Shrinking lideram as séries com números expressivos, ilustrando a estratégia da plataforma: poucos títulos, consumo intenso. Séries como Severance, Ted Lasso e The Morning Show permanecem como capital simbólico permanente, sustentando a percepção de qualidade mesmo quando não ocupam o topo absoluto.
Nos filmes, F1 e Eternity dominam amplamente, reforçando a aposta em produções-evento capazes de concentrar atenção global em vez de dispersá-la por dezenas de lançamentos menores.

No conjunto, o ranking da última semana de fevereiro não aponta para uma mudança radical de gosto, mas para algo mais sutil e talvez mais revelador: uma busca por equilíbrio emocional. O público alterna entre romance escapista, suspense eficiente, franquias conhecidas e dramas de identidade forte como quem regula a própria intensidade interna. O streaming deixa de ser apenas entretenimento e passa a funcionar como um sistema de ajuste fino do humor coletivo. Não assistimos apenas ao que está disponível. Assistimos ao que nos permite continuar.
Top 10 Miscelana
1- A Knight of The Seven Kingdoms
2- Love Story
3- The Last Thing He Told Me
4- The Beauty
5- Hijack
6- Cross
7- Eternity
8- The Pitt
9- Magnum
10- Shrinking
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