É para ficar desconfiada quando se esbarra com a perturbadora promessa de finalmente “entender” Marilyn Monroe. A cada década surge um novo documento, uma nova gravação, uma nova biografia anunciada como a chave definitiva para decifrar a mulher por trás do mito.
No ano de seu centenário, o livro de Andrew Wilson, I Wanna Be Loved By You: Marilyn Monroe — A Life in 100 Takes, reacende essa esperança — e, com ela, um desconforto difícil de ignorar. Porque o material que promete revelar Norma Jeane vem justamente do espaço onde ela deveria ter sido mais protegida: sua análise psicanalítica.

O livro não segue uma narrativa linear, mas se organiza em cem fragmentos, como tomadas de um filme. A escolha é eloquente. Marilyn aparece não como uma personalidade única, mas como uma constelação de identidades sucessivas e por vezes incompatíveis: a criança abandonada, a jovem determinada a sobreviver, a estrela fabricada pelo estúdio, a atriz que buscava legitimidade artística, a empresária pioneira, a mulher em colapso. Ao rejeitar a ideia de uma essência estável, a biografia sugere que talvez o erro sempre tenha sido procurar “a verdadeira Marilyn” como se ela pudesse existir fora das circunstâncias que a produziram.
Grande parte da força — e da controvérsia — do livro vem dos arquivos ligados ao psiquiatra Ralph Greenson, que a tratou nos últimos anos de vida. Neles surge uma mulher marcada por depressão, ansiedade, dependência de medicamentos e uma necessidade dolorosa de aprovação afetiva. Surge também uma decisão terapêutica extraordinária e altamente questionada: Greenson integrou Marilyn à própria família, numa tentativa de oferecer a estabilidade emocional que ela nunca tivera. O consultório deixou de ser um espaço neutro e tornou-se quase doméstico, como se a medicina tentasse substituir aquilo que a infância lhe negara.

Mas reduzir Marilyn a um caso clínico é tão insuficiente quanto reduzi-la a um símbolo sexual. O livro insiste em sua agência: a disciplina com que estudava atuação, a inteligência intuitiva, a consciência aguda de como era vista e utilizada por Hollywood. Antes de se tornar ícone, Norma Jeane já havia sobrevivido a abandono familiar, lares adotivos instáveis, institucionalização da mãe e exploração precoce. Nesse contexto, sua ascensão parece menos inevitável e mais extraordinária.
É nesse ponto que documentos mais íntimos — como a carta escrita durante sua internação psiquiátrica em 1961 — ganham um peso devastador. Ali não há diagnóstico nem interpretação, apenas a voz da própria Marilyn descrevendo o horror de ser colocada em uma ala para pacientes gravemente perturbados, em um ambiente que ela percebe como carcerário e desprovido de empatia. Ignorada pela equipe, decide chamar a atenção da única maneira que conhece: atuando. Quebra vidro, ameaça ferir-se, encena a “loucura” para ser vista. “Se vão me tratar como uma louca, vou agir como uma louca”, escreve. A frase soa como um resumo brutal de toda uma vida vivida sob projeções alheias.

Esse episódio revela algo que prontuários nunca conseguem capturar: a experiência subjetiva do tratamento. Nos registros médicos, trata-se de uma crise nervosa. Na carta, é abandono, medo e humilhação. Também revela a estranha fusão entre atriz e pessoa: Marilyn improvisando a própria sobrevivência como se estivesse em cena, porque talvez não conhecesse outra linguagem para ser ouvida.
Outros relatos posteriores — baseados em depoimentos da família de Greenson e popularizados por biografias e documentários — acrescentam um vocabulário ainda mais desconfortável, descrevendo-a como “paranoica”, “masoquista” ou “waif”, uma criança sem lar. Independentemente da precisão clínica, esses termos ilustram um processo recorrente: a tradução de sofrimento complexo em rótulos consumíveis. O que no consultório poderia ser uma hipótese interpretativa torna-se, na cultura popular, identidade definitiva.
Há uma ironia amarga nesse movimento. A psicanálise existe para criar um espaço de confidencialidade absoluta, onde a pessoa pode falar sem medo de exposição. Transformar esse material em narrativa pública desfaz retroativamente esse pacto. No caso de Marilyn, a violação parece ainda mais cruel porque sua vida inteira foi uma luta para separar Norma Jeane — a pessoa — de Marilyn — a construção coletiva. O consultório era, em teoria, o único lugar onde essa divisão podia desaparecer.
Publicar essas confissões significa transformar até esse refúgio em espetáculo.

O casamento com Arthur Miller, o colapso durante as filmagens de The Misfits, a dependência química, a solidão, tudo isso já fazia parte da narrativa pública. O que muda agora não são os fatos, mas a proximidade. O leitor é convidado a ocupar um lugar que antes pertencia ao analista, a escutar aquilo que nunca foi destinado ao mundo.
Talvez seja por isso que Marilyn continua parecendo tão moderna. Suas contradições antecipam as nossas: hiperexposição, cultura da celebridade, medicalização do sofrimento, solidão em meio à adoração, sexualização combinada com desprezo intelectual. Ela foi, em muitos aspectos, um protótipo da celebridade contemporânea, alguém cuja identidade privada foi gradualmente consumida pelo olhar público.
E, ainda assim, nenhuma nova biografia resolve o enigma. Cada revelação produz mais perguntas do que respostas. Quanto mais sabemos, menos ela parece apreensível. Norma Jeane continua escapando por entre as versões.

Talvez porque a questão nunca tenha sido quem foi Marilyn Monroe, mas por que precisamos tanto saber? O que fazemos com mulheres que se tornam símbolos? Até que ponto a busca por compreensão se confunde com voyeurismo? Existe uma maneira ética de narrar uma vida que foi tão intensamente explorada enquanto estava viva?
Cem anos depois de seu nascimento, continuamos olhando para Marilyn como se ela ainda estivesse diante de uma câmera invisível, esperando o próximo “corta”. Talvez porque admitir que nunca haverá um take final — que algo nela deve permanecer opaco, secreto, intocado — seja a única forma de finalmente conceder-lhe aquilo que quase nunca teve: privacidade.
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