Paul Wesley entra em The Buccaneers no momento exato em que a série parece ter abandonado qualquer tentativa de dialogar seriamente com Edith Wharton. Não se trata apenas de uma nova escalação de peso, mas de um sinal claro da direção que a história pretende seguir: menos crônica social irônica sobre americanas na aristocracia britânica e mais melodrama romântico centrado em uma protagonista permanentemente em crise.
Na terceira temporada, Wesley interpretará Frank, um estranho carismático e misterioso que surge exatamente quando Nan está isolada, vulnerável e fugindo das consequências de suas próprias decisões. A imagem final deixada pela temporada anterior é emblemática. Grávida, escondida e determinada a impedir que o filho seja transformado no herdeiro que a prenderia para sempre a um casamento político, ela opta mais uma vez pela fuga em vez do confronto. Não é exatamente um gesto de maturidade, mas de sobrevivência impulsiva, traço que a série insiste em tratar como heroísmo.

Ao longo das duas temporadas, Nan se tornou uma personagem profundamente questionável. Mimada, egocêntrica, incapaz de prever os efeitos de seus atos e constantemente protegida pela narrativa, ela cria crises que depois precisa contornar correndo, literalmente. A gravidez apenas amplia as apostas. Se sua condição vier a público, ela não apenas seria forçada a permanecer em um matrimônio de fachada, como condenaria o destino do filho a uma vida definida antes mesmo de nascer. Nesse sentido, sua fuga não é romântica, mas desesperada.
É exatamente nesse terreno que Frank entra. Ele não é parte da aristocracia, não carrega obrigações dinásticas conhecidas e não parece vinculado à disputa pelo poder de Tintagel. Tudo sugere que sua função é emocional, não política. Ou seja, ele não vem disputar o título nem o patrimônio, vem disputar o coração da protagonista e oferecer a fantasia de um caminho alternativo.
A distinção é importante porque a série também introduziu a sombra de Kit, o filho ilegítimo do pai de Theo e potencial herdeiro turbulento. Kit representa ameaça estrutural, capaz de abalar a sucessão e a estabilidade da propriedade. Frank, por outro lado, encarna o tipo de perigo íntimo que dramas históricos contemporâneos adoram explorar: o homem sedutor que surge quando tudo está desmoronando e promete liberdade, paixão ou redenção — ainda que essas promessas raramente venham sem custo.

Narrativamente, portanto, Frank tem toda a aparência de um novo interesse romântico. A equação é quase clássica. Heroína isolada, casamento inviável, gravidez secreta, identidade social suspensa e um estranho irresistível atravessando seu caminho. É menos Wharton e mais fantasia emocional em figurino de época.
Essa escolha também evidencia o quanto a adaptação se afastou do espírito do romance original, que, mesmo inacabado, observava com ironia as ambições sociais, os choques culturais e as ilusões das jovens americanas diante da aristocracia inglesa. A série prefere investir na jornada individual de Nan, transformando-a no centro moral do universo mesmo quando suas decisões produzem danos colaterais evidentes para todos ao redor.
Sem um final escrito pela autora — Wharton morreu antes de concluir o livro — a produção tem liberdade total para inventar o destino dessas personagens. A questão é que liberdade não significa necessariamente profundidade. Ao apostar na introdução de um novo romance no momento de maior vulnerabilidade da protagonista, a série parece optar por intensificar o melodrama em vez de resolver as tensões que ela própria acumulou.
No fim, a chegada de Paul Wesley não resolve as ambiguidades de The Buccaneers, mas as expõe. Frank não parece destinado a salvar Tintagel nem a restaurar qualquer ordem perdida. Ele existe para desestabilizar Nan ainda mais — e talvez para oferecer à audiência aquilo que a série se tornou: não uma adaptação fiel ou uma crítica social afiada, mas um romance turbulento onde correr continua sendo a principal estratégia narrativa.
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