Os SAG Awards — ou Actor’s Awards, como se chama agora — continuam sendo o ensaio geral mais honesto do Oscar, não porque acertem tudo, mas porque revelam o humor real de quem faz a indústria funcionar: os atores. E a cerimônia deste ano teve exatamente essa sensação de bastidor escancarado, de termômetro emocional e político ao mesmo tempo, alternando momentos inspirados, constrangedores e alguns verdadeiramente decisivos para a corrida final. O melhor de tudo? Bagunçou (em parte) os Emmys e o Oscar 2026.

A abertura foi bem conduzida, mais uma vez, por Kristen Bell, que está criando um terreno sólido para eventualmente ser considerada para apresentar o Oscar um dia. Ela sabe cantar, dançar e tem humor, mas aquele que é respeitoso com os colegas enquanto deixa para si mesma as gozações mais fortes. Exatamente como Hollywood e as emissoras/plataformas gostam também, porque é segura e não necessariamente, tediosa. Ela também evita a artificialidade frenética de outras premiações.
Em uma noite em que não houve discursos políticos, prevaleceu o clima de evento importante, um que também é a reunião de classe profissional: atores apenas com atores (e Ted Sarandos, claro).
A primeira parte da cerimônia foi centrada nos indicados da TV e das plataformas, sendo que a primeira grande interrogação da noite veio cedo demais. Melhor Atriz em Série de Drama para Keri Russell, de A Diplomata. O que aconteceu ali? As produções mais comentadas, celebradas e debatidas da temporada estavam na concorrência (Apple TV+ e HBO), e justamente a opção mais discreta — para não dizer mais fraca — e a única representante da Netflix, transmitindo o Actor’s Awards com exclusividade, levou o prêmio. Mesmo com o sucesso da série me intrigando, começar a noite com esse resultado foi estranho, quase desorientador. Dito isso, para quem chegou sem expectativas, no entanto, Russell compensou com um discurso surpreendentemente caloroso e elegante, lembrando que, independentemente das narrativas externas, ela é uma profissional sólida e respeitada.


Em Melhor Ator em Série de Comédia, a vitória de Seth Rogen foi confirmada. Se ele não levasse, seria difícil não questionar seriamente os votos. Para mim, havia um desejo nostálgico de ver Martin Short sendo novamente premiado, mas a noite era mesmo de Rogen. O que soou estranho foi a ausência de qualquer menção significativa a Catherine O’Hara, cuja presença — mesmo indireta — pairava sobre a categoria. Faria sentido logo depois.
O clima leve da festa entrou em contraste evidente quando o elenco de Frankenstein subiu ao palco. Estavam tensos, desconfortáveis, pouco à vontade, e as farpas sobre “filmes de humanos feitos por e para humanos” não ajudaram a suavizar o clima. Foi um daqueles momentos em que a mensagem pode até fazer sentido, mas o tom torna tudo constrangedor.
Em seguida, Michelle Williams venceu seu segundo SAG (Actors) Awards como Melhor Atriz em Minissérie por Dying For Sex, a coloando como a grande favorita na mesma categoria nos Emmys, em setembro.
A galera de One Battle After Another anunciou seu filme, antes de chegar um dos momentos mais emocionantes da noite: o prêmio de Melhor Atriz em Série de Comédia. Nos últimos anos tem sido sempre Jean Smart, por Hacks, mas em 2026, Catherine O’Hara, indicada pela 5ª vez, ganhou o que teria sido seu segundo SAG (Actors) Awards. Foi devastador porque ela foi indicada antes de sua morte, há poucas semanas, quando ia começar a gravar a segunda temporada de The Studio. A homenagem póstuma levou Seth Rogen, visivelmente abalado, a voltar ao palco e não conseguir esconder a emoção. A plateia e o elenco acompanharam no mesmo tom. Foi daqueles instantes raros em que uma premiação deixa de ser competição e se transforma em memorial.


Tecnicamente, a transmissão do prêmio teve escolhas estranhas. O ângulo recorrente de atores falando de cima para baixo não favorecia ninguém, criando uma sensação involuntária de distanciamento. Somado a textos longos, cheios de desvios e pouca objetividade, o resultado foi uma cerimônia que por vezes parecia se arrastar.
Em Melhor Ator em Série de Drama, Noah Wyle consolidou o domínio que vem construindo ao longo da temporada. Até aquele ponto, apenas a vitória de Keri Russell permanecia como um mistério.
The Studio levou Melhor Elenco em Comédia, confirmando seu status de favorita do momento. Ainda assim, a reação foi surpreendentemente fria, talvez porque o grupo esteja no meio das gravações da nova temporada ou todos estejam sem saber como fazer rir. O trecho de Kristen com Pluribus não encontrou o tom ideal.
Mas, em um gosto muito pessoal, a transmissão na Netflix, sem intervalos comerciais tradicionais ou comentaristas, foi uma delícia. Há algo libertador nisso: tempo para observar, para perceber detalhes, para analisar tendências, especialmente com os Emmys já no horizonte.
Em Melhor Ator em Minissérie, a vitória de Owen Cooper por Adolescence parecia inevitável. A produção já não é recente, mas ainda estava elegível e continuava sendo a força dominante da categoria.
Melhor Elenco em Série de Drama foi para The Pitt, como esperado, embora a vitória seja um pouco inflada diante da concorrência. Era uma das categorias mais disputadas da noite e talvez a mais reveladora das preferências atuais dos votantes. Eu gosto de The Pitt, mas não considero a Melhor Série Dramática superior a The White Lotus, por exemplo. Mas é a favorita para levar o segundo Emmy em setembro.
A primeira metade da noite foi claramente dominada pela televisão, sem seguir foi apenas sobre cinema. A homenagem às comédias românticas, costurada por referências a Rob Reiner, funcionou como uma pausa afetiva, lembrando um gênero que moldou gerações e hoje luta para sobreviver na indústria.

Seguindo o BAFTA, Sean Penn venceu como ator coadjuvante e, com isso, praticamente redefiniu a corrida do Oscar. De repente, ele surge como favorito em uma categoria que parecia aberta demais para qualquer previsão segura. Sim, ele está a caminho de seu terceiro Oscar.
A homenagem a Harrison Ford, que recebeu um Prêmio Honorário, foi emocionante sobretudo por causa da reação dele próprio, que misturou surpresa, humildade e gratidão genuína, algo cada vez mais raro em eventos desse porte. No entanto, as lágrimas gerais eram tão fortes que me pareciam uma espécie de despedida. Espero que não!
E a melhor notícia para mim foi ver Amy Madigan vencer como Melhor Atriz Coadjuvante. Apesar de não ser a favorita — até aqui —, o entusiasmo na sala foi palpável. Uma grande atriz finalmente tendo seu grande momento, com um discurso seguro, espirituoso e sem autopiedade. De imediato, passou a ser vista como forte candidata ao Oscar pelo filme Weapons.

O segmento In Memoriam, apresentado por Sarah Paulson com a gravação de Everytime You Go Away, por Cynthia Erivo, foi devastador. Não apenas pela qualidade da performance, mas pela sucessão de perdas — trágicas, inesperadas, históricas — que marcaram os últimos doze meses. A mensagem de paz que se seguiu, com a canção de Sinners, prolongou o impacto emocional.
E partíamos para o que considerávamos certo: Jesse Buckley confirmou uma temporada praticamente perfeita ao vencer novamente por Hamnet, consolidando-se como favorita absoluta ao Oscar. Paradoxalmente, seus discursos continuam sem brilho, nem particularmente emocionantes nem memoráveis, o que só reforça o contraste entre a força do trabalho e a discrição da persona pública.
Então veio um dos momentos decisivos da noite. Michael B. Jordan venceu Melhor Ator e a surpresa foi tão grande quanto merecida. Sinners foi um fenômeno mundial, mas havia a sensação de que outros nomes estavam mais consolidados na corrida. A câmera captou a expressão tensa na mesa de Marty Supreme, quase tão reveladora quanto a emoção genuína de Jordan no palco. Quando o filme levou também Melhor Elenco, a narrativa de Melhor Filme no Oscar deixou de parecer tão definida quanto se imaginava.

Delroy Lindo, profundamente emocionado, transformou seu agradecimento em uma homenagem espontânea à própria trajetória e à profissão. Ele se perdeu, retomou, vacilou e justamente por isso foi um dos discursos mais humanos da noite.
No final das contas, a expectativa em torno de Timothée Chalamet acabou criando um efeito colateral incômodo. A piada criada por Kristen Bell sobre o melhor jogador de pingue-pongue parecia leve antes da cerimônia, mas, sem a vitória dele como ator, soou quase cruel voltar logo depois que Sinners ainda estava no palco.
Com os resultados, a corrida agora se encaminha para 15 de março com muito menos certezas do que se supunha. No fim, os Actors (SAG) Awards de 2026 cumpriram sua função essencial: embaralhar previsões, revelar sensibilidades internas da indústria e lembrar que, quando atores votam em atores, o resultado raramente é apenas técnico. É emocional, político, afetivo e, às vezes, profundamente imprevisível. Exatamente por isso, Hollywood leva esse prêmio tão a sério.
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