Esme Lee, os Shelby e a maldição cigana que assombra Tommy

A história de Tommy Shelby sempre esteve cercada por política, violência e estratégia. No entanto, existe outra camada que atravessa toda a narrativa de Peaky Blinders e que muitas vezes passa despercebida quando olhamos apenas para o crescimento do império criminal da família. Trata-se da dimensão espiritual associada à origem cigana dos Shelby e, sobretudo, à relação deles com o clã dos Lees. É nesse universo que surge uma das personagens mais complexas da série, Esme Lee, e é também nele que a ideia da maldição da safira azul encontra sentido.

Para entender por que Esme desconfia tanto de Tommy, por que ela parece carregar uma espécie de ressentimento permanente e por que decide ajudá-lo apenas muito tarde na história, é preciso voltar ao início da relação entre as duas famílias.

Antes da Primeira Guerra Mundial, os Shelby e os Lees eram rivais violentos. Ambas as famílias pertenciam à tradição romani e disputavam território, negócios e influência dentro das comunidades itinerantes e periféricas da Inglaterra. Os confrontos eram frequentes e tinham a lógica típica de clãs que vivem segundo códigos próprios de honra e vingança.

Tommy Shelby decide encerrar essa rivalidade da maneira mais pragmática possível. Ele organiza um casamento entre seu irmão John Shelby e Esme Lee. A união não nasce de romance, mas de política familiar. Para Tommy, trata-se de uma estratégia para consolidar poder e evitar guerras desnecessárias. Para os Lees, porém, o casamento tem um significado mais profundo, porque pactos entre famílias ciganas tradicionalmente carregam também uma dimensão espiritual e simbólica.

Essa diferença de visão acompanha toda a trajetória de Esme dentro da família Shelby.

Tommy é romani de origem, mas se transformou em algo muito diferente do que o mundo cigano tradicional reconhece. Ele se tornou um homem urbano, industrial e profundamente moderno. Ele acredita em dinheiro, em estratégia e em poder político. A superstição, os rituais e as crenças aparecem em sua vida mais como ferramentas ocasionais do que como fundamentos de existência.

Para alguém como Esme, isso representa uma ruptura perigosa. No universo espiritual que a série sugere, ignorar certas forças significa desrespeitar uma ordem que não pode ser controlada apenas pela inteligência ou pela violência.

Esse distanciamento se torna ainda mais evidente depois da morte de John Shelby.

John é assassinado no início da quarta temporada durante a guerra contra a família Changretta. O responsável direto é Luca Changretta, mas para Esme a cadeia de responsabilidades é mais longa. Na visão dela, John morreu porque Tommy transformou os Shelby em algo maior e mais perigoso do que a família jamais havia sido. Ao expandir os negócios para além de Birmingham e ao entrar em conflitos com inimigos cada vez mais poderosos, Tommy expôs todos os irmãos a riscos que antes não existiam.

A morte de John rompe definitivamente o vínculo de Esme com os Shelby. Ela abandona a família e retorna à vida itinerante com o povo Lee. Esse afastamento não é apenas emocional. É também cultural e espiritual. Ao voltar para o mundo cigano, Esme retorna a um universo onde destino, presságios e maldições não são metáforas, mas parte concreta da forma de compreender a vida.

É nesse contexto que a história da safira azul ganha relevância.

Na terceira temporada, Grace Shelby morre após ser atingida por uma bala destinada a Tommy. A tragédia ocorre pouco depois de ela receber uma safira que, segundo uma mulher romani, estaria amaldiçoada. Tommy inicialmente trata o aviso como superstição, mas a coincidência entre o presente e a morte de Grace se instala em sua mente como uma culpa permanente.

Anos depois, quando Ruby Shelby adoece na sexta temporada, Tommy volta a se confrontar com a ideia de maldição. A menina apresenta sintomas misteriosos e menciona repetidamente a palavra “safira” em seus delírios. A conexão entre a pedra e a morte de duas das pessoas mais importantes de sua vida se torna impossível de ignorar.

No imaginário romani, joias e objetos podem carregar histórias acumuladas de violência, traição ou injustiça. Quando um objeto passa por diferentes donos marcados por tragédias, acredita-se que ele pode concentrar uma energia negativa que continua a se manifestar. O problema não é apenas possuir o objeto, mas o contexto em que ele foi obtido e as vidas que ele atravessou.

A série nunca explica completamente a origem da safira, mas a própria narrativa sugere que a pedra carrega uma trajetória antiga e sombria. Para alguém como Esme, que permanece inserida nesse universo simbólico, a possibilidade de uma maldição não é absurda.

A pergunta inevitável é por que ela nunca alertou Tommy antes.

A resposta está na própria personalidade dele. Tommy sempre foi um homem que escuta pouco quando acredita já ter entendido o mundo. Ao longo da série, vários personagens tentam alertá-lo sobre limites que ele não deveria ultrapassar. Ele raramente muda de curso. Para Esme, avisá-lo provavelmente não faria diferença. Em muitos aspectos, ela acredita que as tragédias fazem parte das consequências das escolhas que ele fez.

Quando Tommy finalmente volta a procurá-la na sexta temporada, o cenário já é completamente diferente. Ele perdeu Grace, perdeu Polly, perdeu Ruby e carrega um cansaço espiritual que antes não existia. Pela primeira vez, ele parece disposto a escutar algo que não seja apenas cálculo e estratégia.

Esme percebe essa mudança.

Ela continua distante e irônica, mas entende que Tommy está buscando respostas em um território que antes ele desprezava. Nesse encontro ela reforça a ideia de que certas tragédias não são aleatórias e que a vida de Tommy foi marcada por decisões que desencadearam consequências profundas.

É nesse momento que surge a revelação de Duke.

Duke é o filho que Tommy teve anos antes com uma mulher romani. O rapaz cresceu longe da família Shelby e desconhece a dimensão do império que o pai construiu. Ao apresentar Duke a Tommy, Esme não está oferecendo apenas uma informação biográfica. Ela está devolvendo a ele uma parte de si mesmo que ficou esquecida.

Duke representa a ligação direta com o mundo cigano que Tommy abandonou quando decidiu construir seu poder em Birmingham e em Londres. Ele simboliza uma linhagem que não foi moldada pelo trauma da guerra, pela industrialização ou pelo jogo político.

Ao conduzir Tommy até Duke, Esme também o confronta com a responsabilidade de reconhecer esse passado.

A relação entre eles continua tensa e ambígua. Esme não se torna uma aliada tradicional. Ela permanece como alguém que observa Tommy com uma mistura de desconfiança e conhecimento profundo. Poucas pessoas na série compreendem tão bem quem ele é e de onde ele veio.

Existe uma ironia persistente em toda essa história.

Tommy Shelby passou a vida tentando controlar o mundo com inteligência, violência e planejamento. No entanto, algumas das forças que mais moldam sua trajetória pertencem justamente ao universo que ele sempre tratou como superstição. Amor, perda, culpa e destino atravessam sua história de maneiras que nenhuma estratégia consegue antecipar.

Esme Lee permanece ligada a esse mundo. Ela não perdoa Tommy completamente, mas também não o abandona à própria sorte. Em vez disso, ela funciona como uma espécie de ponte entre dois universos que ele nunca conseguiu reconciliar.

Talvez por isso a história da safira azul nunca desapareça completamente da narrativa. Ela não é apenas um objeto associado a duas mortes trágicas. Ela simboliza o momento em que Tommy Shelby percebe que algumas coisas não podem ser dominadas.

Algumas apenas cobram o preço.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário