Targaryens: heróis ou vilões? O dilema do filme A Conquista de Aegon

A pergunta que paira agora sobre o universo de A Song of Ice and Fire é simples e desconfortável: os Targaryen são heróis ou vilões? À medida que a franquia criada por George R. R. Martin continua a se expandir, com séries, peças de teatro e agora um possível filme sobre a Conquista de Westeros, essa pergunta se torna cada vez mais inevitável.

Durante muito tempo, os Targaryen foram apenas uma presença histórica na narrativa principal de Game of Thrones. A série começou com o mundo ainda marcado pela queda da dinastia, décadas antes dos eventos centrais da história. Restavam apenas alguns sobreviventes, como Daenerys Targaryen e Viserys Targaryen, figuras quase exiladas que carregavam o peso de um passado imperial. O centro do poder estava disperso entre várias casas, entre elas House Stark, House Lannister, House Bolton e House Frey. Essa multiplicidade de forças era justamente o que conferia ao universo sua complexidade moral, já que o conflito não estava concentrado em um único antagonista.

Havia conspiradores como Cersei Lannister, sádicos como Ramsay Bolton, fanáticos religiosos como Melisandre e ameaças quase mitológicas como o Night King. A força da história estava nessa pluralidade de conflitos e na sensação constante de que o poder circulava entre interesses divergentes.

Hoje, porém, o universo expandido parece cada vez mais concentrado em uma única família.

A franquia tem retornado repetidamente aos Targaryen. House of the Dragon mergulhou na guerra civil da dinastia dois séculos antes da série original. A Knight of the Seven Kingdoms se passa um século depois desse conflito, ainda sob domínio Targaryen. Uma peça teatral intitulada Game of Thrones: The Mad King promete explorar o reinado caótico de Aerys II Targaryen. Paralelamente, discute-se um possível filme sobre a conquista de Westeros por Aegon I Targaryen.

É justamente nesse ponto que surge uma tensão narrativa interessante. Em termos históricos dentro do universo de Martin, a chamada Conquista de Aegon nunca foi exatamente uma epopeia heroica. Ela foi, essencialmente, uma invasão.

Aegon chega de Dragonstone com três armas de destruição em massa, os dragões Balerion, Vhagar e Meraxes, e exige que os reis de Westeros se submetam ao seu domínio. Quando alguns recusam, ele simplesmente destrói castelos e exércitos até que se rendam. Episódios como o Field of Fire deixam claro que não se trata de uma disputa equilibrada entre forças equivalentes, mas de uma demonstração de supremacia tecnológica, ou talvez seja mais correto dizer supremacia dracônica.

Nesse sentido, a narrativa tradicional da Conquista sempre me pareceu menos um mito fundador heroico e mais algo muito próximo de imperialismo militar.

As adaptações audiovisuais recentes, porém, introduziram uma nova camada nessa história.

Em House of the Dragon surge a ideia de que Aegon teria tido uma visão profética sobre a ameaça que viria do Norte, os Caminhantes Brancos, e que a unificação de Westeros seria necessária para enfrentá-los. Essa profecia, transmitida secretamente entre os reis Targaryen, transforma a conquista em algo mais próximo de uma missão histórica.

A ideia é sedutora, mas também convenientemente simplificadora.

Se a conquista foi motivada por uma profecia salvadora, o ato deixa de ser apenas uma expansão imperial e passa a se apresentar como um gesto de responsabilidade histórica. A destruição de exércitos e castelos se transforma, nesse enquadramento, em um preço trágico, porém necessário, para salvar o continente.

Não surpreende que muita gente veja essa explicação com certa desconfiança.

A pergunta que surge naturalmente é se essa camada profética faz parte da concepção original de Martin ou se ela representa uma elaboração posterior da adaptação televisiva conduzida por Ryan Condal.

Até agora, nos livros, não existe qualquer evidência clara de que a Conquista tenha sido motivada por uma visão sobre os Caminhantes Brancos. Em Fire & Blood e em The World of Ice & Fire, Aegon conquista Westeros por razões muito mais tradicionais, ligadas a ambição, estratégia e poder. É Rhaegar que se torna obcecado por profecias e a do PrÍncipe Prometido.

A profecia de House of the Dragon, parece, portanto, uma interpretação posterior que funciona muito bem para a televisão, pois transforma conquistadores em guardiões.

Esse movimento dialoga com um problema mais amplo que alguns críticos já apontaram, o risco de a franquia acabar transformando os Targaryen em protagonistas heroicos de uma história que originalmente não era centrada neles.

A crítica de que o universo de Westeros está começando a se concentrar demais nessa família lembra um fenômeno semelhante ao que aconteceu em Star Wars. Quando um elemento específico se torna extremamente popular, como o conflito entre Jedi e Sith, surge uma tendência de repetir essa fórmula até que todo o universo narrativo passe a girar em torno dela.

No caso de Westeros, os dragões e os Targaryen parecem ocupar exatamente esse lugar.

Mas o que sempre distinguiu a obra de Martin foi outra coisa.

O autor costumava repetir uma ideia simples, segundo a qual o vilão é apenas o herói visto do outro lado da história. Essa frase resume de forma bastante precisa a ética narrativa de Westeros.

Quase ninguém se percebe como vilão. Cada personagem acredita estar defendendo sua família, sua honra ou aquilo que entende como seu direito. É por isso que figuras tão diferentes conseguem coexistir dentro da mesma narrativa. Cersei acredita proteger seus filhos, Ramsay acredita exercer poder e Daenerys acredita libertar o mundo.

O público, por sua vez, tende a se identificar com quem move a história.

E poucos personagens moveram tanto a história quanto Daenerys.

Durante anos, a paixão dos fãs por Daenerys Targaryen foi quase tão poderosa quanto seus dragões. Muitos nunca aceitaram plenamente o final de Game of Thrones, no qual ela destrói Porto Real e acaba morta por Jon Snow. Para uma parte significativa do público, aquele desfecho parecia trair a trajetória da heroína libertadora.

A série, no entanto, também sugeria algo mais complexo.

Daenerys acreditava profundamente em três ideias centrais: direito de nascimento, destino histórico e força como instrumento de justiça. Quando essas três ideias se combinam com dragões, o resultado pode se manifestar tanto como libertação quanto como tirania.

Jon Snow representa quase o oposto dessa lógica. Ele não acredita em direito divino e nunca desejou governar. Talvez seja justamente por isso que muitos personagens passam a vê-lo como uma alternativa moral.

Essa tensão entre governar por destino ou governar por responsabilidade atravessa toda a obra de Martin.

Talvez seja também por esse motivo que uma série como A Knight of the Seven Kingdoms produza uma reação tão curiosa no público. Ao contrário de House of the Dragon, ali ninguém parece particularmente encantado com os Targaryen. Personagens como Baelor Targaryen podem até ser virtuosos, mas ainda fazem parte de uma dinastia que governa com base em sangue e herança. Figuras como Ser Lyonel Baratheon, por sua vez, não demonstram qualquer reverência automática à família real.

Essa perspectiva nos leva de volta à pergunta inicial.

O que significa torcer pelos “maus”?

A identificação com personagens moralmente ambíguos não representa um erro de leitura do público. Pelo contrário. Personagens como Daenerys, Cersei ou Daemon fascinam justamente porque possuem convicção, ambição e capacidade de ação. São personagens que realmente mudam o curso da história.

Isso torna ainda mais interessante a perspectiva de um filme sobre a Conquista de Aegon.

No fim das contas, a história de Aegon pode ser contada de duas maneiras muito diferentes. Ela pode ser narrada como o nascimento de um reino ou como o momento em que um conquistador estrangeiro chegou com três dragões e transformou um continente inteiro em seu império.

Dependendo de quem conta a história, Aegon pode surgir como herói ou como invasor.

Talvez seja exatamente isso que Martin sempre quis sugerir ao insistir que, em Westeros, o vilão é apenas o herói visto do outro lado da guerra.


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