De Ingrid Bergman a Timothée Chalamet: quando o Oscar se decide fora da tela

Há poucos anos, o cinema parecia antecipar com precisão quase desconfortável um debate que hoje domina as temporadas de premiações. Em Tár, dirigido por Todd Field, acompanhamos a derrocada de Lydia Tár, uma maestrina brilhante cuja reputação começa a ruir quando denúncias, rumores, mensagens antigas e relações de poder mal explicadas passam a circular ao seu redor.

Durante boa parte da temporada de premiações de 2023, o filme parecia destinado a levar Cate Blanchett ao terceiro Oscar de sua carreira. A atriz venceu o BAFTA e o Critics’ Choice e era amplamente considerada favorita. No entanto, quando a Academia finalmente votou, o prêmio de melhor atriz foi para Michelle Yeoh por Everything Everywhere All at Once. Não por nenhum escândalo envolvendo Cate, mas porque a campanha por Michelle veio na febre do sucesso do filme naquele ano.

Ainda assim, mais do que um retrato do mundo da música clássica, Tár tornou-se uma reflexão perturbadora sobre reputação, poder e narrativa pública. O filme examina com precisão quase clínica como acusações, denúncias, ressentimentos, meias-verdades e estratégias de exposição podem se misturar até formar algo maior do que qualquer fato isolado. A queda de Lydia Tár não acontece por causa de um único evento, mas por uma sucessão de episódios que, combinados, corroem a imagem cuidadosamente construída de uma artista que acreditava controlar completamente a própria narrativa.

É difícil não lembrar dessa história ao observar as discussões recentes em torno de Timothée Chalamet durante a atual temporada de premiações. O debate que surgiu em torno do ator não envolve um escândalo comparável aos episódios mais turbulentos da história de Hollywood. O que aparece, em vez disso, é algo mais sutil e cada vez mais característico da era das redes sociais: a maneira como a percepção pública sobre um candidato pode mudar rapidamente, alterando o clima de uma corrida que parecia relativamente definida.

Essa pergunta acompanha o Oscar há muito mais tempo do que se imagina. Até que ponto o prêmio consagra apenas o talento que aparece na tela, e até que ponto ele reflete a narrativa que se constrói ao redor de um artista nas semanas finais da campanha?

A Academia sempre foi apresentada como o espaço onde o cinema celebra suas maiores conquistas artísticas. A atuação mais marcante, o filme mais poderoso, o trabalho que melhor capturou o espírito de um determinado ano. No entanto, qualquer observador atento da história do prêmio sabe que essa narrativa é apenas parcialmente verdadeira. Em muitas temporadas, o Oscar acaba sendo decidido longe das câmeras, quando reputações, entrevistas, controvérsias públicas e erros de estratégia começam a interferir no clima da votação.

Um dos primeiros exemplos claros dessa dinâmica remonta ao escândalo envolvendo Ingrid Bergman e o diretor Roberto Rossellini no final dos anos 1940. Quando o relacionamento entre os dois veio a público, Bergman ainda era casada com outro homem e rapidamente se tornou alvo de uma reação moral intensa nos Estados Unidos. O caso ganhou dimensão política quando a atriz foi denunciada em discurso no Senado americano, onde chegou a ser apresentada como símbolo da decadência moral do cinema.

O impacto sobre sua carreira foi imediato. Bergman praticamente desapareceu de Hollywood por alguns anos e passou a trabalhar principalmente na Europa. Embora tenha retornado posteriormente e conquistado novos Oscars, o episódio permanece como um dos primeiros grandes exemplos de como a vida pessoal de uma estrela podia alterar profundamente sua relação com a indústria.

Décadas depois, o mecanismo mudou de forma, mas não de essência. Em vez de escândalos morais capazes de afastar artistas de Hollywood por anos, surgiram crises que se desenrolam dentro da própria temporada de premiações e que podem transformar completamente a narrativa de uma corrida.

Um dos casos mais citados envolve Eddie Murphy. Em 2007, sua atuação em Dreamgirls havia sido amplamente celebrada e ele era considerado favorito ao Oscar de ator coadjuvante. No entanto, durante a própria campanha de premiação, Murphy lançou a comédia Norbit. O filme foi duramente criticado e rapidamente passou a dominar a conversa em Hollywood. O contraste entre o drama elogiado e a comédia mal recebida mudou o clima da corrida. No fim, o prêmio foi para Alan Arkin por Little Miss Sunshine.

Algo semelhante aconteceu com Mickey Rourke. Após vencer o Golden Globe e o BAFTA por The Wrestler, ele chegou ao Oscar como favorito. No entanto, entrevistas turbulentas e comentários controversos durante a campanha começaram a gerar desconforto dentro da indústria. A corrida mudou de direção e o prêmio acabou ficando com Sean Penn por Milk.

Outro episódio frequentemente lembrado envolve Russell Crowe. Depois de vencer o Oscar por Gladiator, ele voltou à disputa como forte candidato por A Beautiful Mind. Durante a temporada de premiações, um episódio de confronto verbal em um hotel após o BAFTA ganhou repercussão na imprensa de entretenimento e muitos analistas acreditam que isso afetou o clima da votação. O Oscar acabou indo para Denzel Washington por Training Day.

Nos anos mais recentes, a dinâmica tornou-se ainda mais volátil. As redes sociais passaram a amplificar discussões que antes circulavam apenas dentro da indústria.

A indicação de Andrea Riseborough por To Leslie em 2023 tornou-se um exemplo claro dessa nova realidade. A atriz conseguiu uma nomeação surpreendente após uma campanha intensa conduzida por colegas atores nas redes sociais, como Gwyneth Paltrow. Com isso, a narrativa ganhou uma vertente de que sua indicação “custou” a vaga que parecia ir para Viola Davis ou Danielle Deadwyler.  Logo após o anúncio da indicação, surgiram acusações de lobby agressivo e possíveis violações das regras da Academia, o que levou a instituição a abrir uma investigação sobre o caso. Nada foi encontrado, mas involuntariamente anulou as chances de efetivamente ser considerada para o prêmio final.

Situação diferente, mas igualmente reveladora, envolveu Karla Sofía Gascón durante a campanha de Emilia Pérez. O entusiasmo inicial em torno da atriz foi abalado quando postagens antigas nas redes sociais começaram a circular amplamente, alterando o tom da conversa pública durante a temporada de premiações. Ela não conseguiu encontrar o tom arrependido na resposta esperada dela e basicamente foi isolada nos eventos para não interferir nas chances das colegas indicadas ou até mesmo o filme.

Observados em conjunto, esses episódios revelam algo que Tár capturou com uma lucidez quase premonitória. A reputação de uma artista raramente se desfaz por um único evento. Ela se fragiliza aos poucos, quando diferentes narrativas começam a disputar o mesmo espaço público.

O Oscar continua sendo apresentado como a celebração máxima do talento no cinema. Na prática, porém, ele também reflete reputações, percepções e histórias que se formam muito além da tela.

E é justamente por isso que, em muitas corridas, o prêmio acaba sendo decidido não apenas pelo que os artistas fizeram diante da câmera, mas pela narrativa que passou a definir quem eles são naquele momento.


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