No ano em que teremos mais uma versão de Orgulho e Preconceito no ar, desta vez com Emma Corrin no papel de Lizzie, a estreia da série The Other Bennet Sister, que chega no dia 15 de março na Inglaterra pela BBC, surge como uma alternativa curiosa e deliciosa de voltar ao universo de Jane Austen sem necessariamente recontar a mesma história. Ou, pelo menos, não exatamente.
Entre as muitas personagens que orbitam Pride and Prejudice, poucas parecem tão esquecidas quanto Mary Bennet.
No romance original, publicado em 1813, Mary ocupa uma posição curiosa na narrativa. Está sempre presente nas cenas familiares, mas raramente é realmente vista. Não possui a beleza tranquila de Jane, nem o brilho irônico de Elizabeth, tampouco a energia impulsiva de Lydia ou a leveza social que Kitty acaba adquirindo ao longo da história. Mary aparece frequentemente como a irmã pedante, moralista e um pouco deslocada, sempre pronta a citar máximas de livros de conduta e tocar piano com uma dedicação que nem sempre corresponde ao talento.
Essa figura periférica finalmente ganha protagonismo em The Other Bennet Sister, romance de Janice Hadlow que serve de base para a adaptação televisiva. A nova série parte de uma pergunta simples, mas extremamente instigante para quem conhece o universo de Austen: o que aconteceu com Mary Bennet depois do final feliz de suas irmãs.


O que acontece com Mary depois de Orgulho e Preconceito
A história começa justamente onde Pride and Prejudice termina. Jane está casada com Bingley, Elizabeth com Darcy, Lydia com Wickham e Kitty passa longos períodos visitando as irmãs casadas, adquirindo maneiras mais refinadas. Mary permanece em casa com os pais em Longbourn. Na prática, ela é a única Bennet que ficou para trás.
Esse ponto de partida revela algo que o romance de Austen apenas sugeria. Mary cresceu em uma família em que beleza, charme e inteligência social eram moedas extremamente valorizadas. Desde cedo foi comparada às irmãs e aprendeu que não possuía os atributos que garantiam atenção ou admiração. Ao longo do tempo construiu uma identidade baseada naquilo que acreditava ser sua única vantagem possível: a virtude. Mary lê tratados morais, cita autores edificantes e tenta construir uma superioridade ética que funcione como compensação para aquilo que lhe falta.
No romance original essa postura muitas vezes aparece como elemento cômico. Elizabeth Bennet demonstra pouca paciência com as intervenções da irmã. Quando Mary tenta transformar situações delicadas em lições morais, Elizabeth percebe imediatamente o descompasso entre teoria e realidade. Em encontros sociais, como o famoso baile de Netherfield, o entusiasmo de Mary ao tocar piano além do esperado provoca constrangimento nas irmãs, e Elizabeth precisa intervir para interromper a apresentação.
A dinâmica entre as duas nunca é hostil, mas tampouco é particularmente próxima. Elizabeth a enxerga sobretudo como a irmã pedante, alguém cuja visão do mundo parece excessivamente rígida e pouco prática.
É justamente essa lacuna emocional que a releitura contemporânea decide explorar.

A viagem que muda o destino de Mary
A primeira transformação real em sua vida ocorre quando Mary deixa temporariamente Longbourn para visitar os Gardiner, os tios sensatos que também desempenham papel importante na história de Elizabeth.
Longe da dinâmica familiar que sempre a posicionou como a irmã sem graça, Mary começa a perceber que outras pessoas podem vê-la de maneira diferente. Sua inteligência deixa de parecer pedantismo e passa a ser percebida como curiosidade intelectual. Sua reserva, antes interpretada como rigidez moral, começa a ser lida como reflexão.
Esse deslocamento marca o início de uma jornada de autoconhecimento. Ao entrar em contato com novos ambientes e personagens, Mary começa a questionar muitas das ideias que moldaram sua visão de mundo.
Os livros de conduta que ela admirava apresentavam a vida em termos simples de virtude e erro. A experiência real revela algo muito mais complexo. As pessoas são contraditórias, movidas por circunstâncias e emoções que raramente cabem em julgamentos morais automáticos.
Ao mesmo tempo Mary começa a compreender que sua postura moralista funcionava também como uma forma de proteção emocional. Em uma casa onde suas irmãs eram constantemente admiradas, ela construiu uma identidade baseada na ideia de que, se não podia competir em beleza ou charme, poderia ao menos reivindicar superioridade ética.

Os dois homens que disputam o coração de Mary
É nesse contexto de transformação que surge também o arco romântico da história.
O primeiro pretendente importante é Mr. Hayward, um jovem clérigo respeitável e profundamente religioso. Em muitos aspectos ele parece, à primeira vista, o par ideal para Mary. Intelectual, moralista e disciplinado, ele admira nela exatamente aquilo que ela sempre acreditou ser sua maior qualidade: a virtude.
Hayward se apaixona pela versão de Mary que ela construiu ao longo dos anos, a jovem devota que cita livros de conduta e enxerga o mundo através de regras morais bastante claras. Para Mary, a atenção dele representa algo quase inédito. Durante muito tempo ela acreditou que jamais despertaria interesse romântico.

Mas à medida que a narrativa avança, torna-se evidente que esse romance repousa sobre uma imagem que começa a deixar de existir. Hayward valoriza justamente as características que Mary está aprendendo a questionar.
É nesse ponto que surge o verdadeiro contraponto romântico da história, Mr. Ryder.
Ryder pertence a um universo social um pouco diferente daquele em que Mary cresceu. Ele não se impressiona com discursos morais nem com demonstrações de virtude formal. Ao observá-la com atenção, percebe algo que os outros raramente notaram. Inteligência genuína, sensibilidade e uma capacidade real de reflexão.
Enquanto Hayward representa o caminho previsível que Mary sempre imaginou para sua vida, Ryder simboliza a possibilidade de uma existência mais autêntica.

A escolha que define quem Mary realmente é
A tensão romântica do livro nasce justamente desse contraste. Mary precisa perceber que o homem que parece mais adequado para ela no início da história é, na verdade, aquele que a manteria presa à identidade que ela construiu por insegurança.
Quando finalmente recusa Hayward, essa decisão representa mais do que uma escolha amorosa. É o momento em que Mary reconhece quem está se tornando.
Seu relacionamento com Ryder no final da narrativa não é apresentado como uma paixão arrebatadora nos moldes tradicionais. Surge como algo mais maduro e equilibrado, baseado em reconhecimento mútuo.
Ao mesmo tempo, sua relação com Elizabeth também começa a mudar. Lizzie passa a perceber qualidades que antes lhe escapavam. A irmã que parecia apenas pedante revela agora uma perspectiva própria sobre o mundo. Mary, por sua vez, abandona a necessidade constante de citar livros de conduta e passa a falar com mais autenticidade sobre suas próprias experiências.

Por que Mary Bennet talvez seja a personagem mais moderna de Austen
Ao final da história Mary emerge como uma figura muito mais equilibrada emocionalmente. Não é a heroína mais brilhante do universo de Austen, mas torna-se algo talvez mais raro. Uma mulher que finalmente aprendeu a se compreender.
Ao contar a história da irmã esquecida, The Other Bennet Sister revela algo curioso sobre o próprio mundo criado por Jane Austen. Nem todas as mulheres daquela sociedade eram heroínas espirituosas como Elizabeth Bennet. Muitas eram simplesmente figuras discretas tentando encontrar um lugar em um sistema que valorizava atributos específicos de beleza, charme e casamento.

Talvez por isso Mary Bennet seja, no fim das contas, uma das personagens mais modernas desse universo. Sua jornada não é a de uma jovem que conquista o amor perfeito e resolve todos os conflitos sociais. É a de alguém que finalmente aprende a se ver. E depois de mais de dois séculos vivendo nas margens de uma das histórias mais famosas da literatura, isso talvez seja a maior revolução possível.
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