Kaulo e Zelda em Peaky Blinders: quem é a cigana ligada ao passado de Tommy Shelby

Entre as novidades narrativas de Peaky Blinders: The Immortal Man, uma personagem em particular parece surgir quase como uma aparição do passado. Interpretada por Rebecca Ferguson, ela aparece ligada ao mundo cigano que sempre acompanhou a história de Tommy Shelby, mas que raramente foi explorado com profundidade ao longo da série. A personagem se chama Kaulo Chirklo e sua presença abre uma nova camada da mitologia familiar dos Shelby ao revelar uma figura até então apenas sugerida: Zelda, a mulher romani que teve um filho com Tommy antes da Primeira Guerra Mundial.

A distinção entre Kaulo e Zelda é fundamental para entender essa parte da narrativa. Kaulo é a personagem que aparece no presente da história. Zelda pertence ao passado. As duas são irmãs e fazem parte da mesma comunidade romani itinerante que atravessa o universo social da série desde a primeira temporada. É nesse ambiente que Tommy teve um relacionamento com Zelda ainda muito jovem, antes de partir para a guerra em 1914.

Dessa relação nasceu Erasmus “Duke” Shelby.

Durante anos, Duke cresceu fora do universo da família Shelby. Enquanto Tommy construía seu império criminal em Birmingham e depois se envolvia cada vez mais com política, guerra e poder econômico, o menino crescia dentro de comunidades romani que viviam à margem das cidades industriais. Zelda criou o filho longe daquele mundo e longe do próprio Tommy.

A morte dela muda esse equilíbrio.

Quando Zelda morre, Duke continua sendo criado dentro da comunidade cigana, cercado por pessoas que conheciam sua origem e sua história. Esse detalhe ajuda a explicar algo que na série sempre pareceu misterioso: como Esme Shelby conseguiu encontrar Duke e por que ela parecia conhecer tão bem o passado do rapaz quando o apresenta a Tommy na sexta temporada.

Esme pertence exatamente a esse mesmo universo romani. Depois da morte de John Shelby, ela abandona Birmingham e retorna à vida itinerante. É nesse contexto que ela permanece conectada às histórias, aos laços familiares e aos segredos que Tommy deixou para trás. Duke não era um estranho para aquele mundo.

A entrada de Kaulo no filme amplia ainda mais essa dimensão.

Como irmã de Zelda, Kaulo conhece diretamente o passado de Tommy. Ela também conhece a história de Duke desde antes de ele entrar no mundo dos Shelby. Sua posição dentro da narrativa não é apenas familiar, mas também simbólica. A personagem surge ligada à dimensão espiritual da tradição romani que a série frequentemente menciona, mas raramente desenvolve por completo.

Desde as primeiras temporadas, Peaky Blinders sugere que Tommy Shelby vive dividido entre dois mundos. De um lado está o universo industrial e moderno de Birmingham, onde dinheiro, política e violência estruturam o poder. Do outro está a herança cigana que aparece em rituais, presságios e histórias de maldição que atravessam gerações.

Kaulo pertence claramente a esse segundo universo.

Sua presença na narrativa funciona quase como um lembrete de que Tommy nunca conseguiu romper totalmente com suas origens. Ao longo da série ele se distancia cada vez mais das tradições romani, tratando-as muitas vezes como superstição ou folclore. Ainda assim, é justamente esse mundo que volta a aparecer nos momentos mais decisivos de sua vida.

Foi assim com os presságios que cercaram Ruby.
Foi assim com a história da safira azul.
E é assim novamente quando o passado de Zelda retorna através de Kaulo.

A personagem também reforça um elemento importante para a história de Duke. O jovem sempre foi apresentado como alguém diferente dos outros Shelby. Ele cresceu fora da estrutura familiar dominada por Tommy e por seus irmãos. Sua formação ocorreu em um ambiente muito mais próximo da tradição romani do que da lógica empresarial e violenta que marcou Birmingham nas décadas seguintes à guerra.

Isso significa que Duke carrega uma identidade que Tommy, de certa forma, abandonou.

Ao trazer Kaulo para a narrativa, o filme também recupera essa parte esquecida da história dos Shelby. Ela funciona como uma ponte entre o passado e o presente, entre Zelda e Duke, entre o mundo cigano e o império que Tommy construiu longe dele.

Existe também uma dimensão simbólica nessa escolha narrativa. Zelda, a mulher que teve um filho com Tommy antes da guerra, pertence a um momento da vida em que ele ainda não havia se transformado no homem que domina Birmingham. Kaulo, sua irmã, surge anos depois para confrontá-lo com essa memória.

A presença dela torna impossível ignorar que parte da história de Tommy Shelby sempre existiu fora do controle que ele tenta exercer sobre o mundo.

E talvez seja justamente por isso que Duke se torna tão importante no final dessa trajetória. Ele não representa apenas um novo herdeiro para o nome Shelby. Ele representa a ligação com um passado que Tommy passou a vida tentando deixar para trás, mas que continua voltando, como se estivesse sempre à espera de ser reconhecido.


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