O Rei e Eu completa 70 anos: o clássico entre palco e cinema

Quando O Rei e Eu estreou em 1956, Hollywood já trabalhava com uma narrativa que havia atravessado várias camadas de reinvenção. No centro da história está Anna Leonowens, professora que viveu na corte de Mongkut, também conhecido como Rama IV, monarca do antigo Siam, entre 1862 e 1867.

Depois de deixar o país, Leonowens publicou memórias sobre sua experiência educando os filhos do rei. Esses relatos se tornaram extremamente populares no mundo anglófono, ainda que historiadores apontem que várias passagens foram exageradas ou mesmo inventadas. Mesmo assim, sua versão da história capturou o imaginário ocidental e abriu caminho para adaptações literárias e teatrais.

Em 1944, a escritora Margaret Landon publicou o romance Anna and the King of Siam, inspirado nesses relatos. O livro rapidamente chegou ao cinema em Anna and the King of Siam, estrelado por Rex Harrison e Irene Dunne. Mas seria a versão musical que transformaria definitivamente essa história em um fenômeno cultural.

O sucesso no teatro

O musical The King and I estreou na Broadway em 29 de março de 1951 no St. James Theatre, com música de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II.

A produção foi criada especialmente para a atriz Gertrude Lawrence, que interpretava Anna, enquanto Yul Brynner dava vida ao rei Mongkut. A peça foi um sucesso imediato e permaneceu em cartaz por 1.246 apresentações, vencendo o Tony Award de melhor musical.

A interpretação de Brynner foi um dos grandes motores desse triunfo. Sua presença física, sua voz grave e a escolha visual de raspar a cabeça criaram um personagem inesquecível que rapidamente se tornaria inseparável da obra.

A chegada ao cinema

A adaptação cinematográfica veio cinco anos depois, dirigida por Walter Lang e produzida pela 20th Century Fox.

O estúdio considerou várias atrizes para interpretar Anna. Entre os nomes discutidos estavam Dinah Shore e Maureen O’Hara, ambas cantoras. No entanto, o compositor Richard Rodgers acabou rejeitando essas opções e o papel ficou com Deborah Kerr.

Como Kerr não era cantora, suas músicas foram gravadas pela soprano Marni Nixon, que se tornaria famosa em Hollywood por dublar vozes em musicais.

Yul Brynner retornou ao papel do rei que já havia interpretado no palco, criando uma rara continuidade entre teatro e cinema. Sua atuação lhe renderia o Oscar de melhor ator.

Rita Moreno e a força de Tuptim

Entre os personagens mais marcantes do filme está Tuptim, interpretada por Rita Moreno. Na história, ela é uma jovem concubina birmanesa que se apaixona por Lun Tha e tenta escapar da vida no palácio, criando um dos núcleos dramáticos mais intensos do filme.

Moreno, que anos depois ganharia o Oscar por West Side Story, sempre recordou esse período como um momento em que Hollywood a escalava frequentemente para papéis “étnicos”. Ela mesma descreveu a situação dizendo que se tornara a “go-to ethnic” da indústria naquele período.

Mesmo assim, sua presença no filme é fundamental. Tuptim protagoniza o famoso balé “The Small House of Uncle Thomas”, uma sequência visualmente elaborada que adapta a narrativa de Uncle Tom’s Cabin em forma de dança tradicional. O número se tornou um dos momentos mais ambiciosos do filme.

Hoje, Moreno também representa uma ponte viva com esse clássico: ela é a única atriz creditada do elenco que ainda está viva.

As gravações e os bastidores

A produção de O Rei e Eu foi monumental. O filme utilizou o formato experimental CinemaScope 55, criado pela Fox para ampliar ainda mais a experiência visual do musical.

Os figurinos desenhados por Irene Sharaff eram particularmente complexos. Os vestidos de Deborah Kerr podiam pesar até 40 libras devido às armações e camadas de tecido. Sob as luzes intensas do estúdio, a atriz perdeu mais de cinco quilos durante as filmagens.

A gravação das músicas exigiu igualmente um trabalho minucioso. Marni Nixon acompanhou Kerr durante semanas, observando suas expressões faciais e ritmo de fala para reproduzir nas gravações a mesma cadência da interpretação.

Entre as canções mais famosas estão “Getting to Know You”, “Hello Young Lovers”, “Something Wonderful”, “A Puzzlement” e “Shall We Dance?”, cuja sequência de dança entre Anna e o rei se tornou uma das cenas mais icônicas da história do musical.

Prêmios e sucesso

O filme estreou em 1956 e rapidamente se tornou um grande sucesso de crítica e público.

No 29th Academy Awards, recebeu nove indicações e venceu cinco prêmios, incluindo melhor ator para Yul Brynner, figurino, direção de arte, trilha musical e som.

Deborah Kerr também foi indicada ao Oscar de melhor atriz, enquanto o filme venceu o Globo de Ouro de melhor musical ou comédia.

Além dos prêmios, o longa tornou-se um dos grandes sucessos de bilheteria do ano.

A obra vista hoje

Com o passar do tempo, O Rei e Eu passou a ser analisado também à luz de questões que eram pouco discutidas em 1956.

A representação da cultura siamesa, o olhar ocidental sobre o Oriente e as liberdades tomadas com a figura histórica de Mongkut provocaram críticas importantes. A própria Tailândia proibiu o filme por considerar que ele apresenta uma visão distorcida da monarquia.

Essas discussões não diminuem a importância cultural da obra, mas ajudam a reposicioná-la. Hoje, o filme pode ser visto simultaneamente como uma obra-prima do musical clássico e como um exemplo das tensões culturais presentes na Hollywood do século 20.

Sete décadas depois…

Setenta anos após sua estreia, O Rei e Eu continua ocupando um lugar singular na história do cinema.

A obra atravessou literatura, teatro e cinema, acumulando novas interpretações e ampliando seu impacto cultural a cada adaptação. Ao mesmo tempo, tornou-se um exemplo de como os grandes espetáculos de Hollywood podiam transformar histórias complexas em narrativas românticas e visualmente deslumbrantes.

Celebrar seus 70 anos é reconhecer essa dupla natureza. O filme permanece um marco do musical clássico e um retrato de seu tempo. Ao revê-lo hoje, admiramos seu espetáculo, sua música e suas performances, mas também refletimos sobre as histórias que ele escolheu contar e sobre aquelas que ficaram fora da cena.


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