João Carlos Martins abre a temporada da Bachiana com clássicos do cinema

Como publicado na Revista Bravo!

A relação entre cinema e música é tão antiga quanto a própria história das imagens em movimento. Muito antes de o cinema falar, ele já cantava. Nas salas de exibição do início do século 20, pianistas e pequenas orquestras acompanhavam as projeções e ajudavam a construir aquilo que hoje reconhecemos como uma das forças mais poderosas da narrativa audiovisual: a emoção guiada pela música.

Mais de um século depois, muitas dessas trilhas tornaram-se parte da memória coletiva. Algumas poucas notas são suficientes para que o público reconheça um herói, um romance ou um momento de suspense. Não por acaso, concertos dedicados à música do cinema continuam atraindo plateias que muitas vezes descobrem, por meio dessas melodias, o universo da música de concerto.

É justamente essa ponte entre tradição sinfônica e cultura popular que marca a abertura da temporada 2026 da Bachiana Filarmônica SESI-SP. No dia 10 de março, no Teatro Bradesco, em São Paulo, a orquestra sobe ao palco sob a batuta de João Carlos Martins com um programa dedicado a clássicos das telas.

O repertório percorre diferentes décadas do cinema, reunindo temas como Gonna Fly, de Bill Conti, para Rocky, James Bond Theme, de Monty Norman, e The Pink Panther, de Henry Mancini, além do tango Por una Cabeza, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, eternizado em Perfume de Mulher.

A cantora Anna Akisue participa do concerto interpretando sucessos associados a grandes produções do cinema, como I Will Always Love You, na versão celebrizada por Whitney Houston em O Guarda-Costas, e My Heart Will Go On, tema de Titanic. No final da apresentação, o maestro-assistente Roberto Tibiriçá Yokota assume a regência para que João Carlos Martins se sente ao piano e interprete temas de compositores fundamentais do cinema contemporâneo, como John Williams, Alan Silvestri e Ennio Morricone.

Às vésperas do concerto, conversamos com o maestro sobre a importância das trilhas sonoras, os compositores que transformaram a música de cinema e o papel desses repertórios na aproximação do público com a música de concerto.

⁠BRAVO: O concerto reúne trilhas que marcaram gerações. Existe alguma música de cinema que tenha sido particularmente importante na sua vida ou na sua formação musical?

Martins: Sobre o ponto de vista melódico, a trilha sonora que até hoje emociona este velho maestro, sem dúvida alguma, é a trilha de E o Vento Levou, que eu vejo com uma profunda emoção e me entrego totalmente à concepção orquestral da obra. E fazemos essa trilha com um arranjo espetacular feito pelo nosso orquestrador José Antônio de Almeida.

⁠BRAVO: Entre os grandes compositores do cinema — como John Williams, Ennio Morricone, Henry Mancini ou James Horner — quais você considera mais revolucionários para a música orquestral e por quê?
Martins: O mais revolucionário para a música orquestral, sem dúvida alguma, é John Williams. E sobre o ponto de vista melódico, na minha opinião, sem dúvida alguma, Ennio Morricone.

BRAVO: Muitas trilhas sonoras funcionam quase como sinfonias contemporâneas. O que muda quando essas músicas saem da tela e passam a ser executadas em um concerto?
Martins: É da maior importância o respeito dos músicos chamados de eruditos, eu detesto essa palavra, mas músicos clássicos, o respeito que eles possam ter por trilhas sonoras e compositores que se dedicam à música de cinema, porque a música de cinema não é nada fácil, porque tem que combinar a parte musical com a parte cênica e, geralmente, o compositor tem que observar perfeitamente o que se passa na tela para também idealizar o que ele pode compor. E a composição e a parte cênica tem que ter uma integração completa.

⁠BRAVO: O cinema sempre teve uma relação muito forte com a emoção do público. Na sua opinião, o que torna uma trilha sonora realmente inesquecível?
Martins: Eu prefiro dar um exemplo que facilita a compreensão de todo mundo. Pegamos, por exemplo, E o Vento Levou. Se, por acaso, o beijo do Clark Gable na Vivien Leigh, se esse beijo não tiver uma trilha sonora, certamente esse beijo perde 90% da força. Basta isso para mostrar o que eu penso.

⁠BRAVO: Concertos como este aproximam muita gente da música clássica pela primeira vez. Você acredita que o repertório do cinema pode ser uma porta de entrada para novos públicos na música de concerto?
Martins: Evidentemente. Muito boa pergunta, porque só existe um tipo de música que é a música de bom gosto. E às vezes uma pessoa acaba se familiarizando com a música clássica por causa de uma música de bom gosto no cinema. E temos muitos exemplos de filmes que usam música clássica para compor o seu roteiro. Por exemplo, o Poderoso Chefão e várias outras. Mas aí é a biografia, claro, Amadeus, quantas vezes a música clássica ajuda a pessoa a entender uma trilha sonora? E quantas vezes a música de uma trilha sonora traz um ouvinte para esse fantástico universo da música clássica? Muitas vezes a música clássica ajuda a pessoa a entender um filme. E muitas vezes a música clássica traz um ouvinte para esse fantástico universo da música clássica. É a música clássica que ajuda a gente a entender o que é uma música clássica.


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