Timothée Chalamet está errado sobre ópera, balé e o futuro do cinema

Nos últimos dias, uma frase de Timothée Chalamet provocou uma pequena tempestade cultural, justamente na reta final de uma temporada que parecia caminhar para lhe dar o primeiro Oscar de Melhor Ator. Uma entrevista sua, falando sobre o futuro das salas de cinema, voltou a circular, e viralizar, de tal forma que hoje ele está em todas as redes sociais, revistas, canais de YouTube e TikTok como uma espécie de persona non grata: um jovem arrogante que, para muitos, não mereceria aquilo que tanto quer, o reconhecimento da Academia de Hollywood.

Tudo porque o ator comentou que não gostaria de trabalhar em uma arte que precisasse ser “mantida viva mesmo que ninguém mais se importe”, citando como exemplo o balé e a ópera. Não foi a primeira vez que ele usou esse argumento. Em entrevistas anteriores, já havia mencionado a ópera como referência de uma arte em decadência. Desta vez, porém, mesmo sendo filho e irmão de ex-bailarinas, incluiu também o balé nessa comparação. E mexeu com os brios de muita gente, meus inclusive, que sou apaixonada por balé, ópera e cinema.

A metáfora pretendia soar como um alerta sobre o risco de o cinema perder centralidade cultural.

Mas como errou na jogada.

Ainda assim, é possível compreender o ponto de partida da fala de Timothee. Desde o avanço do streaming, a indústria cinematográfica vive uma ansiedade permanente. A pergunta que ronda Hollywood é simples e desconfortável: e se o cinema deixar de ser a principal forma de entretenimento popular?

O medo não é absurdo. É justamente isso que ele parecia tentar argumentar. A história da cultura está cheia de exemplos de artes que mudaram de posição no ecossistema cultural ao longo do tempo. No século 19, a ópera era entretenimento de massa. Estreias de compositores como Giuseppe Verdi ou Giacomo Puccini mobilizavam multidões. Hoje a arte operística continua vibrante, mas ocupa um espaço diferente, mais institucional e especializado.

Ainda assim, a metáfora de Timothée Chalamet falha, e falha por várias razões.

Primeiro porque parte de um equívoco factual. A ideia de que “ninguém se importa” com ópera ou balé simplesmente não corresponde à realidade. Basta olhar para o que acontece em teatros ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, quando o Theatro Municipal do Rio de Janeiro abre a venda de ingressos para uma temporada de balé ou ópera, os bilhetes frequentemente se esgotam em poucas horas, especialmente quando os preços são populares. E isso na chamada “terra do samba”.

O mesmo acontece em casas históricas como o Teatro alla Scala, o Royal Opera House e o Metropolitan Opera House. Não se trata de falta de público, mas de escala. Um teatro comporta alguns milhares de espectadores. Um filme pode alcançar milhões.

A metáfora falha também por um problema mais profundo: ela compara artes que funcionam de maneiras completamente diferentes.

Ópera e balé são artes essencialmente vivas. Cada apresentação é única. Uma obra criada no século 19 pode ganhar novas interpretações a cada noite, dependendo dos artistas em cena. Um mesmo balé pode emocionar de forma distinta com diferentes intérpretes, diferentes companhias e diferentes leituras coreográficas.

Tomemos como exemplo O Lago dos Cisnes. Criado em 1877, o balé continua sendo montado no mundo inteiro. Mas nenhuma apresentação é igual à outra. A interpretação de Odette muda com cada bailarina, com cada companhia, com cada geração.

O mesmo vale para a ópera. Uma produção de La Traviata nunca é exatamente a mesma, mesmo quando o libreto e a partitura permanecem intactos. Mudam a direção, a interpretação dos cantores e o ritmo dramático da obra. Os cenários podem ser tradicionais ou contemporâneos, mas a obra continua sendo recriada a cada apresentação.

Essa capacidade de transformação é justamente o oposto de uma arte “morta”.

Curiosamente, ao construir sua metáfora, Chalamet deixou de fora uma arte que poderia ter sido citada pelo mesmo raciocínio: o teatro. Peças de Shakespeare, escritas há mais de quatro séculos, continuam sendo encenadas no mundo inteiro. Nem por isso alguém sugere que o teatro seja uma forma artística da qual “ninguém mais se importa”. Pelo contrário: sua vitalidade reside justamente na possibilidade infinita de novas interpretações.

Há ainda uma ironia adicional nessa comparação. O cinema funciona, por definição, de maneira diferente. Um filme é uma obra fixa. Depois de finalizado, ele não muda. O público vê sempre a mesma versão. O que se transforma ao longo do tempo é a recepção, não a obra em si.

Isso não diminui o cinema como arte. Mas mostra que a comparação com artes performáticas é estruturalmente equivocada.

A metáfora infeliz de Chalamet tem ainda outra camada de complexidade. Ao falar de artes que viveriam de repertório antigo, ele parece ignorar que o cinema contemporâneo, especialmente Hollywood, depende cada vez mais de propriedades intelectuais pré-existentes: franquias, remakes, sequências e reboots. Basta lembrar que o próprio ator estrelou recentemente grandes produções baseadas em material anterior, como Duna e Wonka.

Se existe hoje uma indústria cultural particularmente dependente do passado, essa indústria talvez seja justamente Hollywood.

A ameaça que paira sobre o cinema não vem da repetição de repertório, mas da mudança de hábitos de consumo. Pela primeira vez em sua história, a sétima arte enfrenta a possibilidade de perder seu espaço original de exibição. O deslocamento das salas de projeção para as salas de estar, impulsionado pelo streaming, coloca em xeque o modelo que sustentou o cinema durante mais de um século.

Ópera e balé, por outro lado, dependem justamente daquilo que o cinema pode perder: o encontro físico entre artistas e público. Essas artes exigem teatros, orquestras, corpos em movimento, vozes projetadas no espaço. Elas não podem ser plenamente substituídas por uma tela doméstica.

Isso não significa que ópera e balé estejam livres de desafios. Como muitas tradições artísticas antigas, essas formas de arte carregam questões herdadas do contexto histórico em que surgiram. Durante muito tempo, foram criticadas por falta de diversidade racial, social e estética, e por refletirem padrões culturais do passado.

Mas mesmo esses limites vêm sendo enfrentados. Companhias de dança e casas de ópera em todo o mundo têm buscado ampliar a diversidade de seus elencos, revisar repertórios e incorporar novas narrativas. Coreógrafos contemporâneos reinterpretam obras clássicas, diretores de ópera deslocam histórias para contextos modernos e artistas de origens diversas ocupam espaços que antes lhes eram negados.

Em outras palavras, essas artes continuam evoluindo.

Talvez o equívoco da metáfora de Timothée Chalamet esteja menos em sua intenção e mais em sua simplificação. O ator tentou expressar uma ansiedade legítima sobre o futuro do cinema. Mas, ao fazê-lo, recorreu a uma imagem que revela mais sobre o imaginário contemporâneo do que sobre a realidade dessas outras formas de arte.

Ópera e balé continuam existindo não por nostalgia, mas porque ainda emocionam. Porque ainda encontram público. Porque ainda se reinventam.

Se existe hoje uma arte ameaçada de perder o seu espaço original, essa arte talvez seja o cinema.

Mas se a pergunta é se alguém ainda se importa com ópera ou balé, a resposta continua sendo simples.

#eumeimporto


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