O que o Oscar premia em Melhor Som e quem lidera a disputa em 2026

Como publicado na Revista Bravo!

O rugido de um motor, o silêncio que antecede um susto ou o eco de um corredor vazio. Muitas vezes o público sente o impacto dessas escolhas sem perceber exatamente de onde ele vem. É nesse território invisível — onde técnica e emoção se encontram — que trabalha a categoria de Melhor Som do Oscar.

Pode-se argumentar que, à medida que o cinema mudou — e com ele a maneira como consumimos histórias —, a categoria de Melhor Som se tornou uma das mais significativas do Oscar. Em uma era de experiências audiovisuais cada vez mais imersivas, o desenho sonoro é parte fundamental da narrativa. Ainda assim, o prêmio continua sendo tratado como uma área “técnica”, muitas vezes ignorada nas discussões centrais da temporada.

Desde 2021, a Academia decidiu simplificar a estrutura do prêmio. Durante décadas, havia duas categorias distintas: Edição de Som e Mixagem de Som. A primeira reconhecia a criação e seleção de efeitos sonoros, enquanto a segunda premiava o equilíbrio final entre todos os elementos de áudio de um filme. A reforma da categoria unificou essas áreas em um único prêmio, Best Sound, que hoje reconhece o conjunto completo do trabalho sonoro.

Na prática, isso significa que a estatueta celebra um processo extremamente complexo. O som de um filme começa com a captação durante as filmagens, passa pela recriação de ruídos em estúdio — o chamado foley, responsável por reproduzir passos, movimentos de roupas ou objetos —, inclui a criação de efeitos digitais e culmina na mixagem final, quando diálogos, trilha musical e efeitos são equilibrados para formar uma experiência auditiva coerente.

É justamente esse processo que transforma o som em uma ferramenta narrativa poderosa. O público muitas vezes percebe o impacto sem necessariamente identificar o motivo. O rugido de um motor, o silêncio que antecede um susto ou o eco de um corredor vazio são escolhas dramáticas tão importantes quanto uma atuação ou um movimento de câmera.

A lista de indicados ao Oscar de 2026 mostra como essa dimensão sonora se tornou central para diferentes tipos de cinema. Entre os concorrentes estão F1, Frankenstein, One Battle After Another, Sinners e Sirât, cinco filmes que exploram o som de maneiras bastante distintas.

Quando se observa essa lista de finalistas, fica claro que os filmes mais dependentes da dimensão sonora tendem a ter vantagem. É o caso de F1, produção ambientada no universo da Fórmula 1. Filmes sobre velocidade e máquinas sempre tiveram força na categoria, porque exigem um design sonoro altamente elaborado. O som de um carro de corrida, por exemplo, raramente corresponde apenas ao que foi captado no set. Ele costuma ser reconstruído em camadas, combinando gravações reais, manipulação digital e mixagem precisa para transmitir potência e sensação de velocidade. É exatamente esse tipo de engenharia sonora que frequentemente impressiona os votantes da Academia.

Logo atrás aparece Sinners, thriller dirigido por Ryan Coogler que acumulou um número expressivo de indicações nesta temporada. Diferentemente de F1, cuja força está no impacto físico do som, o filme constrói sua atmosfera por meio de tensão, silêncio e ambientes sonoros mais psicológicos. Nesse caso, o trabalho sonoro funciona quase como uma extensão do suspense, ampliando a sensação de ameaça que percorre a narrativa.

Outro competidor relevante é One Battle After Another, filme que mistura escala épica e drama humano e cuja construção sonora depende tanto de sequências grandiosas quanto de momentos mais intimistas. Esse tipo de equilíbrio costuma agradar aos votantes da Academia, que frequentemente valorizam trabalhos capazes de combinar impacto técnico e sofisticação narrativa.

Os outros dois indicados, Frankenstein e Sirât, aparecem nas previsões como possíveis surpresas. O primeiro aposta no potencial atmosférico de uma história clássica de horror, gênero que tradicionalmente valoriza o uso expressivo do som para criar suspense e inquietação. Já Sirât se destaca por uma abordagem mais sensorial e experimental, explorando paisagens sonoras que ajudam a construir o universo do filme.

Se há uma tendência histórica na categoria, ela é relativamente clara. O Oscar costuma favorecer produções em que o som é imediatamente perceptível como espetáculo. Filmes de ação, guerra, ficção científica ou corrida frequentemente levam vantagem. Ainda assim, a Academia também ocasionalmente premia trabalhos mais atmosféricos, quando o desenho sonoro se torna essencial para a identidade do filme.

Mais do que um prêmio técnico, portanto, Melhor Som revela como o cinema é, antes de tudo, uma experiência sensorial. Muito do que sentimos em uma sala escura não vem apenas da imagem projetada na tela, mas do universo sonoro que a envolve. É justamente essa arquitetura invisível — construída por engenheiros, designers e mixers — que o Oscar tenta reconhecer quando entrega essa estatueta.

Entre os cinco indicados deste ano, uma curiosidade ajuda a entender como a Academia costuma pensar essa categoria. O Oscar de Som raramente é entregue a um único profissional. Na prática, ele premia equipes inteiras que trabalham juntas durante meses — às vezes anos — desenvolvendo uma identidade sonora para o filme. E, quando se observam os nomes indicados em 2026, fica claro que a corrida mistura veteranos já premiados e novos talentos.

O caso mais impressionante talvez seja o de Frankenstein, dirigido por Guillermo del Toro. O filme chega à premiação com uma equipe que reúne nada menos que quatro vencedores do Oscar: Greg Chapman, Nathan Robitaille, Nelson Ferreira e Christian Cooke. Todos eles fizeram parte do time responsável pelo som de Dune, vencedor da categoria em 2023. Essa espécie de “reunião” da equipe de Dune ajuda a explicar por que muitos analistas da temporada veem Frankenstein como um competidor tecnicamente muito forte. O trabalho de som no filme aposta em criar uma atmosfera física para a criatura e para o mundo gótico imaginado por Del Toro.

Outro candidato poderoso é F1, produção dirigida por Joseph Kosinski que mergulha no universo da Fórmula 1. Aqui o desafio é outro: transformar velocidade em experiência sensorial. A equipe indicada reúne nomes experientes como Gary A. Rizzo, vencedor de dois Oscars por Inception e Dunkirk, e Gwendolyn Yates Whittle, que também venceu por Inception. O restante do time — Gareth John, Al Nelson e Juan Peralta — contribui para um trabalho que tenta reproduzir a intensidade das corridas, recriando motores, circuitos e multidões com um nível quase documental de precisão.

Em Sinners, o som assume um papel mais atmosférico. A equipe inclui dois vencedores do Oscar: Benjamin Burtt, premiado por WALL-E e uma verdadeira lenda do design sonoro moderno, e Steve Boeddeker, vencedor por All Is Lost. Ao lado deles estão Chris Welcker, Felipe Pacheco e Brandon Proctor. O filme combina realismo histórico com elementos mais estilizados, criando uma paisagem sonora que mistura silêncio, tensão e momentos de grande impacto dramático.

One Battle After Another, chega à categoria com uma equipe formada por José Antonio García, Christopher Scarabosio e Tony Villaflor. Nenhum deles venceu o Oscar até agora, mas todos têm carreira consolidada no cinema americano. O trabalho de som aqui é mais discreto, voltado para a construção de tensão narrativa em um thriller político que depende mais de atmosfera do que de espetáculo técnico.

Por fim, Sirât representa o lado mais internacional da categoria. O filme é assinado por Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas, três profissionais que ainda não ganharam o Oscar, mas que vêm sendo elogiadas no circuito de festivais pelo desenho sonoro sensorial e minimalista do longa. Em vez de grandes efeitos ou momentos explosivos, o som em Sirât aposta em silêncio, textura e espaço. A indicação de Sirāt traz ainda um detalhe simbólico porque é uma equipe de som formada exclusivamente por mulheres em uma área da indústria historicamente dominada por profissionais homens e na qual as vitórias femininas ainda são raras.

Se a história recente da categoria serve de guia, o Oscar de Som costuma favorecer filmes em que o trabalho sonoro se transforma em espetáculo físico. Nos últimos anos, a Academia premiou produções em que o público literalmente sente o som na sala de cinema — motores rugindo, aviões cortando o ar ou paisagens sonoras monumentais que dominam a experiência sensorial do filme.

Nesse sentido, F1 parece se encaixar perfeitamente nessa tradição recente da premiação. Filmes sobre velocidade e máquinas sempre tiveram vantagem na categoria justamente porque exigem um desenho sonoro extremamente complexo, capaz de transformar movimento em impacto acústico.

Ainda assim, a presença de equipes experientes em concorrentes como Frankenstein e Sinners mostra que a disputa pode não ser tão previsível quanto parece. No fim das contas, a categoria de Melhor Som continua revelando algo essencial sobre o cinema: muitas vezes, aquilo que mais sentimos em uma sala escura não vem apenas da imagem projetada na tela, mas do universo sonoro que a envolve. É essa arquitetura invisível — construída por engenheiros, designers e mixers — que o Oscar tenta reconhecer quando entrega essa estatueta.


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