Oscar 2026: entre veteranos e novas vozes, a corrida musical da Academia

Como publicado na Revista Bravo!

A temporada do Oscar costuma ser dominada por debates sobre atuações e diretores, mas há uma categoria que, silenciosamente, revela muito sobre o momento do cinema: a música. As indicações de Melhor Trilha Sonora Original e de Melhor Canção Original no Oscar 2026 formam um retrato curioso da indústria. De um lado, compositores já consagrados na Academia; de outro, artistas que chegam pela primeira vez ao palco da premiação depois de anos influenciando o som do cinema contemporâneo.

Entre os indicados deste ano estão nomes como Ludwig Göransson, Alexandre Desplat, Jonny Greenwood, Jerskin Fendrix e Max Richter. Cada um representa uma fase diferente da história recente da música de cinema.



Fendrix é provavelmente o nome menos conhecido da lista. Antes de chegar ao Oscar, construiu carreira na cena musical britânica experimental e chamou atenção no cinema ao colaborar com o diretor Yorgos Lanthimos em Poor Things. Sua indicação agora marca a chegada de uma nova geração de compositores que vêm do indie, da eletrônica e da música contemporânea para o cinema.

O caso mais emblemático talvez seja o de Göransson. O compositor sueco tornou-se um dos nomes centrais da última década em Hollywood e já venceu duas vezes o Oscar de trilha sonora. A primeira foi com Pantera Negra, em 2019, uma trilha celebrada pela maneira como incorporou ritmos e instrumentos africanos à tradição sinfônica de Hollywood. A segunda veio poucos anos depois com Oppenheimer, cuja música baseada em violino solista e texturas eletrônicas se tornou um dos elementos mais memoráveis do filme.

Esse histórico ajuda a explicar por que muitos analistas apontam Göransson como favorito novamente, agora com a trilha de Pecadores. A Academia costuma valorizar compositores que entram em uma espécie de fase dominante, algo que já aconteceu em outros momentos com figuras como Alan Menken, durante o auge das trilhas da Disney, ou o próprio Alexandre Desplat.

Se em 2026 Göransson representa o compositor em plena consolidação, o veterano Alexandre Desplat simboliza o oposto: ele é praticamente uma presença permanente nas premiações. O francês, que também já venceu duas vezes o Oscar — por O Grande Hotel Budapeste e A Forma da Água, acumula mais de uma década como figura constante na categoria. Sua indicação este ano por Frankenstein reafirma essa posição.

Para os fãs de indie rock, outro nome recorrente na corrida é o de Jonny Greenwood, conhecido mundialmente como guitarrista do Radiohead. Nos últimos quinze anos ele se consolidou como um dos compositores mais inovadores do cinema. Suas trilhas para filmes de diretores como Paul Thomas Anderson redefiniram o uso de cordas e texturas experimentais na narrativa cinematográfica. Suas composições raramente são “fáceis” ou guiadas por melodias marcantes, e, apesar de duas indicações anteriores, Greenwood ainda não venceu um Oscar, um detalhe que frequentemente alimenta a expectativa de que a Academia eventualmente reconheça sua contribuição.

Entre os indicados, porém, há também uma presença que muitos consideram um reconhecimento tardio: Max Richter. Se eu tivesse voto, ele seria minha escolha por Hamnet.

Max Richter e a indicação que demorou anos para acontecer

Durante muito tempo, Max Richter parecia um daqueles compositores cuja influência era maior do que seu reconhecimento em premiações. Alemão criado no Reino Unido, ele construiu carreira no território da música clássica contemporânea, misturando minimalismo, eletrônica e escrita orquestral.

Seu trabalho se tornou conhecido muito antes de qualquer indicação ao Oscar. Peças como “On the Nature of Daylight” passaram a aparecer em diversos filmes e séries, enquanto projetos ambiciosos como o álbum Sleep — uma composição de oito horas pensada para ser ouvida durante o sono — transformaram seu nome em referência dentro da música contemporânea.

No audiovisual, Richter já havia marcado presença em produções importantes como The Leftovers, cuja trilha minimalista se tornou parte essencial da identidade emocional da série, além de filmes como Mary Queen of Scots e Ad Astra.

Mesmo assim, sua entrada oficial na corrida do Oscar só acontece agora, com a trilha de Hamnet. Para muitos observadores da indústria, a indicação funciona quase como um gesto de reconhecimento por uma carreira que já influenciou profundamente o som do cinema contemporâneo.

O problema? A cena mais marcante do filme utiliza justamente “On the Nature of Daylight”, composição anterior de Richter. Os puristas podem argumentar que a música não foi criada originalmente para Hamnet e que já teve impacto semelhante em filmes como A Ilha do Medo e A Chegada.

Gostaria muito de ver o reconhecimento de Richter ou de Greenwood na noite do Oscar, mas eles não aparecem entre os favoritos.

A outra disputa: as canções originais

Se a categoria de trilha costuma refletir o estado da música de cinema, a de Melhor Canção Original revela outra dinâmica: a mistura entre cinema, indústria musical e cultura pop. Como inclui apresentações ao vivo, essa categoria costuma render alguns dos momentos mais memoráveis da cerimônia. E, desde já, polêmicos.

É que, “por questão de tempo” — e porque “temos uma categoria nova (a de Melhor Elenco)” —, a Academia elegeu apenas duas das cinco indicadas de 2026 para serem apresentadas ao vivo no palco, confirmando que a disputa real está entre elas: Golden e I Lied to You. Segundo os produtores, as demais serão apresentadas “por meio de um pacote personalizado, construído a partir de imagens do filme para o qual [a canção] foi escrita, ancorando firmemente a música em seu propósito cinematográfico”.

A decisão deixou Diane Warren, presença recorrente na festa em sua 17ª indicação, irritada. “É injusto comigo e com meus colegas indicados”, disse ela. “Coloquem todas as canções. Ou somos todos ou ninguém — e é assim que deveria ser. Vocês deveriam ser justos com todos os artistas.” Diane nunca venceu competitivamente, embora tenha recebido um Oscar honorário em reconhecimento à sua carreira alguns anos atrás, e é um dos nomes mais fortes da música americana das últimas décadas.

O “corte” significa que tampouco veremos no palco Nick Cave e Bryce Dessner, da banda The National, cuja colaboração para Train Dreams marca a primeira indicação de ambos na premiação. Nem mesmo alguém interpretando a operística Sweet Dreams of Joy, composta por Nicholas Pike para o documentário Viva Verdi!. A música foi escrita originalmente em 2017, mas conseguiu entrar na lista final depois que se comprovou que esta versão foi criada especificamente para o filme.

Com essa decisão estratégica, o Oscar confirma que a corrida parece concentrada em Golden, do filme KPop Demon Hunters — que já venceu o Grammy —, e I Lied to You, do filme Pecadores. Em particular, este número musical contará com diversos convidados, incluindo a bailarina Misty Copeland, indicando que a produção pretende recriar no palco a cena mais impressionante do filme.

Vale lembrar que I Lied to You é muito mais do que apenas um número musical em Pecadores. A canção funciona como o centro simbólico da história e ajuda a explicar vários dos temas do roteiro, mostrando o blues como raiz espiritual e cultural da música negra americana e conectando passado, presente e futuro em uma única sequência. Será, provavelmente, um dos grandes momentos da noite.

Ainda assim, com o Grammy no bolso, será difícil bater a febre global do K-pop.

Um retrato do momento do cinema

Observadas em conjunto, as indicações musicais do Oscar 2026 revelam um momento de transição interessante em Hollywood. Compositores como Göransson dividem espaço com veteranos como Desplat e com artistas vindos de outros universos musicais, como Greenwood e Richter. Algo que também se reflete entre os indicados de Melhor Canção.

É um equilíbrio que diz muito sobre o cinema atual. A música de filmes continua profundamente ligada à tradição sinfônica que definiu Hollywood no século 20, mas cada vez mais incorpora influências vindas do minimalismo, da música eletrônica, do indie e até do pop global.

Em outras palavras, a corrida musical do Oscar deste ano não é apenas uma disputa entre trilhas e canções. É também um pequeno retrato da transformação sonora do próprio cinema.


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