Hoje é noite do Oscar 2026 e se você acha que está em clima de Copa do Mundo – de novo – não está errado. E nem sempre foi assim.
De jantar discreto a ritual anual do cinema
Hoje parece impossível imaginar o calendário cultural sem a cerimônia do Oscar. Durante algumas horas, uma premiação de cinema domina a conversa mundial, mobiliza fãs, provoca debates acalorados nas redes sociais e gera manchetes que atravessam fusos horários. No entanto, essa centralidade não existiu desde o início. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas criou o prêmio em 1929 como um evento pequeno, quase íntimo, pensado mais como celebração corporativa da indústria do que como espetáculo público.
A primeira cerimônia ocorreu em 1929, no Hollywood Roosevelt Hotel, em Los Angeles, diante de cerca de 270 convidados. Não havia suspense, porque os vencedores já eram conhecidos. A noite durou pouco mais de quinze minutos. O Oscar, naquele momento, não era o ápice de uma temporada cinematográfica nem uma obsessão cultural. Era apenas um jantar elegante que reunia produtores, atores e diretores para celebrar o crescimento do cinema americano.
Durante as décadas seguintes, o prêmio foi ganhando importância dentro da indústria, mas ainda estava longe de ser um evento global. A transformação decisiva viria apenas nos anos 1950, quando uma nova tecnologia mudou a relação do público com as celebridades e com os grandes acontecimentos culturais.

A televisão transforma o Oscar em espetáculo
O ponto de virada ocorreu em 1953, quando a cerimônia passou a ser transmitida pela televisão nos Estados Unidos. A partir daquele momento, o Oscar deixou de ser uma celebração privada de Hollywood e se transformou em um espetáculo nacional. Pela primeira vez, milhões de espectadores podiam acompanhar ao vivo os discursos, as surpresas e os momentos de emoção.
A televisão introduziu um elemento fundamental para a narrativa da premiação: o suspense. Diferentemente dos primeiros anos, em que os vencedores eram anunciados antes da festa, a transmissão ao vivo criou uma dramaturgia própria. O Oscar passou a ser construído como um grande show anual, com roteiro, ritmo e expectativa crescente.
Nas décadas seguintes, a expansão das transmissões internacionais consolidou a dimensão global da premiação. À medida que Hollywood se tornava o centro simbólico da indústria cinematográfica mundial, o Oscar assumia o papel de sua vitrine mais prestigiosa. A cerimônia não premiava apenas filmes; ela definia narrativas culturais, consolidava carreiras e transformava atores em mitos.



O auge televisivo do Oscar
Entre os anos 1970 e o final dos anos 1990, o Oscar viveu o que muitos consideram seu auge cultural. A cerimônia era um dos programas mais assistidos da televisão americana e dominava a cobertura da imprensa internacional. Era o período em que a cultura de celebridades se consolidava, os blockbusters atingiam públicos gigantescos e o tapete vermelho se transformava em espetáculo paralelo.
Alguns números ajudam a entender essa dimensão. Em 1973, por exemplo, a transmissão da cerimônia alcançou cerca de 85 milhões de espectadores nos Estados Unidos, um dos maiores números já registrados. Décadas depois, em 1998, quando Titanic dominou a temporada e venceu onze estatuetas, o Oscar registrou cerca de 57 milhões de espectadores americanos, o recorde moderno da premiação.
Esse período marcou o momento em que o Oscar se tornou, de fato, o evento anual mais importante da indústria cinematográfica. A combinação de grandes sucessos populares, estrelas globais e cobertura televisiva massiva criava uma espécie de ritual coletivo que atravessava países e gerações.

A queda da audiência na era do streaming
A partir da década de 2010, começou a surgir uma narrativa recorrente: a de que o público teria perdido interesse pela cerimônia. Os números da televisão realmente caíram. Em 2018, pela primeira vez, a audiência americana ficou abaixo de 30 milhões de espectadores. O ponto mais baixo ocorreu em 2021, quando a cerimônia registrou cerca de 10,5 milhões de espectadores nos Estados Unidos, o menor número da história.
Esses dados alimentaram um debate sobre a relevância do Oscar no século 21. No entanto, a explicação é mais complexa do que simplesmente desinteresse do público. A queda reflete uma transformação estrutural no consumo de mídia. A televisão ao vivo perdeu espaço para o streaming, para os clipes sob demanda e para a circulação de conteúdo nas redes sociais.
Mesmo eventos gigantescos, como o Super Bowl ou as grandes premiações musicais, enfrentaram fenômenos semelhantes. A audiência linear diminuiu, mas a circulação cultural dos eventos continuou enorme.
O Oscar na era das redes sociais
É justamente nesse contexto que as redes sociais desempenham um papel fundamental na sobrevivência e até na revitalização cultural do Oscar. Embora menos pessoas assistam à cerimônia do início ao fim na televisão tradicional, milhões acompanham o evento em tempo real por meio de plataformas digitais.
Discursos são compartilhados instantaneamente, memes se espalham em minutos e momentos inesperados se transformam em fenômenos globais. O episódio em que Will Smith deu um tapa em Chris Rock, em 2022, dominou a internet mundial por dias. O debate sobre diversidade sintetizado pela hashtag OscarsSoWhite também nasceu nas redes e obrigou a Academia a repensar suas políticas de inclusão.
A própria dinâmica da premiação passou a considerar esse novo ambiente. Hoje o Oscar funciona simultaneamente como transmissão televisiva, evento digital e espetáculo de cultura pop. A conversa não termina quando a cerimônia acaba. Ela continua circulando em vídeos curtos, reações, análises e memes que mantêm o evento vivo por dias.
Paradoxalmente, portanto, o Oscar continua sendo o prêmio mais influente do cinema justamente porque conseguiu atravessar a transição entre dois sistemas de mídia. A televisão criou o espetáculo. A internet manteve esse espetáculo vivo.

O Brasil no Oscar: quando a premiação virou torcida nacional
A transformação do Oscar em um evento cultural global também pode ser observada na forma como diferentes países passaram a acompanhar a cerimônia. No Brasil, durante décadas, a premiação era vista principalmente como um espetáculo distante de Hollywood. Havia curiosidade e admiração pelas estrelas e pelos filmes indicados, mas raramente existia a sensação de participação direta naquela narrativa.
Essa relação começou a mudar nos anos 1990, quando o cinema brasileiro passou a aparecer com mais frequência na corrida pelo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. A indicação de O Quatrilho, de Fábio Barreto, em 1996, marcou um primeiro momento importante. Pela primeira vez em muitos anos, o público brasileiro acompanhava a cerimônia com a sensação de que havia um representante nacional naquela disputa.
Poucos anos depois, o impacto seria ainda maior com Central do Brasil, dirigido por Walter Salles. Em 1999, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e colocou Fernanda Montenegro entre as concorrentes ao prêmio de Melhor Atriz. Durante semanas, a presença da atriz brasileira na corrida foi acompanhada com intensidade pela imprensa e pelo público, como se se tratasse de uma final esportiva.

A relação emocional entre o Brasil e o Oscar se aprofundou ainda mais com Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles. Em 2004, o filme recebeu quatro indicações, incluindo direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem. Embora não tenha vencido nenhuma estatueta, sua presença em categorias centrais consolidou a percepção de que o cinema brasileiro podia disputar espaço entre as produções mais prestigiadas do mundo.
Mas a história não parou ali. Em 2025, o vínculo afetivo entre o público brasileiro e o Oscar voltou a ganhar intensidade com Ainda Estou Aqui. Além de render a Fernanda Torres uma indicação ao prêmio de Melhor Atriz, o filme conquistou para o Brasil a vitória em Melhor Filme Internacional.
E 2026 consolidou essa mudança em escala ainda maior. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chegou ao Oscar indicado a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco na nova categoria de Casting, enquanto Wagner Moura recebeu uma indicação histórica a Melhor Ator. No mesmo ano, Adolpho Veloso foi indicado em Fotografia por Train Dreams.
A partir desses momentos, o Oscar passou a ser acompanhado no Brasil de forma diferente. Sempre que um artista ou um filme brasileiro aparece entre os indicados, a premiação assume a atmosfera de uma torcida coletiva.



O Oscar na televisão brasileira
No Brasil, a história da transmissão do Oscar também acompanha a evolução da televisão e do próprio mercado audiovisual. Durante décadas, a cerimônia foi exibida pela TV aberta, principalmente pela TV Globo, que transmitia o evento com comentários especializados e grande expectativa do público cinéfilo.
A relação entre o Oscar e a televisão brasileira, no entanto, passou por algumas mudanças ao longo do tempo. Em determinados momentos dos anos 1980 e início dos anos 1990, a premiação deixou a programação da Globo e passou a ser exibida pelo SBT, refletindo a disputa entre as emissoras abertas por grandes eventos internacionais.
Independentemente da emissora, a transmissão ajudou a consolidar no país uma tradição curiosa: acompanhar a cerimônia durante a madrugada.
A partir dos anos 2000, com a expansão da televisão por assinatura no Brasil, o Oscar passou gradualmente a dividir espaço com canais especializados em cinema. O canal TNT assumiu a transmissão na TV paga para a América Latina.
Hoje o Oscar continua sendo exibido no Brasil principalmente pelo TNT, com transmissão simultânea pelo streaming da HBO Max.

O próximo salto: o Oscar na era do YouTube
A história do Oscar sempre esteve profundamente ligada às transformações dos meios de comunicação. A cerimônia nasceu como um jantar privado da indústria cinematográfica, tornou-se um espetáculo global graças à televisão e agora começa a se preparar para mais uma mudança estrutural. O próximo grande salto da premiação já está marcado para o fim da década.
A Academia anunciou que, a partir de 2029, a cerimônia do Oscar passará a ser transmitida globalmente pelo YouTube. A decisão representa uma mudança histórica para um evento que esteve ligado à televisão americana por mais de sete décadas. Desde 1953, quando a premiação foi exibida pela primeira vez na TV, o Oscar construiu sua reputação como um dos grandes espetáculos anuais da cultura popular. Durante grande parte desse período, a transmissão nos Estados Unidos ficou nas mãos da rede ABC, que exibe a cerimônia desde 1976.
A escolha do YouTube revela como a própria Academia reconhece a transformação do ecossistema de mídia. A audiência televisiva pode ter diminuído ao longo dos últimos anos, mas o alcance cultural do Oscar continua enorme quando se considera o consumo digital. Discursos, performances e momentos inesperados da cerimônia circulam imediatamente pelas redes sociais, muitas vezes alcançando milhões de visualizações em poucas horas.
Ao migrar para uma plataforma global de vídeo, a Academia tenta alinhar a transmissão oficial com o modo como o público já consome o evento. Em vez de depender exclusivamente da audiência da televisão ao vivo, o Oscar passa a se posicionar dentro de um ambiente digital capaz de alcançar espectadores em diferentes fusos horários, dispositivos e formatos de consumo.
De certa forma, essa mudança fecha um ciclo iniciado na década de 1950. Assim como a televisão transformou uma pequena cerimônia industrial em um espetáculo mundial, a internet e as plataformas digitais podem redefinir mais uma vez a escala da premiação. O Oscar, que nasceu em um salão de hotel diante de algumas centenas de convidados, prepara-se agora para existir plenamente em um palco potencialmente global.

O futuro do maior prêmio do cinema
A história do Oscar mostra como um evento pode se reinventar ao longo de quase um século. O prêmio nasceu como uma reunião discreta da indústria em um salão de hotel em Hollywood, tornou-se um dos maiores espetáculos da televisão do século 20 e agora começa a se transformar em um fenômeno plenamente digital.
Mesmo com oscilações de audiência ao longo dos últimos anos, a cerimônia continua ocupando um lugar singular no imaginário cultural. Nenhum outro prêmio do cinema possui o mesmo peso simbólico, a mesma capacidade de redefinir carreiras e a mesma força para concentrar, ainda que por algumas horas, a atenção da indústria e do público em torno de um único palco.
No século 21, o Oscar já não depende apenas da televisão. Ele vive também na circulação de imagens, comentários e debates que atravessam a internet em tempo real. Discursos são compartilhados instantaneamente, momentos inesperados se transformam em fenômenos globais e cada detalhe da cerimônia é reinterpretado por milhões de espectadores espalhados pelo mundo.

Se no passado o evento era definido pela audiência de um único canal, hoje sua verdadeira dimensão está na multiplicação de telas que comentam, reinterpretam e prolongam cada instante da premiação. O Oscar nasceu como um jantar para algumas centenas de convidados. Quase cem anos depois, tornou-se um ritual cultural global que continua sendo reinventado a cada nova era da mídia.
E em lugares como o Brasil, sempre que um filme ou artista nacional entra na corrida pela estatueta, esse ritual ganha uma camada extra de emoção coletiva. Por algumas horas, a cerimônia deixa de ser apenas um prêmio da indústria americana e passa a ser acompanhada como aquilo que muitos espectadores já sentem que ela é: uma espécie de Copa do Mundo cultural.
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