Com o passar dos anos, poucos vencedores do Oscar sofreram uma revisão histórica tão severa quanto Shakespeare Apaixonado. O que em 1998 parecia uma vitória charmosa de um filme espirituoso e apaixonado pelo teatro se transformou, aos olhos de uma nova geração de cinéfilos, quase em um símbolo de tudo o que há de errado com o prêmio da Academia. Para muitos espectadores mais jovens, que não viveram o contexto da época, Shakespeare Apaixonado virou um meme cultural: o exemplo perfeito do “pior filme que já ganhou o Oscar”.
Essa reputação tardia tem várias explicações, mas nenhuma delas diz respeito exatamente ao filme.

Há primeiro a sombra inevitável de Harvey Weinstein, cuja campanha agressiva de premiações ajudou a transformar Shakespeare Apaixonado no vencedor inesperado do Oscar de 1999. Há também a vitória controversa de Gwyneth Paltrow como melhor atriz, derrotando concorrentes formidáveis como Fernanda Montenegro e Cate Blanchett. E há ainda a mudança geral de percepção sobre os anos 1990, um período que hoje é constantemente revisitado com um olhar mais cínico sobre a política interna de Hollywood.
O resultado é que Shakespeare Apaixonado acabou se tornando menos um filme e mais um símbolo. O símbolo da ascensão de Weinstein. O símbolo de campanhas sujas de Oscar. O símbolo de uma vitória considerada injusta sobre O Resgate do Soldado Ryan. Tudo isso é verdade em algum grau. Mas nada disso explica por que o filme continua funcionando.
A premissa de Shakespeare Apaixonado permanece deliciosamente simples. Em Londres, no final do século 16, um jovem William Shakespeare atravessa um bloqueio criativo enquanto tenta escrever uma nova peça para o teatro. O projeto se chama Romeo and Ethel, the Pirate’s Daughter, um título que já sugere o tom bem-humorado do filme. Tudo muda quando ele conhece Viola de Lesseps, uma jovem aristocrata apaixonada por teatro que se disfarça de homem para poder atuar em um palco dominado por homens. O romance entre os dois se transforma na inspiração direta para aquilo que acabará se tornando Romeu e Julieta.
A ideia é ao mesmo tempo absurda e perfeita. Transformar a criação de uma das maiores tragédias da literatura em uma comédia romântica espirituosa poderia ter sido um desastre. Mas o roteiro, escrito por Marc Norman e refinado pelo dramaturgo Tom Stoppard, recém-falecido e uma das figuras mais respeitadas do teatro britânico, encontra o tom exato entre homenagem literária, metalinguagem e humor sofisticado.

Grande parte da graça do filme está no modo como ele brinca com o universo teatral elisabetano. Shakespeare rouba frases de conversas cotidianas que mais tarde aparecerão em suas peças. Personagens históricos surgem em versões levemente caricaturais. E a própria estrutura narrativa funciona como uma peça dentro da peça, um jogo constante entre vida, teatro e invenção artística.
Curiosamente, o próprio filme quase nunca existiu.
O projeto começou a circular em Hollywood ainda nos anos 1980 e passou anos tentando encontrar financiamento. Em determinado momento, Julia Roberts esteve ligada ao papel de Viola e chegou a exigir que Daniel Day-Lewis interpretasse Shakespeare. Quando o ator recusou, o projeto simplesmente entrou em colapso e voltou para a gaveta.
Foi apenas anos depois, já com a Miramax envolvida, que Shakespeare in Love encontrou um caminho para as telas. O papel de Shakespeare acabou indo para Joseph Fiennes, então praticamente desconhecido, cuja formação teatral e aparência romântica combinavam perfeitamente com a ideia de um dramaturgo jovem, impulsivo e apaixonado. Ao seu lado, Gwyneth Paltrow interpretava Viola em uma performance que na época foi vista como delicada e encantadora, ainda que hoje seja lembrada sobretudo por causa do Oscar que venceu.
O elenco de apoio ajudava a transformar o filme em algo ainda mais divertido. Geoffrey Rush interpretava o produtor teatral Philip Henslowe com um misto de desespero e humor físico que se tornaria um dos motores da narrativa. Colin Firth aparecia como o aristocrata arrogante Lord Wessex. E Judi Dench fazia uma participação curtíssima como a Rainha Elizabeth I, uma presença que durava poucos minutos em cena, mas que seria suficiente para lhe render um Oscar.

Quando estreou no final de 1998, Shakespeare in Love foi recebido com entusiasmo tanto pelo público quanto pela crítica. O filme arrecadou mais de 280 milhões de dólares no mundo inteiro, um resultado extraordinário para uma comédia romântica de época centrada em teatro e literatura. O charme do roteiro, a leveza do ritmo e o tom assumidamente romântico conquistaram uma audiência muito maior do que se imaginava inicialmente.
Foi nesse momento que entrou em cena a campanha de Oscar conduzida por Harvey Weinstein. A estratégia da Miramax foi intensa, agressiva e extremamente eficaz. Enquanto O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, parecia destinado a dominar a temporada, Shakespeare in Love passou a ser promovido como o filme que representava o amor pelo cinema, pela escrita e pelo teatro. O resultado foi uma das viradas mais comentadas da história do prêmio.
Na cerimônia de 1999, Shakespeare in Love venceu sete Oscars, incluindo melhor filme.

A vitória de Gwyneth Paltrow como melhor atriz se tornou imediatamente o momento mais controverso da noite. A categoria reunia concorrentes extraordinárias. Cate Blanchett havia impressionado o mundo com sua interpretação monumental da jovem Elizabeth I. Fernanda Montenegro entregara em Central do Brasil uma das atuações mais emocionantes da década. Com o passar do tempo, consolidou-se quase um consenso de que Blanchett deveria ter vencido.
Também circula há décadas uma história de bastidores segundo a qual o papel de Viola teria sido inicialmente associado a Winona Ryder, alimentando uma rivalidade entre as duas atrizes que virou parte do folclore de Hollywood. Verdadeira ou não, essa narrativa ajudou a reforçar a ideia de que a vitória de Paltrow representava mais a força da campanha da Miramax do que um reconhecimento artístico incontestável.
Décadas depois, quando as denúncias contra Harvey Weinstein vieram à tona e expuseram o sistema de abusos que sustentava parte de seu poder em Hollywood, Shakespeare in Love acabou sendo arrastado para essa reavaliação moral. O filme passou a ser visto como um símbolo de um sistema corrompido. E uma nova geração, que não experimentou o entusiasmo cultural do lançamento, começou a tratá-lo como um erro histórico.

Mas assistir ao filme hoje produz uma sensação curiosa. Shakespeare in Love continua sendo exatamente o que sempre foi: uma comédia romântica inteligente, cheia de diálogos espirituosos e profundamente apaixonada pelo teatro. O roteiro de Tom Stoppard permanece brilhante. A estrutura narrativa continua elegante. E o filme ainda possui algo que Hollywood produz cada vez menos, que é um romance adulto tratado com inteligência literária e humor.
Não, Shakespeare in Love não era melhor do que O Resgate do Soldado Ryan. Essa comparação continua sendo difícil de defender. Mas a alternativa não precisa ser transformá-lo em um desastre cultural.
Entre o triunfo exagerado de 1999 e o desprezo quase automático de hoje existe uma posição mais razoável. Shakespeare in Love não é o maior vencedor da história do Oscar. Mas continua sendo um bom filme. E, talvez mais importante, uma das raríssimas comédias românticas sofisticadas que Hollywood conseguiu transformar em fenômeno cultural global.
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