Durante mais de uma década, a figura de Tommy Shelby se transformou em uma das imagens mais reconhecíveis da televisão contemporânea. O casaco escuro, o boné de aba curta, o olhar imóvel de quem parece sempre calcular o próximo movimento. Desde a estreia de Peaky Blinders em 2013, esse gangster de Birmingham passou a ocupar um lugar curioso no imaginário popular. Ele é lembrado ao mesmo tempo como anti-herói trágico, estrategista brilhante, líder de família e, para muitos espectadores, quase um herói romântico.
Mas a aproximação de Peaky Blinders: The Immortal Man, que está em cartaz em alguns cinemas fora do Brasil e estreia dia 20 na Netflix, traz de volta uma questão que sempre esteve presente na série, mesmo quando muitos preferiam ignorá-la. Tommy Shelby nunca foi exatamente um homem bom. E talvez nunca tenha sido, de fato, um homem que agisse pela família.

Ao longo das seis temporadas da série, Tommy repetiu inúmeras vezes que tudo o que fazia era para proteger os Shelby. A frase tornou-se parte do mito do personagem. No entanto, a trajetória que vemos na tela conta uma história bem mais ambígua. Tommy constrói um império criminal, manipula aliados e inimigos com a mesma frieza, expõe irmãos e parentes a riscos constantes e toma decisões que frequentemente terminam em tragédia para aqueles que diz querer proteger.
Nada disso invalida o fascínio do personagem. Pelo contrário. Parte do poder de Tommy Shelby vem justamente dessa mistura de inteligência, trauma e brutalidade. Ele é um sobrevivente da Primeira Guerra Mundial que nunca conseguiu realmente sair dela. A guerra moldou seu olhar sobre o mundo, transformando estratégia, violência e paranoia em ferramentas de sobrevivência. Birmingham, para Tommy, nunca deixou de ser outra trincheira.
É nesse ponto que o novo filme parece aprofundar a leitura do personagem. Nas entrevistas recentes, Cillian Murphy falou sobre um tema central da história: o trauma geracional. Ele diz acreditar que esse tipo de trauma pode ser interrompido, mas também admite que Tommy talvez não seja capaz de fazê-lo. E a razão é simples e devastadora. Tommy abandona o próprio filho.
Essa ideia ajuda a entender a presença de Duke Shelby na nova história. No filme, Duke aparece liderando os Peaky Blinders enquanto o pai vive isolado, escrevendo memórias e tentando se afastar da vida que construiu. O personagem surge como sucessor do império criminal, alguém que ocupa o espaço deixado por Tommy dentro da organização.

Mas há um problema quando se tenta transformar Duke no herdeiro direto do trauma de Tommy. Na própria série, os dois quase não convivem. Duke surge apenas na sexta temporada e sua relação com o pai nunca chega a se desenvolver plenamente. Ele não cresceu ao lado de Tommy, não testemunhou as decisões que moldaram a família Shelby e não participou da dinâmica que marcou a história do clã ao longo dos anos.
Se existe um verdadeiro herdeiro emocional da história de Tommy Shelby, esse lugar pertence a outro personagem. Charles Shelby, o filho que ele teve com Grace Shelby, o grande amor de sua vida. É justamente esse filho que a série mostra se afastando dele no final da narrativa.
No encerramento da sexta temporada, Charles parte com Lizzie Shelby, que decide abandonar Birmingham e a vida dos Shelby. Enquanto isso, Tommy permanece preso ao próprio mundo, incapaz de acompanhar o filho. O detalhe é significativo porque revela uma contradição central do personagem. O homem que sempre afirmou agir pela família termina a série afastado justamente do filho que representava sua ligação mais profunda com o passado.
Essa contradição se torna ainda mais evidente na forma como Tommy direciona suas emoções nos últimos episódios da série. O centro emocional da temporada não é Charles, mas Ruby Shelby, a filha de Lizzie. A morte de Ruby se transforma em obsessão para Tommy e desencadeia uma espiral de culpa, superstição e desespero. É como se ele projetasse nela uma possibilidade de redenção que nunca conseguiu encontrar em si mesmo.

Enquanto Tommy se consome pela perda da filha, Charles desaparece silenciosamente da narrativa. O filho que poderia representar a continuidade da vida que ele sonhou com Grace é justamente aquele que ele perde.
Diante disso, a centralidade de Duke no filme levanta uma questão interessante. Ele é realmente o herdeiro dramático de Tommy Shelby ou apenas o sucessor funcional do império dos Peaky Blinders? São duas coisas muito diferentes. Duke pode assumir o comando da organização, mas o legado emocional da história de Tommy talvez esteja em outro lugar.
Essa ambiguidade também lança uma nova luz sobre o próprio título do filme. O “homem imortal” pode não ser apenas Tommy Shelby como figura lendária. A verdadeira imortalidade pode estar no sistema de poder e violência que ele criou, um mundo que continua existindo mesmo quando ele tenta se afastar.
Tudo isso leva a uma pergunta inevitável neste novo momento da carreira de Cillian Murphy. Depois do sucesso global de Oppenheimer e da chegada de uma nova geração de admiradores do ator, muitos espectadores podem se aproximar de The Immortal Man sem ter revisitado toda a trajetória de Tommy Shelby.
Será que esses novos fãs reconhecerão quem ele realmente foi?
Ou verão apenas o mito que se construiu ao redor do personagem, o gangster elegante que se tornou um ícone cultural nas redes sociais?
Talvez o filme sirva justamente para lembrar algo que a série sempre soube. Tommy Shelby nunca foi um herói. Foi um homem extraordinariamente inteligente, profundamente ferido e capaz de construir um império a partir do caos.
Mas, ao final da história, permanece a dúvida mais incômoda de todas. Tommy Shelby conquistou poder, riqueza e fama. O que ele nunca conseguiu construir, de verdade, foi uma família
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