Crise com Netflix expõe desgaste de Meghan e Harry

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Durante um período muito breve — e, olhando agora, quase ilusório — Meghan Markle ocupou a capa da Variety como símbolo de poder cultural, reinvenção e futuro. Era 2022, poucos meses após a morte da rainha Elizabeth II, e o enquadramento era claro: não se tratava apenas de uma ex-integrante da família real, mas de alguém em transição, prestes a converter capital simbólico em relevância criativa.

A indústria, naquele momento, não apenas observava. Ela apostava.

O contrato com a Netflix era um dos mais comentados da década. A docussérie Harry & Meghan ainda nem havia estreado, mas já existia uma expectativa quase cinematográfica em torno da narrativa: o casal que rompe com a monarquia britânica para reconstruir a própria história em Hollywood. Era uma promessa rara. E, como toda promessa rara, carregava valor.

Quatro anos depois, o artigo publicado pela Variety em 2026 faz algo muito diferente. Não anuncia um rompimento formal. Não traz declarações oficiais de crise. Mas constrói, com cuidado quase cirúrgico, a ideia de desgaste. A estrutura do texto é reveladora: cada crítica atribuída a fontes internas — reuniões difíceis, comunicação falha, repetição narrativa — é imediatamente contraposta por declarações institucionais de apoio de Ted Sarandos e Bela Bajaria. Não há ataque frontal. Há um equilíbrio calculado.

Educação? Estratégia? Lealdade corporativa?

Talvez um pouco de tudo. Mas, sobretudo, um sinal de que a relação já não é mais movida por entusiasmo, e sim por gestão.

Se a Variety hoje explicita o desgaste, a The Hollywood Reporter já vinha sugerindo essa virada há mais tempo. E o arco, quando visto em conjunto, é quase didático.

Entre 2020 e 2022, há encantamento institucional. Hollywood queria acesso. Queria a história. Queria o que Meghan e Harry tinham de mais valioso: a experiência direta com a monarquia e a ruptura que se seguiu.

Em 2023, surge a primeira fratura. O fim do contrato com o Spotify, após apenas um projeto relevante, não foi apenas um encerramento comercial. Foi um momento simbólico. Especialmente quando Bill Simmons chama o casal de “grifters”. Pela primeira vez, a crítica não era implícita. Era pública. E vinha de dentro da indústria.

A partir daí, a pergunta muda: eles têm acesso, mas conseguem produzir?

Entre 2024 e 2026, a resposta começa a se desenhar com menos generosidade. Projetos cancelados. Dificuldade de engajamento com talentos A-list. Uma presença cada vez mais deslocada do centro criativo para a periferia do branding. O foco em As Ever, a ausência de obras roteirizadas, a sensação de que a narrativa não evolui.

E é aqui que entra um elemento central, que Meghan insiste em mobilizar: a ideia de smear campaign.

No vocabulário contemporâneo, uma smear campaign é uma estratégia deliberada de difamação, construída para minar a reputação de alguém por meio de vazamentos, distorções e narrativas negativas. Meghan frequentemente se posiciona como alvo desse tipo de operação — uma vítima de estruturas institucionais, midiáticas e até raciais que buscariam desacreditá-la.

O problema é que, mesmo quando essa hipótese é plausível — e em alguns momentos, ela é —, a resposta construída pelo casal acaba produzindo um efeito colateral difícil de ignorar.

A narrativa nunca se complexifica.

Ela permanece unilateral. Sempre há um agente externo responsável, uma injustiça, uma violência simbólica. O que raramente aparece é a possibilidade de falha interna. De erro. De limitação. De derrota.

E é justamente essa ausência que começa a desumanizar Meghan e Harry aos olhos da indústria.

Porque Hollywood, como qualquer sistema criativo, não exige perfeição. Mas exige consciência de imperfeição.

Quando tudo é injustiça, nada é responsabilidade.

A própria cobertura da The Hollywood Reporter ilustra isso com precisão. Ao longo dos últimos anos, o veículo publicou reportagens baseadas em apuração consistente — incluindo críticas à dificuldade de execução de projetos — e manteve suas informações mesmo diante de respostas oficiais do casal. Não houve recuo. Houve sustentação editorial.

E isso importa. Porque indica que o problema deixou de ser percepção e passou a ser reputação consolidada.

Até hoje, curiosamente, apenas o episódio com o Spotify foi abertamente hostil. O resto da indústria se move com muito mais cautela. Mas isso não significa aprovação. Significa, muitas vezes, distância.

A cultura pop também percebeu esse deslocamento antes da imprensa mais institucional. Quando Meghan e Harry se tornaram alvo de um episódio de South Park, não foi apenas uma piada. Foi um marcador. Um sinal de que haviam atravessado uma linha invisível: de protagonistas de narrativa para objeto de sátira.

E, em Hollywood, esse é um ponto de inflexão importante.

Quase dez anos depois do início dessa trajetória — seis deles já fora da família real — o casal permanece associado a narrativas intensas, acusatórias, frequentemente contestadas. Meghan insiste em temas como felicidade, perdão e empatia. Mas os críticos encontram com facilidade exemplos que parecem contradizer esse discurso.

Há, portanto, um descompasso entre intenção e percepção e é nesse ponto que a lógica da indústria se impõe com mais clareza. Porque não é exatamente sobre Meghan e Harry, mas sobre o funcionamento de Hollywood, que compra acesso, mas só sustenta quem entrega.

O casal fez o movimento inverso. Começou com acesso máximo, talvez o maior capital simbólico disponível naquele momento, mas demorou a construir uma base consistente de produção.

O resultado não é um colapso imediato. É algo mais lento e, talvez, mais difícil de reverter: o cansaço.

E o cansaço, ao contrário do escândalo, não explode. Ele se instala.

Ainda há apoio. Ainda há projetos em desenvolvimento. Ainda existe uma base fiel de fãs, o chamado Sussex Squad, que sustenta a narrativa pública do casal. Mas a pergunta que começa a surgir, cada vez com mais frequência, não é sobre o passado e sim sobre o futuro. Como se reconstrói uma narrativa quando ela se torna previsível?

Talvez o caminho passe por algo que até agora esteve ausente: ambiguidade. Reconhecimento de falhas. Menos controle absoluto da própria imagem. Mais risco criativo. Menos explicação, mais entrega.

Afinal, não é a história que sustenta uma carreira em Hollywood.

É o que se faz depois dela.


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