Sempre se repetiu que Succession era “inspirada” na família de Rupert Murdoch. E, durante anos, isso pareceu suficiente. A série criada por Jesse Armstrong foi tratada como uma das leituras mais sofisticadas sobre poder, herança e degradação moral na televisão contemporânea.
Mas há um deslocamento inevitável ao assistir Dynasty: The Murdochs, documentário dirigido por Liz Garbus para a Netflix. Não se trata apenas de reconhecer paralelos. Trata-se de perceber o limite da ficção diante de uma realidade que opera em outra escala, mais crua, mais instável e, sobretudo, mais perturbadora.
E o próprio documentário começa deixando isso explícito. Logo nos primeiros minutos, ele invoca diretamente Succession e faz uma revelação que parece saída de um roteiro, mas é real. Sim, os filhos de Rupert Murdoch assistiam à série. Sim, acompanhavam de perto aquela versão ficcional da própria dinâmica familiar. E mais do que isso, foi justamente um dos episódios mais marcantes da televisão recente, a morte de Logan Roy, que funcionou como um gatilho.

Diante daquele espelho desconfortavelmente próximo, a família percebeu algo que até então permanecia suspenso. A sucessão não estava definida. Rupert Murdoch poderia morrer a qualquer momento. E, diante dessa possibilidade concreta, eles agiram.
Há algo profundamente perturbador nessa inversão. Não é apenas a vida imitando a arte. É a ficção interferindo diretamente na realidade.
A própria Garbus aponta esse caminho ao explicar que o interesse central do projeto nunca foi apenas narrar a trajetória de uma família poderosa, mas entender como dinastias midiáticas moldam a forma como enxergamos o mundo. Ao questionar quem controla essas empresas e quais são suas agendas pessoais, o documentário desloca a discussão para além do entretenimento e a insere no campo da responsabilidade pública. O que está em jogo não é apenas quem herda um império, mas como esse império interfere diretamente na política, na informação e na percepção coletiva da realidade.
É nesse ponto que a sensação se impõe com força. Se considerávamos Succession brilhante, o documentário sugere que ela foi, de certa forma, contida. A realidade dos Murdoch apresenta dramas, traições e reviravoltas que ultrapassam qualquer construção dramática, não porque sejam mais espetaculares no sentido clássico, mas porque carregam consequências reais e mensuráveis.
Sempre se tentou mapear os Murdoch dentro da lógica da série. Lachlan Murdoch como Kendall Roy, James Murdoch como uma variação mais racional do herdeiro, Elisabeth Murdoch como Shiv Roy.
Mas o documentário corrige esse olhar.

Lachlan não é Kendall. Ele se aproxima muito mais de Roman Roy, o filho que, no fim, se alinha ao pai e se torna o herdeiro viável. James se aproxima mais do herdeiro que rompe e perde, aquele que tenta redefinir seu papel fora da lógica do império e, ao fazer isso, se afasta dele. Elisabeth ocupa um espaço que nunca se concretiza plenamente, mesmo quando parece possível.
E é nesse deslocamento que a realidade se impõe. Porque ela não precisa sustentar a ambiguidade que torna a ficção tão fascinante.
As disputas entre Lachlan, James e Elisabeth se desenrolam ao longo de anos e atravessam estratégias jurídicas, vazamentos, reorganizações silenciosas e movimentos cuidadosamente calculados. Não há apenas conflitos pessoais, mas decisões que impactam diretamente um dos maiores conglomerados de mídia do mundo e, por consequência, o debate público em escala global.
O título Dynasty reforça essa leitura em mais de um nível. Ele resume o eixo central da narrativa, que é a sucessão e a continuidade de poder, mas também evoca a novela dos anos 1980s, Dynasty, símbolo máximo do melodrama televisivo, marcado por disputas familiares, riqueza e rivalidades exacerbadas. A escolha ganha ainda mais força quando se considera a enorme popularidade da novela na Austrália, onde a família construiu as bases do seu império. O documentário parece consciente desse eco cultural, mas o que apresenta não é um exagero estilizado e sim um drama estrutural, em que o espetáculo não é construído, mas inevitável.

Há também um elemento de fascínio que a série não tenta esconder. Existe um prazer evidente em acompanhar essa disputa, em reconhecer nela ecos da ficção, em observar como personagens reais parecem, por momentos, confirmar arquétipos que conhecemos bem. No entanto, esse prazer é constantemente tensionado por uma camada de desconforto. O documentário insiste em lembrar que não estamos diante de um jogo isolado, mas de uma estrutura de poder que molda narrativas políticas, influencia eleições e redefine o ecossistema midiático.
Para os órfãos de Succession, Dynasty: The Murdochs é um ponto de chegada inevitável, mas não como substituto. Ele funciona como expansão e, ao mesmo tempo, como correção de perspectiva. Ao contrário da série, que se constrói na instabilidade e na promessa de que tudo pode mudar, o documentário aponta para algo mais inquietante. O poder não depende de grandes reviravoltas para se afirmar. Ele se consolida, se reorganiza e, no fim, escolhe.
Essa escolha, que se materializa na ascensão de Lachlan, não vem acompanhada de catarse. Não há clímax, não há colapso, não há resolução dramática no sentido clássico. Há apenas a confirmação de um sistema que sempre caminhou nessa direção. E talvez seja exatamente isso que torna o documentário tão impactante.
Ao final, não resta apenas a impressão de que a realidade superou a ficção. Fica a sensação de que estávamos, o tempo todo, olhando para uma versão suavizada da história. E que, diante do que Dynasty: The Murdochs revela, o verdadeiro drama nunca esteve naquilo que imaginávamos, mas naquilo que, por muito tempo, preferimos tratar como distante.
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