A Moon Shaped Pool 10 anos depois: o álbum mais íntimo do Radiohead

Em 2016, quando o Radiohead lançou A Moon Shaped Pool, a sensação era de um retorno silencioso. Não havia a ruptura estética de Kid A, nem a tensão política explícita de Hail to the Thief. O que havia era algo mais difícil de nomear. Um disco que parecia se mover com cuidado, quase como se cada música tivesse sido construída a partir de um lugar emocional ainda instável. É dos álbuns de luto que destaquei como um dos mais significativos das últimas décadas.

Dez anos depois, essa impressão não apenas permanece como se aprofunda. A Moon Shaped Pool talvez seja o álbum mais humano da banda. Não no sentido de simplicidade, porque nada no universo do Radiohead é simples, mas na forma como ele expõe fragilidade sem recorrer ao excesso. É um disco que respira.

Parte dessa sensação vem do próprio processo de construção. Muitas das canções já existiam há anos, algumas há décadas, como True Love Waits, que atravessou a história da banda como uma espécie de fantasma até finalmente encontrar sua forma definitiva. Outras, como Burn the Witch, carregavam uma longa gestação desde os tempos de Kid A. O que o álbum faz não é apresentar novidades, mas reorganizar o tempo. É como se o passado da banda fosse revisitado à luz de uma nova experiência emocional.

E essa experiência é incontornável. Embora nunca tenha sido explicitamente assumido como um disco sobre separação, é impossível ouvir A Moon Shaped Pool sem perceber a sombra da ruptura de Thom Yorke com Rachel Owen. Há uma sensação constante de perda, mas não de forma dramática ou explosiva. O que domina o álbum é algo mais raro: uma aceitação quase exausta, como se o impacto já tivesse passado e restasse apenas o eco.

Musicalmente, isso se traduz em um trabalho mais contido. As cordas, arranjadas por Jonny Greenwood, não aparecem como ornamento, mas como estrutura emocional. Elas sustentam o disco, criando uma textura que oscila entre o clássico e o inquietante. Há algo de câmara, de música de câmara mesmo, que aproxima o álbum de um espaço mais íntimo, quase doméstico, mesmo quando ele se expande.

Ao mesmo tempo, o disco não abandona completamente a inquietação que sempre definiu o Radiohead. Burn the Witch ainda pulsa com sua tensão política, refletindo sobre pensamento coletivo e estruturas de poder. The Numbers ecoa preocupações ambientais que, olhando em retrospecto, só se tornaram mais urgentes. Mas esses temas aparecem diluídos, como se o mundo exterior fosse filtrado por uma experiência interna mais intensa.

Talvez por isso o álbum tenha sido descrito, na época, como mais contido. Hoje, essa contenção soa menos como limitação e mais como escolha. A Moon Shaped Pool não quer impressionar.

Chegando em 2026, ele ocupa um lugar curioso dentro do catálogo do Radiohead. Não é o mais revolucionário, nem o mais imediato. Mas é, possivelmente, o mais duradouro. Um disco que não se esgota na primeira escuta, nem na décima. Ele exige tempo, e talvez por isso tenha envelhecido tão bem.

Há também algo de simbólico no fato de ser, até agora, o último álbum da banda. Em uma década marcada por projetos paralelos, trilhas sonoras e colaborações, A Moon Shaped Pool permanece como o último grande gesto coletivo do Radiohead. E isso altera sua leitura. O que antes parecia um capítulo se transforma, com o passar do tempo, em uma espécie de ponto suspenso.

Não exatamente um fim, mas uma pausa longa o suficiente para mudar o significado de tudo o que veio antes.

Se o Radiohead voltar a lançar música, esse disco será inevitavelmente relido como transição. Se não voltar, ele já funciona como algo ainda mais raro. Um encerramento involuntário, mas profundamente coerente.

No fim, talvez seja isso que faz de A Moon Shaped Pool um álbum tão singular dentro do catálogo da banda. Ele não tenta responder nada. Ele apenas aceita.

E, às vezes, isso é mais difícil do que qualquer ruptura.


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