*Publicado originalmente em 07/02/2026 às 15h37. Atualizado e republicado em 19/03/2026 com novas informações sobre a sucessão da Disney.
Quando a The Walt Disney Company anunciou que Josh D’Amaro seria seu novo CEO a partir de 18 de março de 2026, após votação unânime do conselho de administração, a notícia foi recebida como o encerramento de um longo processo sucessório. No entanto, reduzir esse movimento a uma simples troca de comando é ignorar a dimensão histórica do que está sendo resolvido agora. A escolha de D’Amaro funciona como um diagnóstico tardio e explícito da crise que atravessou a Disney ao longo dos anos 2020 e, por extensão, da crise estrutural que atingiu Hollywood quando o setor apostou tudo em expansão contínua, streaming irrestrito e crescimento sem lastro.
A origem desse processo está na saída inicial de Bob Iger em 2020, apresentada à época como uma transição madura após quinze anos de uma liderança que redefiniu o entretenimento global por meio da consolidação de franquias e aquisições estratégicas. A narrativa institucional falava em planejamento e continuidade, mas a realidade rapidamente expôs fragilidades profundas. A pandemia fechou parques no mundo inteiro, eliminando a principal âncora financeira da empresa, enquanto o streaming foi acelerado como solução emergencial, crescendo rápido demais, caro demais e sem disciplina clara de identidade ou custos.

O escolhido para substituir Iger naquele momento foi Bob Chapek, então presidente da divisão de parques, produtos e experiências. A ironia histórica é incontornável. Chapek também vinha dos parques, também representava o lado operacional da Disney e também parecia, no papel, uma escolha capaz de oferecer estabilidade em meio ao caos. O que se seguiu, porém, foi um colapso de autoridade simbólica e estratégica. Chapek assumiu quando os parques estavam fechados, o streaming inflado artificialmente pela pandemia e a empresa mergulhada em uma reorganização interna que concentrou decisões financeiras e diluiu o poder criativo.
A Disney passou a produzir muito, gastar mais ainda e comunicar cada vez menos coerência. Investidores perderam confiança, talentos se afastaram, e o público começou a sentir uma saturação de conteúdo que já não carregava o mesmo peso cultural. Chapek não caiu apenas por decisões impopulares, mas porque representou o fracasso de uma sucessão feita no momento errado, com a base financeira errada e sem consenso interno. O problema não foi ele vir dos parques, mas o fato de que, naquele momento, os parques não tinham força suficiente para sustentar o resto do império.
Desta vez, há um elemento novo que diferencia essa transição de todas as anteriores e que não pode ser ignorado. Pela primeira vez em décadas, a sucessão na Disney ocorre sem ruptura visível, sem saídas traumáticas e sem disputas públicas de poder. O processo foi longo, transparente e cuidadosamente conduzido para evitar qualquer surpresa, justamente o oposto do que aconteceu em 2020. A permanência de nomes centrais como Dana Walden e outros líderes estratégicos não é apenas sinal de continuidade, mas parte de uma decisão deliberada de estabilidade. A Disney não apenas escolheu um novo CEO, ela construiu um ambiente em que essa escolha não gera fricção.
É nesse contexto que a volta de Bob Iger em 2022 precisa ser lida como intervenção emergencial, e não como retorno triunfal. Iger reassumiu uma empresa desorganizada, pressionada por investidores ativistas, por um streaming deficitário e, pouco depois, pelas greves históricas que paralisaram Hollywood. Em suas próprias palavras, ao retornar, os funcionários haviam perdido a confiança na empresa em que trabalhavam, uma declaração rara que sintetiza o nível de desorganização interna naquele momento.
Sua missão foi conter danos, restaurar previsibilidade e reconstruir confiança. Funcionou parcialmente. A Disney deixou de parecer à deriva, desacelerou a produção e voltou a falar em foco e disciplina. Mas não funcionou como solução definitiva porque nunca foi essa a intenção. Iger voltou para fechar um ciclo interrompido de forma caótica e preparar uma transição mais consciente.

A diferença fundamental agora está no reposicionamento do eixo financeiro da empresa. Os parques não apenas se recuperaram, como passaram a dominar a equação. Em 2025, a divisão de parques, experiências e produtos gerou cerca de 35 a 36 bilhões de dólares em receita, respondendo por mais da metade do lucro operacional da Disney. Apenas no primeiro trimestre fiscal de 2026, essa área gerou aproximadamente 10 bilhões de dólares.
Esses números redefinem a narrativa. Se durante décadas a Disney foi percebida como a empresa dos desenhos, depois dos filmes, depois das franquias globais e mais recentemente do streaming, os anos 2020 deixam claro que é a Disney dos parques que comanda todas as outras. São eles que sustentam riscos, absorvem perdas e garantem continuidade.
Ao escolher D’Amaro, a Disney assume que conteúdo não lidera mais sozinho. Ele passa a operar dentro de um sistema cujo centro é físico, experiencial e financeiro. Filmes e séries deixam de ser apenas produtos e passam a ser peças de um ecossistema maior, cuja materialização final acontece fora da tela.
A criação do cargo de Chief Creative Officer e a consolidação do papel de Dana Walden reforçam essa divisão entre operação e narrativa, evitando o erro da era Chapek, quando o controle financeiro sufocou o discurso criativo sem resolver o problema estrutural.

A saída definitiva de Bob Iger até o fim de 2026 fecha esse ciclo com uma clareza rara. Ele não sai por falha, mas porque representa uma era que não pode mais ser repetida nos mesmos termos. Seu legado final não é apenas a expansão, mas a compreensão de que até impérios precisam recuar para continuar existindo.
Nos anos 2020, a Disney aprendeu da forma mais dura que histórias não sobrevivem sozinhas. Elas precisam de chão. E, no universo Disney, esse chão continua sendo feito de concreto, fila, ingresso, castelo e parque lotado.
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