Romeo + Juliet aos 30: o filme de Baz Luhrmann ainda divide e fascina

O risco inicial: adaptar Shakespeare nos anos 1990

Em 1996, adaptar Romeo + Juliet não parecia uma escolha ousada. Parecia um erro. Manter o texto de William Shakespeare intacto enquanto se colocava a história em um mundo de armas, televisão e excesso visual soava como uma ideia destinada a não funcionar. Foi exatamente isso que tornou o filme impossível de ignorar.

Sou fã de Baz Luhrmann desde Strictly Ballroom, um filme aparentemente simples, quase íntimo, mas que já revelava com clareza uma assinatura estética muito definida, mesmo com um orçamento restrito se comparado aos projetos que viriam depois. Com exceção de Australia, nunca o vi dar um passo em falso. Foi com Strictly Ballroom que ele inaugurou aquilo que mais tarde definiria como a Trilogia da Cortina Vermelha, concluída com Moulin Rouge!, quando sua visão musical e estilizada de cinema se apresenta em estado pleno.

No meio desse percurso, adaptar William Shakespeare parecia uma ousadia quase imprudente. Era apenas seu segundo longa, seu primeiro grande projeto nos Estados Unidos, e ainda assim ele decidiu manter o texto original do final do século 16 enquanto deslocava a ação para um universo contemporâneo marcado por violência urbana, cultura pop e iconografia midiática. O anacronismo não era um efeito colateral. Era o próprio projeto.

Um mundo próprio: o anacronismo como linguagem

Baz Luhrmann não moderniza Shakespeare. Ele cria um mundo em que Shakespeare já pertence ao presente.

As famílias Montéquio e Capuleto deixam de ser clãs nobres renascentistas e passam a operar como impérios rivais com fachada empresarial. As espadas são substituídas por armas de fogo que preservam os nomes do texto original. Verona se transforma em Verona Beach, um espaço ficcional saturado de signos contemporâneos. Ainda assim, o inglês elisabetano permanece intacto.

Essa tensão entre linguagem e imagem é o que sustenta o filme. E é também o que o diferencia de outras adaptações. Enquanto diretores como Franco Zefirelli, Laurence Olivier e Kenneth Branagh buscaram distância histórica para acomodar textos do bardo inglês, Luhrmann constrói um universo próprio com regras internas tão precisas que o anacronismo deixa de soar como ruptura e passa a funcionar como lógica.

O risco de Romeo + Juliet nunca foi parecer exagerado. Foi o de não ser compreendido.

O momento em que o filme se revela

Cheguei ao filme com boa vontade, movida pela minha paixão por Shakespeare e pelo próprio Luhrmann, mas também com desconfiança. Essa hesitação dura muito pouco. O início é acelerado, quase agressivo, como se o filme exigisse adesão imediata às suas regras.

E então tudo desacelera.

No baile, ao som de I’m Kissing You, de Des’ree, o filme encontra seu centro emocional. Ali, a proposta deixa de ser intelectual e passa a ser sensorial. É o momento em que o excesso se organiza e a história se impõe.

Música como estrutura emocional

A trilha sonora, assinada por Craig Armstrong, Nellee Hooper e Marius de Vries, é um dos pilares do filme. Sua orquestração sensível convive com uma curadoria que incorpora artistas como Radiohead e Garbage, criando uma ponte direta entre a intensidade do texto e a linguagem dos anos 1990.

Há ainda uma conexão reveladora com Moulin Rouge!. A canção Come What May, que mais tarde se tornaria o tema central de Satine e Christian, foi originalmente composta para Romeo + Juliet. Acabou substituída por I’m Kissing You, uma escolha que define o tom do filme, mas essa sobra criativa reaparece anos depois, como um eco direto desse primeiro experimento. Nesse sentido, Romeo + Juliet funciona também como embrião emocional do que Luhrmann levaria ao limite no musical seguinte.

O elenco e as escolhas que moldaram o filme

Os bastidores do elenco revelam o quanto esse filme poderia ter sido outro. Antes de Leonardo DiCaprio assumir o papel, nomes como Christian Bale e Heath Ledger chegaram a ser considerados. Foi o próprio DiCaprio quem viajou por conta própria até Sydney para participar de testes que convenceram o estúdio a apostar no projeto.

Seu Romeu é inquieto, impulsivo, emocionalmente exposto. Ele não declama Shakespeare. Ele parece pensar naquele idioma.

Do lado de Julieta, Natalie Portman chegou a ser escalada, então com 14 anos, mas acabou substituída quando a diferença em relação a DiCaprio se tornou evidente. A escolha por Claire Danes, com 16 anos e vinda da televisão, trouxe outra energia.

Danes é uma grande atriz, mas aqui há um descompasso interessante. Sua cadência respeita a musicalidade teatral do texto, algo que funciona no palco, mas que nem sempre encontra o mesmo equilíbrio dentro de um filme que exige outra naturalidade. DiCaprio, ao contrário, parece ter entendido intuitivamente como fazer aquele inglês elisabetano soar moderno. A química entre os dois é inegável, mas o Romeu dele, revisto hoje, se impõe com mais clareza do que a Julieta dela.

Quando a adaptação ousa mais que o original

Entre as decisões mais radicais de Luhrmann está a transformação de monólogos em diálogos. O gesto pode parecer heresia para os puristas, mas aqui funciona como prova de que a adaptação não é submissão, é leitura.

O exemplo mais devastador está no final. Ao fazer Julieta acordar antes da morte de Romeu, ele altera a estrutura da tragédia. Em Shakespeare, há uma proteção cruel no desconhecimento, mas na visão de Luhrman há consciência e impotência.

A tragédia deixa de ser apenas inevitável e passa a ser testemunhada. Impossível segurar as lágrimas mesmo sabendo antecipadamente o final da história.

Sucesso, crítica e reavaliação

Do ponto de vista industrial, o filme foi um sucesso expressivo. Produzido com cerca de 14,5 milhões de dólares, arrecadou aproximadamente 147 milhões em todo o mundo e estreou em primeiro lugar nas bilheterias americanas, com forte desempenho também na Austrália.

A recepção crítica inicial foi dividida. Parte da crítica elogiou a ousadia estética e as performances, enquanto outra reagiu ao excesso visual e à quebra de expectativas em relação às adaptações tradicionais de Shakespeare. Roger Ebert foi um dos que demonstraram resistência, enquanto outros reconheceram que a força do filme estava justamente na sua disposição de arriscar.

Com o tempo, a leitura mudou. O filme passou a ser amplamente utilizado como porta de entrada para Shakespeare e foi reavaliado como uma das adaptações mais influentes do autor no cinema, acumulando prêmios como quatro BAFTAs, incluindo Melhor Direção, além de uma indicação ao Oscar.

Por que Romeu e Julieta

A escolha de adaptar Romeo and Juliet não foi casual. O próprio Luhrmann já afirmou que queria entender como Shakespeare faria cinema. Partindo da ideia de que o teatro elisabetano era um espaço de excesso, ruído e disputa por atenção, ele encontrou nessa história a estrutura ideal para sustentar uma abordagem radical.

Trata-se de uma narrativa amplamente conhecida. Isso permite experimentar na forma sem perder o público.

No centro de tudo está uma tragédia sobre juventude, impulso e intensidade. E talvez seja exatamente por isso que, trinta anos depois, Romeo + Juliet ainda não se resolve completamente. Ele continua sendo mais experiência do que consenso.


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